Reflexos da taça

Um dos melhores finais de campeonato da história e, talvez, o melhor de um torneio disputado por pontos corridos. A rodada decisiva do Premier League será recontada por muitas vezes, especialmente pelos torcedores do Manchester City, e ficará guardada na memória de quem a assistiu, seja qual time torça. O Queens Park Rangers não era o adversário mais temível, fator que se apequena diante da forma como os azuis reconquistaram a Inglaterra após 44 anos. Como bem definiu o colega Ricardo Henriques, poderia ter sido mais fácil e, ainda bem que não foi.

As impressões sobre o sofrimento dos Citizens na partida eu já relatei no blog da Trivela. Um final que ajuda explicar a equipe que parecia esmagar a concorrência durante o primeiro turno, mas que apresentou suas ressalvas ao longo da campanha. E a trajetória que pode ser recontada em cinco pontos decisivos:

O fator campo

O aproveitamento em casa, sem dúvidas, foi o grande diferencial no desempenho dos Citizens. A mudança de nome do City of Manchester para Etihad Stadium no início da temporada não influenciou em nada a regularidade do time em seu estádio. O melhor desempenho como mandante da história da Premier League, com aproveitamento de 96,4% dos pontos. Em casa, o ataque sempre funcionou, com média de 2,89 gols por jogo. E a defesa sofreu gols em apenas sete partidas. O fato de decidir o campeonato em seus domínios ainda foi um prêmio à torcida azul, que pode comprovar o autorrótulo de ser a mais apaixonada de Manchester durante a efusiva comemoração.

O ataque

Entenda-se também como “o dinheiro do Sheik”. Por mais que boa parte dos jogadores tenham se escondido em alguns dos principais momentos da temporada, Roberto Mancini tinha para onde correr quando a situação apertava. De um primeiro turno no qual a maioria dos reforços de peso funcionou, especialmente David Silva, o time passou a contar com contribuições esporádicas a partir de janeiro. Não foi suficiente para conquistar a EPL com folgas e, em março, colocou o título em risco. Contudo, resultou em seis vitórias nas últimas seis partidas da temporada, quando Tevez, Agüero, Yaya Touré e Kompany se revezaram no papel principal. Por fim, contra o QPR, a insistência era tamanha – foram 44 finalizações, 14 delas no gol – que até Joe Hart poderia ser o herói – como quase fez contra o Sporting na Liga Europa.

A defesa

O sistema defensivo do Man City funcionou bem ao longo da temporada, algo comprovado pelos números, sendo a menos vazada da Inglaterra e Top 5 dentre as principais ligas da Europa. Yaya Touré e Barry foram leões na cabeça de área. Kompany não foi perfeito durante a campanha toda, mas foi o melhor na posição na EPL, e Lescott, entregadas à parte, manteve a regularidade durante boa parte do tempo. Pelas laterais Clichy demonstrou uma evolução tremenda, enquanto Zabaleta, independentemente do gol contra o QPR, fez ótimas partidas na reta final. E, quando a situação apertou, Joe Hart salvou. O goleiro, aliás, é um dos únicos remanescentes do período “pré-sheik”, ao lado de Micah Richards.

Os clássicos

As vitórias sobre o Manchester United foram um capítulo à parte na conquista dos Citizens. O primeiro jogo serviu para mostrar forças. O placar foi exagerado, muito por conta do risco corrido pelos Red Devils após a expulsão de Jonathan Evans. O que não diminui a postura dos azuis em trucidar os rivais, em um jogo no qual foram melhores mesmo quando as duas equipes tinham 11 em campo. Já no segundo turno, veio a afirmação dentro do Etihad Stadium, outra vez superiores. Desta vez, o placar não traduziu tanto a imposição da equipe de Roberto Mancini, dominante contra adversários presos demais em tentar anular suas forças de ataque.

