Uma semana antes da realização do Mundial Interclubes de 1981, o Flamengo entrou em campo. E não era qualquer compromisso: em 6 de dezembro, quase 170 mil pessoas lotaram o Maracanã para assistir à finalíssima do Carioca. Em tempos nos quais o estadual valia bastante, Carpegiani escalou força máxima para enfrentar o Vasco. Diante do regulamento confuso do estadual (pra variar), as vitórias dos rivais nos dois primeiros jogos não valiam tanto, já que os rubro-negros poderiam ser campeões com um triunfo no terceiro, pela melhor campanha nas fases anteriores. Foi o que aconteceu. Adílio e Nunes anotaram os gols na vitória por 2 a 1, em noite marcada pela invasão de um torcedor nos minutos finais. O “ladrilheiro” virou herói flamenguista. Já o time mal pôde comemorar. Um dia depois, o Fla embarcava ao Japão.

A disputa do Mundial aconteceu em meio a uma maratona de jogos ao Flamengo. Em apenas três semanas, a equipe conquistou a Libertadores no jogo-desempate contra o Cobreloa e também o Carioca, até seguir a Tóquio para encarar o Liverpool. O duelo contra os ingleses era o 21° do clube desde outubro, em agenda que incluiu viagens a Colômbia, Bolívia, Chile, Uruguai e Japão – além de cinco clássicos a partir de novembro. O desgaste imenso, ainda assim, não impediu os rubro-negros de vencerem 16 desses compromissos e só perderem três – os dois supramencionados contra o Vasco, além da visita ao Cobreloa em Santiago.

Não que a situação do Liverpool fosse exatamente mais tranquila. Embora a viagem fosse mais curta, os Reds entraram em campo cinco dias antes do Mundial, quando derrotaram o Arsenal pela Copa da Liga Inglesa por 3 a 0. Desde o início de outubro, a equipe de Bob Paisley disputou 16 partidas até se encontrar com o Flamengo. E precisava lidar com a pressão pelo início inconsistente no Campeonato Inglês. Mesmo após derrotar o Nottingham Forest em 5 de dezembro, o clube ocupava o modesto décimo lugar. Ao menos a situação na Champions era um pouco mais tranquila. Apesar da classificação apertada contra o AZ, os tricampeões europeus só voltariam a entrar em campo no início de março. Tinham um respiro, mas não tanto.

A loteria esportiva fazia prognósticos equilibrados ao Mundial. Por mais que o Flamengo atravessasse ótima fase e chegasse mais embalado ao Japão, o Liverpool merecia respeito – sem que os jornalistas deixassem de ponderar as oscilações no período, a falta de encaixe coletivo ou as desconfianças sobre o novato goleiro Bruce Grobbelaar. Os três títulos continentais conquistados nos cinco anos anteriores, afinal, falavam por si. E assim se pautou o noticiário ao redor da final em Tóquio: com empolgação por aquilo que poderia ser feito pelo Fla, mas sem desconsiderar os oponentes.

Dentro desta perspectiva, às vésperas de um novo Flamengo x Liverpool no Mundial, relembramos um pouco como foi vivido este passado. Abaixo, dia após dia, tentamos retratar o clima através de recortes dos jornais cariocas da época (Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Globo), além das revistas Manchete e Placar. Cada data possui um breve resumo, que introduz as notas dos periódicos. A cobertura inclui as notícias ligadas a Tóquio publicadas a partir de 7 de dezembro, logo após a conquista do Campeonato Carioca, até 14 de dezembro, com o rescaldo da vitória por 3 a 0 no dia 13.

Para ampliar a visualização dos recortes, você pode clicar com o botão direito do mouse e selecionar ‘abrir as imagens em nova guia’. Além deste especial, publicaremos outros dois nas próximas horas: um abordando as declarações de Paisley e dos personagens do Liverpool sobre o Mundial; e outro com os relatos da imprensa estrangeira sobre a vitória rubro-negra. Aproveite a viagem:

7 de dezembro de 1981

O Flamengo viajaria na noite de 7 de dezembro, uma segunda-feira. Adílio era o único que embarcaria depois, com casamento marcado. O time primeiro passaria alguns dias em Los Angeles, para se acostumar com a mudança de fuso horário, antes de viajar para Tóquio na quinta-feira. A final aconteceria no domingo. O noticiário daquele dia até começava a apresentar o Liverpool, mas estava realmente voltado a falar sobre o título carioca. Destaque também à história do “Ladrilheiro”.

