Se perguntassem a boa parte dos torcedores do Grêmio qual era a opinião sobre Arthur, uns seis ou sete meses atrás, havia grandes chances da resposta ser um grande “quem?”. O talento do jovem meio-campista não vem de hoje. Aposta trazida do Goiás, sempre foi referendado nas categorias de base, a ponto de defender a seleção brasileira no Mundial Sub-17. Seu processo de transição à equipe principal do Tricolor, de qualquer maneira, correu devagar. Mal entrou em campo nos primeiros anos como profissional e, mesmo no Gauchão de 2017, acabou pouco utilizado. Mas o camisa 29 é daqueles que constroem sua reputação. Que moldam sua estrela. E, em um semestre, o garoto permitiu que seu nome seja lembrado com gratidão por todo sempre pelos gremistas. Foi um dos protagonistas do tricampeonato da Libertadores, sobretudo por aquilo que jogou em meros 45 minutos na finalíssima.

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A competição continental, afinal, escancarou as portas para Arthur no time de Renato Portaluppi. O treinador deu um voto de confiança ao meio-campista pela primeira vez em abril, ao escalá-lo no mistão que encarou o Guaraní em Assunção. Pois o novato, atuando como meia central, destoou. Em uma partida na qual os tricolores não jogaram tão bem, ele carregou a equipe e descolou o empate por 1 a 1, graças à assistência precisa que ofereceu a Pedro Rocha. Foi a deixa para que seus méritos abrissem alas rumo à afirmação. Uma semana depois, ele saiu do banco ainda no primeiro tempo, para substituir o lesionado Miller Bolaños. Deu dinamismo a equipe que goleou o Guaraní por 4 a 1 em Porto Alegre, apontado como o melhor em campo.

O Brasileirão foi a chave para Arthur ganhar sequência no Grêmio. Diante da exigência das diferentes frentes, Renato passou a utilizar mais a sua rotação e o jovem se consolidou como um volante técnico, de excelente trabalho na ligação do time, embora sem deixar de se entregar na marcação. E se o campeonato nacional o impulsionou, o grande palco seria mesmo a Libertadores. Alternaria a titularidade até as oitavas de final, contra o Godoy Cruz. Mas, a partir do jogo de ida contra o Botafogo, não havia mais como questioná-lo. Fez uma partida tão boa no Estádio Nilton Santos, regendo o meio-campo tricolor, que horas depois acabou convocado por Tite à seleção principal. Em meses, dava saltos que outros nem em anos conseguiram.

Pode-se até dizer que o volante oscilou um pouco nesta reta final da Libertadores. Todavia, não se menospreza a importância de Arthur em fazer o time jogar. É o cara que azeita as engrenagens do coletivo de Renato, seja por sua onipresença ou por sua intensidade. E o ápice de sua forma aconteceu justamente em uma partida em que seria compreensível ver um jogador tão inexperiente, de apenas 21 anos, sucumbir à pressão. Não com ele. Não com o projeto de ídolo gremista. Em uma ocasião reservada aos grandes, o camisa 29 fez-se ainda maior para o Tricolor.

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Se o Grêmio viveu um primeiro tempo irrepreensível em La Fortaleza, naqueles que provavelmente foram os melhores 45 minutos de uma equipe brasileira no ano, Arthur teve uma influência imensa. Mandou prender e soltar no meio-campo. Sem a bola, era um dos que encabeçavam o espírito corajoso dos visitantes, marcando de maneira muito forte a saída do Lanús. E quando a posse estava com os tricolores, a cadência ganhava um toque de qualidade nos pés do garoto. Movimentava-se, alternava o ritmo do jogo, comparecia ao ataque. Botou o Grêmio sob a sua batuta, deixou o Lanús sob a sua mercê. Tirava os adversários de seu caminho com movimentos contundentes, cortes secos de quem estava disposto a tourear. Impressionava por uma simplicidade tão eficiente, que assim se torna sofisticada. Em quebras de movimentos e mudanças de direção, o maestro ludibriava a marcação e abria clarões. Tinha total domínio do espaço ao seu redor.

Uma pena que a exibição magistral do talento precoce tenha durado tão pouco tempo. Ao final do primeiro tempo, Arthur sofreu uma dura entrada no tornozelo. Teve a bravura de tentar voltar ao segundo tempo, mesmo mancando. Insistiu a Renato para continuar em campo, até que o corpo mostrasse que não dava mais. A vontade era tamanha que, no banco de reservas, o jovem começou a chorar. Precisaria sofrer ao apenas torcer para os seus companheiros segurarem o resultado. Ao final, não apenas comemorou o título e a conquista da Libertadores, como também terminou apontado como o melhor jogador da finalíssima. Os 45 minutos em que permaneceu no seu ápice foram suficientes para convencer a organização do torneio.

Arthur é uma joia rara, que nem sempre se encontra no futebol brasileiro. O meio-campista extremamente talentoso e dinâmico, que nem por isso deixa de ser voluntarioso. “Moderno”, como alguns gostam de avaliar, mas totalmente contemporâneo às necessidades. Se os grandes times, invariavelmente, precisam contar com volantes acima da média, o jovem cumpriu excepcionalmente sua função no Grêmio tricampeão da América. E a maneira como se encaixou imediatamente, sem sucumbir a qualquer exigência ou acomodação, o torna ainda mais especial. Por estes poucos meses, dá para apostar que existe um enorme futuro no horizonte do prodígio. Diante do sucesso no Grêmio e dos olhares de Tite, várias portas se abrirão a quem tanto fez por merecê-las.