Quando Pogba foi contratado pelo Manchester United, dois anos atrás, houve muita discussão a respeito do preço, à época maior que qualquer outra transferência, mas ninguém duvidava que o clube estava contratando um dos mais promissores jovens do mundo. Era o retorno para casa de um garoto que havia sido formado em Manchester. A expectativa pela parceria com um treinador vitorioso como José Mourinho era deliciosa. O próprio português afirmou que Pogba poderia estar no “coração” do United por mais de uma década. No entanto, o divórcio nunca pareceu tão próximo.

O último conflito entre Pogba e Mourinho começou depois do empate por 1 a 1 com o Wolverhampton, em Old Trafford. O jogador parou para falar com os repórteres, o que nem sempre acontece, e criticou a postura defensiva do time da casa. “É verdade que deveríamos ter mostrado mais fome em algumas partes. Talvez a atitude tenha que ser melhor e precisemos jogar melhor. Quando estamos em casa, temos que atacar, atacar, atacar. Isso é Old Trafford. Estamos aqui para atacar. Acho que os times têm medo quando veem o Manchester United atacando e atacando. Esse foi nosso erro. Tivemos três jogos em casa e conseguimos apenas quatro pontos. Isso não é o bastante”, disse.

Depois dessa declaração, surgiram notícias na imprensa inglesa de que Mourinho teria dito para Pogba, à frente de todo o elenco, que o jogador nunca mais seria capitão do Manchester United. Na entrevista coletiva em que teve que explicar a eliminação para o Derby County de Frank Lampard na Copa da Liga Inglesa, Mourinho confirmou que o francês não é mais vice-capitão da equipe. “Eu tomei essa decisão. Mas não houve briga. Nenhum problema. A mesma pessoa que decidiu que Paul não é mais o segundo capitão foi exatamente a mesma pessoa que decidiu que Paul seria o segundo capitão: eu. Sou o treinador. Posso tomar essas decisões. Não preciso explicá-las”, afirmou. Pogba usou a braçadeira de capitão do United três vezes nesta temporada.

Pogba não enfrentou o Derby County. Assistiu à partida das tribunas, ao lado de Luke Shaw e Andreas Pereira. No treinamento desta quarta-feira, imagens gravadas pela Sky Sport aumentaram as tensões entre ele e o treinador. Elas mostram Pogba entrando em campo e cumprimentando outros funcionários do United, que estavam ao lado de Mourinho. O português, então, diz algo ao jogador, e ambos começam a discutir. Rumores da imprensa inglesa apontam para uma publicação no Instagram de Pogba como a causa: no vídeo, ele aparece, em algum momento da partida da Copa da Liga, dando risada e brincando com Shaw e Pereira.

Pogba chegou ao Manchester United pressionado pelo valor que o clube precisou desembolsar para retirá-lo da Juventus. Sob uma lupa, cada atuação era analisada do ponto de vista do custo-benefício e, durante muito tempo, Mourinho foi um dos seus principais defensores. Os primeiros sinais de desgaste vieram no começo deste ano, quando o jogador foi substituído por volta dos 15 minutos do segundo tempo, em um jogo contra o Tottenham, e houve uma discussão em campo. Na sequência, Pogba foi reserva em algumas partidas, e Mourinho precisou negar que tenha sido uma punição.

Coincidência ou não, depois disso, ficaram mais fortes os rumores de que Pogba estaria interessado em sair do Manchester United. Naquela mesma janela de inverno, o jogador foi oferecido pelo super-empresário Mino Raiola ao Manchester City. Um potencial destino escolhido a dedo: não apenas o rival mais próximo do United, mas também o clube treinado pelo arquirrival de Mourinho, Pep Guardiola. Durante a pré-temporada, uma proposta baixa do Barcelona, por volta de £ 45 milhões, foi recusada pelos Red Devis. Os catalães teriam sido encorajados por Raiola a fazê-la.

A pré-temporada, inclusive, foi recheada de reclamações de Mourinho, a respeito do comprometimento de seus jogadores e da falta de contratações do Manchester United. O início de uma crise que se estendeu ao começo da temporada, com resultados e desempenhos ruins, e alcança seu auge após a eliminação para uma equipe da segunda divisão. Em meio a ela, Pogba já havia dado declarações suspeitas. Depois da vitória por 2 a 1 sobre o Leicester, na primeira rodada, o francês disse que “há coisas que não posso falar, senão eu serei multado”.

A verdade é que a posição de Mourinho está mais precária do que nunca desde que ele se tornou treinador do Manchester United. Rusgas com a diretoria, com um dos seus principais jogadores e também com outros do elenco. Segundo a ESPN britânica, membros importantes do grupo estão “irritados e frustrados” com a administração de elenco do português, o que já foi, no passado, um dos seus fortes. Mourinho fez críticas públicas e duras a jogadores como Luke Shaw e Anthony Martial. A análise é que ele não é mais capaz de ler o jogador e apertar os botões certos para motivá-lo

As especulações de que Pogba poderia ir embora do Manchester United já na próxima janela de inverno ganharam força, embora uma saída ao fim da temporada seja mais provável. A questão é: nesse cabo de guerra, quem sairá vencedor? Nenhum dos dois conseguiu, até agora, entregar o que prometia. Coletivamente, o United apresenta um futebol fraco, e Pogba ainda não brilhou como se esperava – e uma coisa pode e deve ter a ver com a outra.

O principal executivo do clube, Ed Woodward, apoiou Mourinho publicamente esta semana e a hierarquia do clube teria também dado suporte à decisão de retirar a vice-capitania de Pogba. No entanto, foi Woodward quem se recusou a contratar jogadores que Mourinho pediu na janela de transferências porque considerou-os soluções de curto prazo. A ideia de Woodward é um planejamento mais sólido para o futuro. Nesse sentido, seria a melhor decisão do ponto de vista estratégico abrir mão de Pogba, que ainda tem apenas 25 anos? Ou do treinador em quem o United apostou para liderar seu projeto? Talvez seja articular uma reconciliação entre eles, se é que isso é possível no momento.