Abrimos espaço na Trivela para um convidado, Fabio Balassiano, falar sobre o título brasileiro do Fluminense. Lá embaixo, apresentamos quem é o Fábio. Aproveitem o texto, um relato de torcedor sobre esse título:

Sou de uma geração de torcedores do Fluminense que “nasceu” sofrendo. Tenho 29 anos, e minha primeira lembrança como torcedor foi do gol de barriga do Renato Gaúcho em 1995. Depois, foram milhões de rebaixamentos seguidos, champanhes mal abertos e derrotas com gostos bem amargos. A vergonha era grande, mas quando me vi estava toda segunda-feira à noite no Maracanã gritando como um doido contra times de Bombeiro (Dom Pedro), do Espírito Santo (Serra, do ex-vascaíno Giovani), Goiás (Goiânia) e gigantes do Rio de Janeiro (Americano) naquela série C de 1999 (chamávamos de Série C para não lembrar que era a terceira divisão, o buraco mais bizarro que um time poderia se meter).

Era algo completamente sem motivo, insano mesmo. Meu pai nos apanhava (meu irmão e eu) em casa, estacionávamos o Santana preto na frente do Maracanã, víamos espetáculos de péssima qualidade e quando voltávamos ainda encontrávamos o carro preso pelos outros veículos no local (raras eram as vezes que meu velho permanecia acordado durante os jogos – sim, ele dormia quando Betinho, Joel Cavalo e Odair tentavam, sem sucesso, dominar a bola). Chegávamos em casa tarde pacas pra aula do dia seguinte e ouvíamos um sermão danado da minha mãe (“futebol não te leva a lugar nenhum, filho”).

Mas àquela altura a “doença” já estava instalada. Lembro do Brasileiro de 2000, o do chute do Adhemar que nos eliminou (mandou mal, Murilo!), da eliminação no Rio-São Paulo do ano seguinte para o mesmo São Caetano (gol de longe do Marco Senna aos 42 do segundo tempo), da tristeza (creio que uma das maiores que senti) em 2001 quando o Alex Mineiro fez milhões de gols na Arena da Baixada, da derrota contra o Corinthians em 2002 (foi falta do Gil, quem lembra?) e de todo resto. Se não me engano, entre 1999 e 2002 eu não devo ter nem perdido dez jogos do Fluminense no Maracanã. Mesmo assim, e sabe-se lá o porquê, era divertido demais sair da casa do meu avô na Pinto de Figueiredo (Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro), ir caminhando até o Maraca bebendo Matte gelado e sentar no mesmo lugar todo sábado ou domingo (atrás do gol à esquerda, quase perto da bandeira do corner).  Tão divertido quando, putos, saíamos do Maracanã após derrota e passageiros de ônibus em trânsito nos perguntavam quanto havia sido o jogo. Sem pestanejar, meu pai gritava um ‘Foi 1-0, gol nosso no final. Jogaço’. Logo ele, torcedor do América…

Houve momentos muito bacanas, como quando levamos meu avô pela última vez ao estádio (foi na estreia do Romário, em 2002, em um Dia dos Pais), quando vi o Magno Alves fazer cinco gols no Santa Cruz (naquele jogo, se não me engano o Paulo Cesar ainda foi expulso porque saiu no tapa com Régis, zagueiro do próprio Flu – detalhe: a partida foi 6-1), quando cantamos ‘Parabéns Pra Você’ ao Oswaldo de Oliveira em 2001 antes da partida contra a Ponte Preta (ele chorou pacas) ou quando eliminamos o São Caetano em 2002 após o Romário dar um show absurdo no Maracanã (3-0, com três passes dele para o Roni e Magno Alves, que marcou duas vezes). Mas nada disso importava. Alegrias fugazes eram a tônica de sofrimentos vorazes. Chegávamos, chegávamos, mas nunca era o suficiente para ganhar coisas grandes (sim, houve os estaduais de 2002 e 2005, que foram bacanas demais e me recordarei pra sempre). Paciência. Quem nasceu durante o sofrimento não podia reclamar muito, não.