O técnico

Roberto Mancini merece uma nota 7,5 por toda a temporada. A média, no entanto, é derrubada especialmente pela falta de trato com os fatores extracampo. O técnico teve problemas para gerir o espaço de craques egocêntricos como Balotelli e, principalmente, Tevez. Sem o argentino, possivelmente os azuis não conseguiriam a guinada final. Quando o assunto se resumiu dentro das quatro linhas, porém, o comandante teve um desempenho notável. Obviamente, algumas ressalvas podem ser apontadas, como a precaução excessiva nas substituições. De resto, Mancini apresentou uma equipe com uma proposta de jogo bem fundamentada com os jogadores que tinha em mãos, ainda que rígida demais em alguns momentos. Seu ponto alto veio no segundo dérbi, quando venceu o jogo mental de Alex Ferguson e quebrou os rivais ao liberar Yaya Touré no segundo tempo.

O melhor time da reta final

A equipe mais eficiente nas últimas semanas da Premier League não disputou o título ou a vaga na Liga dos Campeões. Pelo contrário, ela se dá por satisfeita por continuar mais um ano na elite do futebol inglês. O Wigan passou 28 rodadas na zona de rebaixamento, 12 delas na última colocação. Mas, a partir de março, protagonizou uma arrancada que o salvou com uma rodada de antecedência. Nos últimos nove jogos, foram sete vitórias, suficientes para deixar a equipe na confortável 15ª posição.

O filme, é verdade, não é novo para os Latics. Na temporada passada, até passaram mais tempo na zona da degola e se safaram apenas na rodada final. Três anos antes, em 2007/08, correram riscos até o final do primeiro turno e fecharam bem a competição, mantendo o caminho das vitórias. Porém, nada tão espetacular quanto o feito deste ano.

Roberto Martínez encontrou o encaixe na forma de jogar de seus jogadores. O sisudo esquema 5-4-1 só passa a ideia errada de retranca. Quando ataca, a equipe ganha a fluidez necessária pelas alas, se transformando em um 3-6-1, com Beausejour e Boyce livres para avançar, além de Maloney e Moses atacando em diagonal no apoio a Franco Di Santo. Na cabeça de área, McCarthy e McArthur não perdem a viagem. Mais atrás, a defesa liderada por Gary Caldwell possui o entrosamento necessário para um sistema com três zagueiros e ainda cconta om Al Habsi vivendo boa fase no gol.

Curiosamente, a tabela duríssima que aguardava a equipe entre a 32ª e a 34ª foi fundamental para este crescimento de produção. O time vinha de duas vitórias seguidas sobre Liverpool e Stoke, mas Martínez preferiu trocar o 4-2-3-1 para enfrentar o Chelsea em Stamford Bridge. Os Latics perderam, mas venderam caro o resultado, com um gol de Mata nos acréscimos. Nas rodadas seguintes, o treinador apostou novamente no esquema e colheu os frutos, batendo o Manchester United em casa e o Arsenal no Emirates, equilibrando o jogo em ambas as ocasiões.

Depois disso, o melhor resultado foi o massacre sobre o Newcastle no DW Stadium, em primeiro tempo perfeito dos mandantes, no qual balançaram as redes quatro vezes. O elenco possui boas peças e, se mantido, ao menos faz imaginar uma campanha mais confortável para a próxima temporada. Com contratações pontuais, poderá ficar na parte de cima da tabela – e, com certeza, ser o pesadelo dos postulantes ao Top 4 mais uma vez.

Curtas

– Vale acompanhar a série de posts que o Caio Maia está fazendo diretamente de Londres. No domingo, ele falou sobre a paixão dos ingleses pelo futebol representada pelos jornais locais. Hoje, comentou Tottenham 2×0 Fulham, que acompanhou diretamente de White Hart Lane.

