A Fifa divulgou nesta quarta-feira o seu relatório anual sobre o futebol profissional, com dados dos diversos clubes e competições do mundo. O documento diz que há 3.425 clubes profissionais no mundo em 205 países. Além disso, 91% dos membros associados à Fifa possuem um sistema de licenciamento em vigor. Isso, segundo o relatório, significa um aumento de 13% desde o relatório passado.

Os dados do relatório dizem respeito à temporada 2018/19 ou 2018, quando o calendário é anual, como é o caso do Brasil. A publicação ainda traz vários dados sobre a organização das ligas e dos clubes e joga luz em como funciona o futebol profissional em grande parte do mundo. Alguns destaques nos mostram um pouco como estamos posicionados no mundo.

Quem organiza a liga?

Em cerca de dois terços dos casos, o organizador da competição de primeira divisão são as federações do país, e não uma liga independente. Isso coloca o Brasil ao lado da maioria, já que, por aqui, a organização do Campeonato Brasileiro é responsabilidade da CBF. Ainda que esteja com a maioria, as grandes ligas do mundo estão na minoria neste caso. Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, França e mesmo a Argentina, contando ligas da América do Sul.

O Brasileirão certamente está entre as 10 principais ligas de futebol do mundo, pelo menos, mas é a única gerida pela federação. Mesmo grandes ligas regionais, como a MLS, nos Estados Unidos, e a Liga MX, no México, são independentes da federação. Assim como grande parte das ligas europeias, todas as principais.

Apesar da organização do Brasileirão ser da CBF, os clubes ganharam mais poder nos últimos anos. Aliás, dá para dizer que os clubes por aqui não querem organizar um campeonato, muito menos formar uma liga. A relação com a CBF, que é essencialmente política, serve como benefício em alguns pontos, ao menos para os dirigentes.

Patrocinador no nome

Outro dado curioso diz respeito à venda do nome do campeonato: 63% dos campeonatos de primeira divisão possuem um patrocinador no nome. Algo que também se repete no Brasil: o Brasileirão, embora seja uma marca registrada e a mais usada, além do clássico Campeonato Brasileiro, o nome oficial é Brasileirão Assaí, por venda dos direitos do nome. A rede de supermercados patrocina o nome do principal campeonato do Brasil desde 2018. Aliás, curiosamente, a marca só passou a patrocinar o nome do Brasileirão em julho de 2018. Então, o nome mudou durante o campeonato. Começou como Brasileirão, terminou como Brasileirão Assaí.

Venda de direitos de TV

Outro dado bastante interessante do relatório diz respeito à venda de direitos de TV. A venda coletiva é de longe a mais comum quando se trata de direitos de transmissão. Apenas em 23 países (dos 205, lembre-se) os clubes vendem individualmente seus direitos de TV para as partidas. Neste caso, o Brasil está em uma minoria. A venda coletiva de direitos de transmissão é, evidentemente, muito mais inteligente e dá muito mais possibilidade de poder negociar valores maiores. É como todas as grandes ligas negociam

Entre as grandes ligas com vendas individuais, a única com importância que é similar ao Brasil é o México. Por lá, é um caos para transmitir, cada emissora pode transmitir os jogos como mandantes dos times com os quais têm contratos. Por aqui, vimos o que aconteceu em 2019: duas emissoras transmitindo na TV por assinatura e alguns jogos “no escuro”, além do Athletico Paranaense ter ficado sem transmissão no pay-per-view por não aceitar os valores, considerados baixos. Palmeiras e Athletico ainda demoraram para fechar contrato com a TV aberta e os acordos só foram alcançados depois do campeonato iniciado.

Formato da liga

A fórmula de disputa do campeonato tem uma maioria no formato como nos acostumamos aqui no Brasil e também nas grandes ligas do mundo. No geral, 60% das competições domésticas são baseadas no formato pontos corridos (com partidas em casa e fora). Entre as maiores ligas do mundo, inclusive considerando as ligas regionais, só a MLS e a Liga MX possuem um sistema de jogos eliminatórios – não por acaso, os dois na mesma região.

Além disso, 81% das ligas possuem acesso e descenso. Novamente, só Liga MX e MLS não possuem acesso e descenso. Os mexicanos mudaram isso recentemente e o acesso não depende mais do campo, depois de vermos acontecer repetidamente os donos de clubes rebaixados comprarem outros clubes que continuaram na primeira divisão para a manutenção do seu status como time da elite do futebol do país. Nos Estados Unidos, nunca houve acesso e descenso, como em todos as demais ligas americanas.

Em 71% dos países há medidas estabelecidas para limitar o número de jogadores inscritos. O Brasil entra na estatística. A CBF colocou em pauta no Conselho Técnico do Brasileirão uma proposta para limitar o número de inscritos. Como os clubes possuem poder de veto, o número estabelecido foi de 45 (a proposta da CBF já era bem solta, de 40 inscritos). E além dos 45 inscritos, ainda há duas ressalvas: está liberado a utilização de jogadores sub-20 e ainda é possível fazer até cinco substituições na lista total de inscritos. Ou seja, na prática, é como não ter limite algum.

Em ligas como a Itália, por exemplo, a inscrição de jogadores é bastante restrita: cada clube pode inscrever apenas 25 jogadores (jogadores abaixo de 21 anos estão automaticamente inscritos), sendo que oito destes precisam ter sido formados no futebol italiano (independente da sua nacionalidade) e outros quatro precisam necessariamente terem sido formados pelo clube. Foram medidas adotadas pela liga italiana para tentar fortalecer a formação de jogadores no país.

A Inglaterra tem um sistema similar, ainda que um pouco menos rígido: também há um limite de 25 inscritos e oito deles necessariamente precisam ser formados no futebol inglês. Isso fez com que os jogadores ingleses (ou, no limite, formados no país, embora a grande maioria seja inglesa) ganhassem uma valorização, porque os clubes passaram a precisar ter jogadores do país para inscreverem jogadores.

Transferências

Embora os nossos olhos estejam nas grandes ligas, os dados mostram uma realidade que é curiosa em relação às transferências. As janelas de transferências atuais cobrem mais de um quarto do ano (97 dias). O Brasil mal tem janela de transferências nacionais, aqui o limite é a data de inscrição no campeonato. Só existe janela de transferências para jogadores que chegam de fora do país. E isso só existe porque a Fifa exige que haja um período de transferências internacionais no país e coloca limitações – não pode ser o ano inteiro.

Só 37 federações viram mais de 150 contratações internacionais. Mais do que isso: um quarto dos 211 países não receberam qualquer jogador de fora do país. Afinal, embora olhemos muito para no máximo umas 10 ligas no mundo, a maior parte não consegue trazer jogadores importantes de fora do país. E uma parte importante nem traz ninguém de fora.

O relatório internacional da Fifa edição 2019 é bastante longo e você pode conferir aqui.