O verão chegou. E foi justamente no primeiro dia de sol e calor em muito tempo, que o sul da Germânia viveu o encontro dos dois exércitos que restaram na briga pelo disputado posto de novo rei do Velho Mundo. Os bávaros queriam estender seu domínio pelo continente pela quinta vez na História, iniciando uma terceira dinastia que, com sorte, seria tão longeva quanto a primeira, a do grande Kaiser. Para tanto, precisavam defender os seus domínios, não permitindo que os bretões de vestes azuis tomassem a fortaleza em formato de pneu. Rivais que nunca haviam sentido o gostinho do poder e talvez nem acreditassem mais que teriam tamanha oportunidade.

Mas antes do duelo final, as duas tropas trataram de invadir, pilhar e subjugar diferentes regiões espanholas. Diante dos até então imbatíveis anões da Catalunha, os bretões contaram com a sorte e, na base da transpiração, aprisionaram a inspiração adversária. A obtenção de uma pequena vantagem foi o suficiente para que os azuis formassem verdadeiros muros humanos, apontando seus escudos para o céu e resistindo o quanto podiam. Vendo que até o narigudinho das margens do Prata, o mais hábil de todos os guerreiros, falhara, seus companheiros também fraquejaram. Caía a Liliput catalã e estava definido que a Europa teria mesmo um novo dono. Fim de uma era, marcado pela despedida de um elegante monarca que dizia não ter como tirar ainda mais daquelas tropas que encantaram e dominaram o planeta.

Não muito longe dali, as forças da realeza espanhola sucumbiram, com o seu impiedoso general achado dias depois, desacordado nas águas turvas da fonte de Cibeles. O encontro com a deusa da fertilidade continha irônico simbolismo: estava abortado o sonho de dominação mundial do ególatra militar, que, claro, já prometeu vingança. A contenda foi equilibrada, como se esperava de um confronto entre povos de vasta tradição bélica. No fim, prevaleceu a frieza bávara, arrepiando e despenteando o cabelo do mais vaidoso guerreiro. Por alguns instantes, o mais fiel dos cristãos pode ter questionado sua fé, ao se ver falhando no campo de batalha.

Acontece que a guerra sempre traz fatalidades, até mesmo para o vencedor. O cafajeste sacerdote, líder controverso dos bretões, tentou fazer uso de mais uma de suas vis artimanhas e acabou vítima do próprio feitiço. Às vésperas do combate derradeiro, ficou petrificado, impedido de executar qualquer movimento. O encanto só seria quebrado com a conquista do continente. Até lá, o mal encarado feiticeiro se veria impotente, sem poder exercer o dever de acompanhar os seus homens nas trincheiras e o direito de se aproveitar das mulheres deles em seu leito de luxúria. Unidos, seus coniventes súditos prometeram a vitória, que lhe traria de volta a liberdade.

A volta por cima de três senadores

O cenário nem parecia de guerra, o clima era sim de festa. Medo de serem atingidos por alguma lança ou flecha perdida enquanto a batalha comia solta? Que nada! Os nativos da Baviera foram às ruas e seguiam se embriagando com generosas doses de seu saboroso elixir, preparado à base de cevada e servido em robustas canecas. Sabendo da força que aquele exército tinha em seu próprio território, era mesmo difícil acreditar que o milagre bretão se repetiria. O povo bávaro reverenciava os seus heróis e contava as horas para o opulento banquete de celebração.

Não contavam, no entanto, com a estrela dos senadores da Bretanha, que há muito buscavam uma redenção. O tcheco de crânio trincado esperava encontrar uma alegria que anestesiasse, ainda que temporariamente, as terríveis dores de cabeça que sentia e só lhe eram suportáveis enquanto mantinha nela um desconfortável elmo de ferro. Outro legislador, um veterano e desacreditado engenheiro, não concebia nada de relevante já há algum tempo e queria provar que ainda tinha uma contribuição a dar. Por fim, aquele que chegara à Europa como escravo, arrancado do seio de um ebúrneo império africano.

O dia não foi dos mais felizes para os melhores valores bávaros. O ogro se feriu e não pôde lutar até o fim. O egoísta gladiador holandês esvaeceu em fumaça quando mais precisavam dele. O troglodita carregava adagas tão afiadas quanto as próprias canelas. Nem mesmo o mais querido filho da terra conseguiu fugir da desgraça. Combatente inteligente e versátil, casado com a mais bela das mulheres do reino, derramou lágrimas quando caiu aos pés de um oponente, de qual só pôde notar o reluzir do capacete. Coube ao cavaleiro negro o golpe final, cumprindo o destino que lhe fora traçado ainda em sua terra de origem: virar rei e conduzir um povo à glória.

O sacerdote estava livre e pôde enfim tocar no cobiçado Santo Graal de grandes orelhas de abano. Sorridente, pensava em todas as poções que poderia preparar no cálice da vitória. A começar pelos afrodisíacos caldinhos de amendoim, catuaba e ovo de codorna. Afinal, ninguém é de ferro, só o trono de Westeros. Os bretões acreditam que a conquista é apenas o começo de uma era de fartura e riqueza que sua petrolífera dividindade russa lhes proverá. A promessa não é de virgens aos que morreram, mas amantes experimentadas na arte da sedução aos que sobreviveram. O sangue do salvador é sorvido por todos, transubstanciado em vodca.

Pintada de azul, cor das vestes dos vencedores, a Europa se mostra preocupada com o domínio daqueles que são considerados por muitos como feios, sujos e malvados. Os mais apocalípticos acreditam que isto representa o da fim da humanidade, tomando como verdade os escritos de uma tribo do outro lado do oceano. Não há de ser nada. Como todos sabem, os maias são notórios em prever o fim do mundo como nunca e errar no palpite como sempre. Logo será outono, e em torno das fogueiras, recomeçarão os conchavos, os planos mirabolantes e as táticas de guerra. Tudo pode ser diferente no próximo verão. Eita povo para gostar de uma guerra!