Não me lembro os motivos, mas minha memória volta com força para 2007, quando vi Adriano Magrão, que nos classificou contra o Atlético-PR lá na Baixada, entregar a chave da glória do título da Copa do Brasil para Roger naquele jogo épico em Florianópolis (primeiro título nacional que vi!). No ano seguinte, de muleta, sem ligamento do joelho esquerdo (havia torcido três dias antes em minha primeira folga depois de dois meses – operaria 20 dias depois) e contrariando meu médico (desculpe, Dr. Luiz Antônio!) estava no Maracanã contra aquele time equatoriano de três letras cujo nome não me recordo.

Cheguei às 17h, demorei uma hora pra subir a rampa devido às dores que sentia, fui chamado de herói pela família do atacante Washington, que se impressionou com minha força de vontade pra estar ali (mal sabiam os parentes do Coração Valente que doía muito), me emocionei muito com a festa que a torcida fez (teve um vídeo motivacional dos torcedores que jamais me esquecerei – citava os antigos ídolos), vi meu irmão chorar como nunca havia visto na vida (lembro até hoje dele gritando ‘falta um’ após o gol de falta do Thiago Neves na segunda etapa) e ainda fiquei uma hora pra sair do estádio – sem joelho, equilíbrio e com muletas, não podia arriscar a multidão raivosa após aquela decepção. Cheguei em casa com uma bola de basquete no joelho, triste e jurando não mais pisar no Maraca.

E o que fiz em 2009? Contra o Atlético-Mineiro em uma noite chuvosa de quarta-feira (ou era quinta-feira?) lá estava eu – sozinho, saindo do trabalho, de mochila, calça social, camisa social e sapato (trajes apropriados para um jogo de futebol, evidentemente). Meu time era o último, estava marcado pra morrer, não tinha mais jeito, né. Todo mundo lembra o que os matemáticos diziam. O que eu e outros dois mil malucos fazíamos ali, gritando, cantando, suando pra tentar apoiar um time que, obviamente, não se safaria nunca? Sei lá, até hoje não sei. O que sei é que naquele ano eu senti que o sofrimento estava mudando de lado, senti que valia a pena torcer.

Queria que aqueles caras simplesmente tentassem, corressem, se matassem como eu faria em campo. E eles assim fizeram. Eu vi o Diogo (chamado carinhosamente de Diogro) dar três carrinhos seguidos até tirar a bola pra lateral contra o Palmeiras (1-0, com do Fred de cabeça). Eu vi o Maicon dando 700 gols pro Fred após correr o campo todo como uma flecha. Eu vi o Digão desarmando tudo, todos e ainda saindo pro jogo como se fosse o Baresi. Eu vi meu time fazer 4-0 contra o Vitória em 15 minutos como se fosse uma máquina (era o Vagner Mancini o técnico deles). Eu via aquilo tudo e não acreditava no que estava vendo. Eu me orgulhava daqueles caras, da atitude daqueles caras.

E eles venceram. Se safaram em 2009 (obrigado, Marquinhos!), ganharam em 2010 (estátua pro Conca!) e voltaram a ganhar agora (estátua pro Cavalieri e pro Fred!). Com o mesmo espírito, com a mesma luta, com a mesma entrega. Dá pra contestar a qualidade do futebol do Fluminense (eu também faço isso), mas não o título do Fluminense e o que isso representa para quem tem 29 anos (a mesma idade do artilheiro do campeonato).

Para um representante da geração do sofrimento tricolor, eu só posso agradecer pelos últimos acontecimentos e dizer que não esperava tanto. Não pelos dois títulos brasileiros em três anos. Não pelo estadual deste ano. Mas sim por me fazer acreditar que não éramos nós, aqueles torcedores que começaram a ir ao Maracanã na Série C, os culpados pelas derrotas sucessivas no começo do século.

Sempre valeu torcer e sofrer pelo meu time do coração, pela minha grande paixão, mas hoje eu digo mais: não dá pra não torcer pelo Fluminense.

Fabio Balassiano, 29 anos, é autor do blog Bala na Cesta, um dos que melhor fala sobre basquete nesse país e onde originalmente este texto foi publicado. Também é colunista do Extratime. Além, claro, de fanático pelo Fluminense.