Reinaldo Rueda encerrou um ciclo histórico no Atlético Nacional. O desempenho do treinador à frente dos verdolagas foi excepcional, mesmo com alguns asteriscos. Levou o clube de volta ao topo na Copa Libertadores e chegou à final da Copa Sul-Americana. Conquistou duas vezes o Campeonato Colombiano e uma a Copa da Colômbia. Aperfeiçoou uma equipe de futebol vistoso e eficiente, revelando ainda alguns talentos. Contudo, havia chegado a hora de “oxigenar”, como o próprio comandante definiu em sua coletiva de despedida, na última semana. E os paisas já acenam à nova era, com um treinador que promete seguir a filosofia ofensiva: Juanma Lillo, espanhol reverenciadíssimo por seus conceitos de jogo, apresentado oficialmente nesta semana.

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Os predicados de Lillo podem ser listados por seus muitos admiradores. Quando ainda aprendia o ofício, tornou-se amigo de César Luis Menotti. Visitou o argentino campeão do mundo em 1978, na época trabalhando no Atlético de Madrid, e conversaram sete horas a fio sobre futebol. O novato acabou ganhando um tutor. Anos depois, retribuiria a abertura quando já estava à frente do Real Oviedo. Recebeu os cumprimentos de Pep Guardiola e, apreciador de suas equipes, o então meio-campista do Barcelona pediu que mantivessem o contato. Quando assinou com o Dorados de Sinaloa, o jogador da seleção conseguiu levar o técnico consigo, e viveu um laboratório diário nos treinamentos. Além disso, já à frente dos blaugranas, costumava ligar constantemente para Lillo. E, nos últimos anos, o veterano serviria de braço direito a Jorge Sampaoli, atuando como auxiliar do argentino na seleção chilena e no Sevilla.

A fama precede Lillo. Se tantos treinadores renomados compartilham de suas ideias, não se pode negar as suas virtudes. A única questão fica para o seu próprio currículo no comando de clubes. Aos 51 anos, seus melhores momentos aconteceram durante a década de 1990, quando dirigiu equipes pequenas na Espanha. A passagem mais reconhecida veio no Salamanca, levando da terceira à primeira divisão. De resto, diversos trabalhos curtos e sem grandes resultados. Inclusive, passou em 2014 pelo próprio Campeonato Colombiano. Dirigiu o Millonarios, mas não permaneceu mais do que alguns meses.

Considerando que a visão do jogo não é o problema, ficam os questionamentos sobre os demais entraves para Lillo. Afinal, os predicados de um técnico precisam ir muito além da parte tática. E, apesar das amizades, o espanhol é reconhecido um bocado por sua teimosia – que o aproxima à personalidade de Marcelo Bielsa. Por exemplo, nunca comemora os gols de seu time, se recusando a “roubar a alegria alheia dos jogadores”. Além disso, sempre vê os jogos do banco de reservas. Fala que, se ficou à beira do campo gritando, é porque não fez seu trabalho direito durante a semana.

Agora, é ver como sai o casamento de um treinador tão singular quanto Lillo e um clube vencedor como o Atlético Nacional. Há um processo de renovação em curso nos verdolagas, embora Reinaldo Rueda tenha deixado boas bases. Apesar da eliminação precoce na Libertadores, a equipe sobrou no Campeonato Colombiano e conquistou o Apertura. Além disso, é um grupo que não deve ter problemas para assimilar a filosofia do espanhol, considerando os seus antecessores. Desde Juan Carlos Osorio, os paisas potencializaram a sua vocação ofensiva. Lillo preza justamente por isso, com um estilo de pressão no campo ofensivo e posse de bola.

Em sua apresentação, Lillo tratou de exaltar Rueda, mas também indicou algumas de suas ideias. “Superar o realizado por Rueda é difícil, mas vamos ver o que podemos fazer. Os feitos dizem, até que comecemos não podemos falar nada. Vamos tentar seguir o mesmo caminho. Quando você chega a um clube como este, não vem para ver o adversário com a bola. Vem para tê-la e buscar os gols. Porém, o estilo de uma equipe quem dá são os jogadores, não o treinador”, apontou. “Chego ao time campeão, quem tem problemas são os outros. Se é campeão, creio que existem motivos. A equipe está bem, mas pode melhorar, claro. Poderiam ter trazido um técnico melhor do que eu, por exemplo. Tudo pode ser feito melhor”.

Considerando as condições de trabalho, Lillo nunca teve uma oportunidade tão boa. Além disso, também deve ter absorvido um bocado nos quase dois anos que passou ao lado de Sampaoli. E o próprio ambiente do futebol colombiano tende a ajudá-lo nesta nova empreitada. Há uma valorização cada vez maior pela ofensividade, com os clubes reforçando esta mentalidade. Até mesmo Pacho Maturana, treinador histórico da seleção colombiana, retomará a carreira após cinco anos afastado, assumindo o Once Caldas. Mais um amigo com quem o espanhol compartilha as suas concepções. Desta vez, ele terá as ferramentas para tentar manter a hegemonia do Atlético Nacional no cenário doméstico e buscar novas campanhas marcantes além das fronteiras. Se fizer tudo aquilo que costuma dizer, os verdolagas podem se empolgar.

As frases de Juanma Lillo

O jornal colombiano El Tiempo fez uma interessante seleção de citações de Juanma Lillo ao longo de sua carreira. Demonstram bem a sua personalidade e a sua forma de pensar. Abaixo, traduzimos algumas:

“Não arriscar é o mais arriscado. Assim, para evitar riscos, arriscarei”

“A esperança não se vende, a esperança se cria”

“O treinador deve saber tratar o grupo como pessoas de segunda a sábado. E, no domingo, como jogadores”

“Agora é muito mais importante no futebol o que se passa de segunda a sexta. O que ocorre domingo importa cada vez menos”

“O futebol se converteu em um consolador social”

“Não é o mesmo a possibilidade e a probabilidade. Eu gosto das equipes que buscam a probabilidade”

“O futebol não é ofensivo e nem defensivo. As regras só dizem que precisa marcar mais gols para ganhar. E nós decidimos não tomar. Por isso, partimos com a bola, porque sem ela não pode fazer os gols”

“Pep e eu tentamos o mesmo: conseguir superioridades a partir da posição. De que serve jogar entre linhas se não é para eliminar rivais?”

“Não sou dos que creem na liderança que se exerce desde o banco. O treinador precisa ser como Deus: presente em todas as partes, mas em nenhuma delas visível”

“A cada dia eu me pergunto mais: digas com qual meio-campista andas e eu te direi que equipe és”

“Me ilumina o sorriso de saber que a minha família e a minha gente estão bem. Tudo isso. E ver Iniesta jogar”

“Tive um jogador de seleção que me dizia: ‘Quando venho ao treinamento, te odeio porque não me coloca; quando vou embora, te adoro por aquilo que aprendi'”