Premier League

– A definição das últimas vagas na Liga dos Campeões teve menos emoção que prometia, com todas as equipes cumprindo seus papéis. O Arsenal bem que quis deixar a vaga com os adversários, pressionado pelo West Bromwich. Mas o goleiro Fulop tratou de garantir o resultado positivo aos Gunners. Com mais alguns milhões da LC na conta, Wenger terá dinheiro em caixa para tentar as contratações de renome que não fez nos últimos anos. Podolski é a primeira delas.

– Como fez durante a maior parte da temporada, o Tottenham cumpriu o seu papel em White Hart Lane e derrotou o Fulham sem maiores sobressaltos. Agora os Spurs ficam em função do Chelsea na decisão da Liga dos Campeões. Caso vençam em Munique, os Blues serão campeões continentais, vão à Liga dos Campeões, poupam os bolsos de Abramovich e complicam os rivais, que provavelmente venderão Bale ou Modric e terão que fazer corpo mole na Liga Europa outra vez.

– O Newcastle mereceu a derrota para o Everton, mas não mancha a excelente temporada que fez. Apesar de não ser o sonho dos ingleses, a Liga Europa deve ser levada a sério pelos Magpies. E, com a excelente rede de olheiros do clube, capazes de boas contratações baratas, poderão galgar um degrau acima se conseguirem segurar o atual elenco. A diretoria já tenta cobrir a multa rescisória de Papiss Cissé para aumentar o valor e evitar a saída do artilheiro.

– Di Matteo deu novo descanso para os titulares do Chelsea, que desta vez não titubearam contra o Blackburn. O resultado mais importante dos Blues na semana, no entanto, veio na quarta-feira, também contra os Rovers, quando confirmaram o título da FA Youth Cup. Entre os destaques, o brasileiro Lucas Piazón, eleito o melhor jogador jovem do clube na temporada e relacionado pela primeira vez pelo italiano no domingo.

– Mais do mesmo, o Liverpool deu vexame em sua despedida, mas desta vez contra um adversário difícil: o Swansea, no País de Gales. O Aston Villa também derrapou, triturado pelo Norwich fora de casa, resultado que foi o fio da navalha para a cabeça do técnico Alex McLeish.

– O Bolton não sobreviveu à Premier League, mesmo com a derrota do QPR. Pode reclamar da atuação do árbitro em dois gols questionáveis do Stoke City, tanto por falta no goleiro quanto pelo pênalti dúbio. Mas também precisa agradecer à sorte, pelos dois gols achados que anotou no Britannia Stadium.

English Team

– Depois de Alex Ferguson, Roy Hodgson pode ser o próximo persuadido pela boa forma de Paul Scholes. O meio-campista deixou aberta a possibilidade de voltar a servir à seleção inglesa, pela qual não atua desde 2004. Não seria uma má ideia, embora a posição já esteja bem servida com Barry e Parker.

– A seleção olímpica do Reino Unido já tem um nome praticamente certo: Ryan Giggs. A liberação do Manchester United é o passe livre para que o veterano lidere a equipe nacional em Londres. Deve ser acompanhado por Beckham e algum veterano escocês de renome (falta saber quem), para agradar os três principais países componentes da equipe.

Championship, League One e League Two

– A Premier League conhecerá seu 20º time no próximo sábado, em decisão em jogo único entre West Ham e Blackpool. Os Hammers mais uma vez não tiveram problemas para passar pelo Cardiff City e, em Londres, abriram 3 a 0 no placar. Já as Tangerines tiveram a comodidade de abrir dois gols de vantagem contra o Birmingham City, segurando o resultado durante o segundo tempo para confirmar a classificação.

– Na terceira divisão, o Huddersfield Town ficou muito próximo da decisão dos playoffs ao bater o Milton Keynes Dons por 2 a 0 fora de casa. Já o Sheffield United decidirá em seus domínios contra  Stevenage, após empatar por 0 a 0 fora.

– Já na League Two, vantagem dos mandantes na ida. O Crewe Alexandra derrotou o Southend United por 1 a 0, enquanto o Cheltenham Town abriu 2 a 0 sobre o Torquay United.