Na esteira das competições europeias, a Premier League também pode começar a regular os gastos de seus clubes. Na última semana, as equipes da primeira divisão se reuniram para discutir seus rumos econômicos, especialmente após o novo acordo de direitos televisos – negociados por € 3,6 bilhões entre 2013 e 2016. Richard Scudamore, chefe-executivo da EPL, já manifestou a intenção de implementar regras parecidas com o Fair Play Financeiro da Uefa ou criar um teto salarial para os elencos.

Ainda há muito debate pela frente, mas alguns clubes já começam a tomar suas posições. Arsenal e Manchester United se colocam favoravelmente e precisam convencer outros 12 times para concretizar as mudanças. Na corrente contrária, os apadrinhados Manchester City e Chelsea começam a manifestar suas insatisfações, caso os cintos realmente sejam apertados.

No centro das discussões, o Portsmouth aparece como maior exemplo, mesmo que longe da tomada de decisões. Membro da elite entre 2003/04 e 2009/10, além de campeão da FA Cup em 2008, o time hoje milita na terceira divisão inglesa. Uma queda livre gerada pelos gastos excessivos em transferências e enormes dívidas salariais, que levaram o Pompey a se tornar o primeiro clube da Premier League a decretar falência, em 2009 – e repetir o ato pouco menos de um ano depois. As deduções de pontos proporcionadas pelos processos, combinadas ao caos instaurado, resultaram em dois rebaixamentos no mesmo período.

A situação falimentar, aliás, é recorrente na história recente do Portsmouth. Em 1998, o clube já tinha pedido concordata e foi salvo por Milan Mandaric. A estabilidade garantida pelo sérvio, todavia, acabou em 2006. Desde então, quatro donos diferentes passaram por Fratton Park (Alexandre Gaydamak, Sulamain Al-Fahim, Balram Chainrai e Vladimir Antonov), nenhum deles capaz de administrar o time de uma maneira sustentável.

Diante das sérias dificuldades financeiras vividas, o Pompey sofreu sérias ameaças de ter negado o direito de disputar a League One nesta temporada, bem como de iniciar a campanha com pontuação negativa. Agora, o clube procura um novo dono, ao mesmo tempo em que tenta se segurar no futebol profissional.

Diante das incertezas, o técnico Michael Appleton precisou esperar que o clube fosse garantido na terceira divisão para somente então montar o elenco para esta temporada. Dez reforços foram anunciados apenas dois dias antes da estreia na competição, em contratos de apenas um mês de duração. À medida que a situação financeira se melhorar, a intenção de Appleton é ampliar o vínculo desses atletas. A folha salarial anual, que era de € 15 milhões na última temporada, hoje não passa de 15% desse valor.

Com a situação se encaminhando no elenco, o próximo passo é resolver as pendências administrativas. São três propostas para assumir o controle do Portsmouth: de Balram Chainrai, de investidores do Oriente Médio e de um grupo de torcedores. A administração provisória tem até a próxima sexta-feira para escolher os próximos gestores e a tendência é que seja aceita a oferta de Chainrai para voltar à presidência. Responsável por decretar falência em 2010, o empresário de Hong Kong é um dos principais credores e sempre se manteve ligado às decisões do clube, após hipotecar Fratton Park.

No entanto, também não deixa de ser factível a proposta realizada pelo Portsmouth Supporters Trust. Apoiada pelo poder público local, a associação de torcedores teria levantado € 6 milhões para auxiliar a equipe, dos quais boa parte seria empregada para recuperar a posse do estádio e manter as categorias de base.

Enquanto a decisão não é tomada, a torcida não deixa de se empenhar para reerguer o Portsmouth, ao menos com seu apoio nas arquibancadas. Apesar do início fraco na League One, a média de público nos dois primeiros jogos em casa foi de 15 mil pagantes. A alegria de comemorar a primeira vitória na competição, entretanto, foi exclusividade de 1.634 fanáticos, que viajaram atrás do time. Após cinco rodadas, os azuis bateram o Crawley Town neste domingo por 3 a 0.

O resultado foi suficiente para tirar a equipe da zona de rebaixamento, bem como para dar alento na sequência da caminhada. A tortuosidade deve perdurar por algum tempo, ainda que a possibilidade de gestão dos torcedores seja vista com esperanças – o modelo é até mesmo apontado como alternativa para a invasão de investidores estrangeiros no futebol inglês. E, bem longe da terceira divisão, os clubes da Premier League já podem começar a pensar no futuro, analisando se o Fair Play Financeiro realmente evitará outro desastre do tipo.

Curtas

– A seleção inglesa não fez mais que o esperado na estreia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. Vitória por 5 a 0 sobre a frágil equipe da Moldávia. Mais que as goleadas, o destaque ficou para a confiança depositada em Cleverley e Oxlade-Chamberlain. Além disso, Roy Hodgson deixou claro os papéis de Gerrard e Lampard como condutores da atual geração.

– Já para o próximo encontro do English Team,  o técnico deu mais uma mostra de que idade não é problema em seu elenco. Raheem Sterling, Adam Lallana e Jake Livermore foram chamados para se juntar à equipe. Dificilmente entrarão em campo, mas ganham chances de serem observados após boas participações nas rodadas iniciais da Premier League.

– Na última semana, a principal novela envolvendo os clubes da primeira divisão teve Michael Owen como protagonista. Por fim, o Bola de Ouro de 2001 chega ao Stoke City, um clube realista para o seu desempenho nos últimos anos. Longe de ser o craque dos tempos de Liverpool, o atacante tem boas chances de emplacar com os Potters.

– Enquanto os times de Premier League e Championship ganharam folga no final de semana, a bola não parou na League One e na League Two. Além do Portsmouth, o destaque da terceirona foi o Notts County, que emplacou sua quarta vitória em cinco jogos. Na cola, aparecem Tranmere Rovers e Stevenage, invictos no torneio. Já na quarta divisão, a liderança é do Gillingham, seguido de perto pelo Exeter City.