Em um futebol de media training, a transparência está em falta – mas por um bom motivo. Uma entrevista desastrada pode pôr muito a perder, e Jeff-Reine-Adélaide acaba de conceder uma para entrar no registro do que não dizer quando se é jogador de futebol. Depois de apenas um ano no Lyon, metade do qual passou machucado e indisponível, o francês de apenas 22 anos revelou sua vontade de deixar o clube, descontente com o espaço que tem tido.

Na conversa com o L’Équipe, perguntado sobre o que significaria para o Lyon a possível saída de seus maiores destaques individuais, como Moussa Dembélé, Houssem Aouar e Memphis Depay, Reine-Adélaïde pegou todos de surpresa ao incluir o seu nome na lista de atletas que podem em breve deixar o clube.

“Primeiramente, se os jogadores que você citou (Dembélé, Aouar e Depay) não permanecerem, seriam grandes perdas para o OL, mas não para mim, particularmente. Hoje, preciso tomar algumas decisões”, disse, lançando um pequeno enigma – que na sequência seria desvendado por ele mesmo.

“Preciso conversar com o clube. O discurso do Lyon e o meu não estão em sincronia, então precisamos conversar para falar de uma possível saída. Não vejo necessariamente meu futuro próximo no Lyon. Meu progresso foi interrompido há algum tempo, e precisamos encontrar uma solução. Preciso progredir.”

Quando foi contratado em agosto de 2019, Reine-Adélaïde se tornou, à época, a maior contratação da história do Lyon, por € 25 milhões. O meia vinha se destacando no Angers e era um dos nomes a se acompanhar na Ligue 1. Seu início foi positivo, como uma das poucas boas notícias em meio a uma primeira metade de temporada irregular dos lyonnais. Então, veio sua lesão, em dezembro de 2019. Agora, recuperado, Reine-Adélaïde tem visto seus concorrentes de posição, Bruno Guimarães e Maxence Caqueret, brilharem e não parece ter paciência para esperar por sua chance.

“Sinto-me capaz, e este já era o caso antes da minha lesão, de me tornar um jogador importante para este time. Fui durante um momento, depois menos, depois fui novamente, e agora isso foi freado. Fiquei muito decepcionado. A lesão foi só uma das várias coisas que aconteceram. Houve escolhas e discursos que não entendi”, queixou-se.

“Há um discurso durante a semana e outro no fim de semana, é um pouco estranho. Fico frustrado em relação ao que mostro no treino e o que entrego no jogo. Quando aparecem as escalações, sei que as pessoas ficam um pouco surpresas. Elas dizem que tem um problema no vestiário ou mesmo fora dele, ou que eu treino mal. Elas não entendem que eu seja apenas um substituto. Eu trabalho duro, e me incomoda que as pessoas pensem isso.”

Com contrato até 2024 com o Lyon, um clube de grande rotatividade de jogadores por ser uma grande vitrine para equipes de um patamar acima, Reine-Adélaïde certamente teria sua oportunidade de se destacar e ganhar projeção no cenário europeu. Mas ser um nome para o futuro parece não estar em seus planos.

“Chegando ao clube, como você disse, eu era a maior transferência (da história do OL), então eu era alguém que teria um espaço no time titular. Consegui fazer isso e, depois, me tornei um jogador que ‘está aqui para o futuro’. Não foi no ritmo da minha progressão.”

Suas palavras pegam mal sobretudo ao levarmos em consideração que se trata de um jogador ainda jovem, que não se provou a longo prazo em alto nível e que, em um ano de clube, fez 23 jogos e perdeu outros 29 por lesão. A entrevista, por mais franca que seja, pinta um retrato ruim do jogador, que pode vir a ser um problema para a própria progressão de que ele tanto fala.