8 de dezembro de 1981

O Flamengo embarcou para Los Angeles e o noticiário sobre Tóquio vinha muito mais recheado. Falava sobre o cronograma e destacava o clima familiar, com muitas esposas viajando junto. Além disso, o Jornal do Brasil destacava a maneira como o Liverpool estaria “em vantagem” pelo fuso menor e por estar mais acostumado à temperatura. O gramado, que geraria reclamações dos ingleses, também era visto como desfavorável aos rubro-negros. Os jogadores começavam a traçar suas estratégias, enquanto Carpegiani falava em atuar pelas pontas e ressaltava como o rendimento dos atletas adversários era maior no clube, se comparado à seleção. Menção ainda a Anselmo, que agrediu Mario Soto na final da Libertadores e não poderia atuar, mas foi mantido no grupo a pedido dos companheiros.

       

9 de dezembro de 1981

O Flamengo realizava suas primeiras atividades em Los Angeles, mais leves, e os jogadores planejavam uma visita à Disney. Havia uma preocupação com as condições físicas de Raul. Além do mais, as dificuldades com o fuso horário continuavam como assunto. A diretoria rubro-negra tentava mudar o horário do pontapé inicial em Tóquio, antecipando a transmissão na TV brasileira para as 22h de sábado – o que não rolou. Por fim, vale destacar o especial preparado pelo histórico repórter Geraldo Romualdo Silva, do Jornal dos Sports, sobre o Liverpool.

 

10 de dezembro de 1981

Carpegiani comentava suas estratégias para encarar o Liverpool. Demonstrava conhecimento sobre os Reds e prometia uma postura ofensiva. No entanto, o treinador ganhava nova preocupação. Depois de Raul, o volante Andrade e o lateral Júnior também lidavam com problemas físicos. O time fazia treinos leves, antes de seguir a Tóquio. Já o Liverpool também pegava o seu voo rumo ao Japão, após derrotar o Arsenal. No Jornal dos Sports, Geraldo Romualdo Silva dava mais uma aula sobre o time, destrinchando a história e falando sobre cada um dos jogadores. E a organização do Mundial confirmava que os 62 mil ingressos estavam esgotados, enquanto a transmissão ao vivo seria feita a 35 países.

     

11 de dezembro de 1981

Mentores de ambos os clubes, Cláudio Coutinho e Bill Shankly eram relembrados, ambos falecidos naqueles últimos meses de 1981. A zaga do Flamengo discutia como lidaria com o forte jogo aéreo do Liverpool. A empolgação da torcida era assunto, no Rio e em Tóquio. Carpegiani contava com força máxima e cogitava usar números trocados para confundir os ingleses, o que acabou não fazendo. Nas páginas do Jornal dos Sports, Geraldo Romualdo Silva explicava a maneira como os Reds atuavam, enquanto João Saldanha falava sobre as expectativas da imprensa inglesa em sua coluna no Jornal do Brasil. Já a Placar lançada naquela data trazia um tom crítico sobre os problemas coletivos dos europeus, apesar da experiência e dos destaques individuais. Grobbelaar, que substituía o ídolo Ray Clemence, era o mais questionado.

   

12 de dezembro de 1981

Na véspera do dia oficial da partida, a imprensa brasileira fazia uma cobertura intensa, já que o pontapé inicial no Horário de Brasília aconteceria à meia-noite. O Flamengo vinha completo e exalava confiança em seu potencial. Carpegiani e Zico lideravam o motivado grupo. Adílio se juntara ao elenco após se casar, enquanto os jogadores que eram dúvida terminaram confirmados ao 11 inicial. Até mesmo a comemoração pós-título começava a ser discutida.

       

13 de dezembro de 1981

Como o jogo aconteceu no começo da madrugada, as edições matutinas dos jornais trouxeram apenas matérias mais frias, sem falar do resultado. Os relatos do jogo saíram apenas nas tiragens posteriores. A pressa fica visível por alguns erros básicos, incluindo na escalação do Liverpool. Entretanto, unânime era a maneira como o Flamengo dominou a partida durante o primeiro tempo. Zico deu seu show, Nunes marcou dois gols e Adílio também fez o seu. A manchetes ainda falavam sobre a loucura que tomou o Rio durante a madrugada.

 

14 de dezembro de 1981

A exaltação máxima. Os jornais repercutiam o sentimento dos jogadores e as grandes atuações. Zico, Nunes, Carpegiani, Raul: todos descreviam o que representava aquela vitória. O Liverpool, do outro lado, admitia os méritos do Flamengo. Os rubro-negros faziam um carnaval em Tóquio, enquanto os relatos do Brasil expandiam a loucura por várias cidades. Embora nem todos os jogadores fossem retornar diretamente ao Rio de Janeiro, alguns parando em Honolulu, prometia-se também uma recepção grandiosa. E ficava expressa a maneira como o Fla se valorizou com o triunfo incontestável, assim como deixou em evidência o futebol brasileiro.