Em seu ensaio sobre Grande Sertão: Veredas, obra máxima de João Guimarães Rosa, o crítico literário Silviano Santiago classifica a obra como um monstro que se faz selvagem para se destacar com nitidez na paisagem modernizadora do Brasil. Como um “objeto estético insólito, uma pedra-lascada, e não uma pilastra em concreto armado, geometricamente perfeita”. Nada de teórico ou programático o salvaguarda, diz o texto.

Sempre lembro dessa imagem quando assisto novas revelações do futebol brasileiro. Quando surge um ponta rápido e driblador, que resolve jogadas de forma inventiva e ganha pontos mesmo diante de clubes mais poderosos sem que tenha sido descoberto pelos olheiros ou rabiscado num dos principais torneios das categorias de base, é como se essa pedra descesse o morro, sem freios, e atropelasse a mesa do futebol sem anúncios prévios. Depois do choque, a racionalidade procura entendê-lo. Não à toa, o segundo capítulo do livro de Santiago, Genealogia da Ferocidade, se chama ‘Domesticação’.

A grande novidade dentre os jogadores do último Campeonato Brasileiro chama-se Michael, um atacante de 23 anos que jogou na elite pela primeira vez, vestindo a camisa do Goiás. Aos 18, ele ainda atuava no futebol amador, quando então ganhou uma chance no Monte Cristo, da terceira divisão estadual goiana. Aos 20, jogava no primeiro escalão local pelo Goianésia, e aos 21 ele assinou com o principal clube do estado, na época na Série B nacional.

O primeiro gol na Série A tem oito meses, numa derrota para o Cruzeiro quando, ainda no início da liga, era fácil apostar que o Goiás seria rebaixado e que o rival, então atual campeão da Copa do Brasil, terminaria nas primeiras posições. Coisas do futebol, e o ano virou com Michael negociado como maior transferência da janela de verão do futebol brasileiro enquanto o time mineiro começa o ano na Segundona.

Mas no momento em que o Flamengo firma a contratação de Michael por R$34 milhões valendo 75% de seus direitos, o grande debate acaba passando muito pelo valor do acerto, mais que pela natureza avassaladora das arrancadas e dribles pelo clube esmeraldino.

No Footure, o analista Mairon Rodrigues lista as qualidades de Michael e destaca que o atacante é um jogador raro, um milagre do esporte, “um diamante bruto, um jogador que aparece de tempos em tempos. Um jogador ‘autoritário’, ele incendeia onde joga, um cara que a gente gosta de ver”. Mas a avaliação conclui que o preço foge dos patamares do mercado brasileiro, pela fraqueza física, pelo alto índice de perdas de bola, por ter tido no Goiás um campo aberto no contra-ataque e pela idade já avançada para os padrões de desenvolvimento.

O comentarista Mauro Cezar Pereira, em seu canal no Youtube, também classificou a contratação como uma “cartada muito pesada”, e que, fosse dirigente nessa situação, tentaria um “tiro certeiro, mais testado e aprovado”.

As prateleiras de grana

Sempre se falou sobre as finanças dos clubes de futebol, mas nunca com a riqueza de detalhes de hoje, dada a demanda por transparência, nem com uma relação tão clara com o campo, vide que a profissionalização do jogo ameaça o domínio esportivo dos grandes clubes do país. De forma grosseira: nunca pareceu tão claro que para o time vencer, as contas precisam estar em ordem.

Soma-se a isso o ganho de importância dos profissionais de estatística e avaliação de jogadores, o que sistematiza o olhar para os boleiros. “O moleque é bola” que alguém gritar para um pontinha ciscador vem acompanhado de quantas posses ele perdeu numa zona de risco do campo, ou quantas vezes passou dos principais zagueiros da tabela.

Mas o ponto é que o tamanho da mala de dinheiro é algo tão relativo no futebol que às vezes se debruçar sobre o vale ou não vale financeiro acaba ofuscando o real impacto do jogador, o que o levou a esse tamanho. Se Michael deixa dúvidas enquanto investimento, vale pensar que ele é mais furacão que projeto, mais a pedra desabando do topo do morro que o diamante lapidado por anos à beira do rio.

Porque na lista das grandes contratações do futebol brasileiro, ele custou tanto quanto Borja, ao Palmeiras, ou menos que Leandro Damião, ao Santos, e Alexandre Pato, ao Corinthians. Todas cercadas de grande expectativa, jamais alcançada.

No ano passado, o São Paulo pagou R$26 milhões em Pablo, enquanto o Palmeiras gastou R$23 milhões por Carlos Eduardo, e o Santos colocou R$26 milhões por Cueva. (Valiam isso? Valem isso? E se comerem a bola esse ano?) Já Everton Ribeiro, para mim o mais criativo e talentoso jogador do futebol brasileiro, saiu por R$22 milhões ao Flamengo, em 2017. Pechincha, ainda que pudesse haver o risco de mais de dois anos jogando em Dubai.

No fim, o jogador vale quanto pagam, como disse o jornalista André Rizek, na SporTV, em meio ao debate sobre Michael ser “tudo isso”. Ao Flamengo, que está vendendo Reinier ao Real Madrid, Michael custa um quarto do que vai cair pela negociação do garoto com o clube espanhol. Custa metade do uruguaio De Arrascaeta, e menos que Vitinho ou Gerson.

Então vale, não? No fim, é o campo que vai dizer, e se havia dinheiro para pagar a resposta de véspera é: vale. Mais que a utilidade do jogador dentro do esquema de Jorge Jesus ou a capacidade em se adaptar do contra-ataque do Serra Dourada às retrancas no Maracanã, o grande ponto é atender a expectativa que se cria diante de um fenômeno desses. Ele não foi forjado e lapidado para uma função ou um futebol projetado desde a adolescência, mas parece ter saído sabe-se lá de onde direto para aquela arrancada contra o Internacional no Beira-Rio. Essa, me parece, é a história.

Por 20 ou 30, nessa altura, sem comprometer as contas, com a estabilidade do Flamengo… tanto faz. A sorte no campeão do Brasil e da América depende mais da força de Michael seguir furacão, e o preço é um elástico que será avaliado à luz das arrancadas dos próximos meses ou anos. No janeiro próximo, quando puder valer 10 ou 100, saberemos.