A cada temporada, um novo clube surge para contrariar a máxima de que “time grande não cai”. E a Suíça providenciou um dos maiores exemplos dos últimos tempos durante este final de semana. O Grasshopper, maior campeão da liga nacional e também da copa local, sofreu o seu primeiro rebaixamento em 70 anos. O clube de Zurique não conquista a Super League desde 2003. Ainda assim, o fundo do poço rendeu cenas tristes, com a violência dos hooligans e a humilhação dos jogadores. O duelo fora de casa contra o Luzern sequer chegou a terminar. A revolta dos ultras visitantes provocou a interrupção da partida e o consequente abandono, com a vitória parcial dos mandantes. Retrato do sério problema de hooliganismo no futebol suíço.

Um dos clubes mais antigos da Europa continental, o Grasshopper conquistou seu primeiro título do Campeonato Suíço ainda no Século XIX. São 27 taças, empilhadas principalmente na primeira metade do Século XX. Raras foram as vezes em que o time se ausentou na elite. O rebaixamento mais recente havia acontecido em 1948/49. Naquele momento, os alviazuis passaram duas temporadas na segundona e, logo no retorno, já conquistaram a taça nacional. Deste então, vinham sendo figuras permanentes na primeira divisão.

O último grande momento do Grasshopper aconteceu na década de 1990. Foram cinco títulos entre 1990 e 1998, com participações costumeiras da Liga dos Campeões. Ao longo deste século, o time seguiu fazendo campanhas razoáveis, classificando-se às competições continentais e faturando a Copa da Suíça em 2013. Já no último triênio, a situação degringolou. Os alviazuis flertaram fortemente como rebaixamento nas duas temporadas anteriores, mas se safaram. Em 2017/18, ficaram na penúltima colocação, a quatro pontos do descenso. Porém, não houve como se salvar na atual campanha.

A crítica da imprensa local se concentra, sobretudo, nas escolhas erradas da diretoria durante a montagem do elenco e de sua comissão técnica. Foram três trocas de treinadores ao longo da temporada, duas delas desde março. Dinheiro em caixa não é exatamente o maior problema, embora o Grasshopper tenha sofrido com as consequências da crise mundial no fim da década passada. Estádio histórico da agremiação, o Hardturm foi demolido em 2008, sob a promessa de que uma nova arena seria erguida no local. Entretanto, a empresa responsável abandonou o projeto e, desde então, várias questões legais emperram a construção.

Diante de seus imbróglios esportivos, o Grasshopper deixou claro qual seria o seu objetivo desde o início da liga. O time começou a competição com três derrotas consecutivas e, graças a parcas vitórias no primeiro turno, ainda passou algumas rodadas fora do Z-2. Todavia, o time despencou a partir de dezembro. Conquistou um ponto em dez jogos a partir daquele mês. O excesso de empates em março também não ajudou e, sem vencer desde 25 de novembro, a degola se tornou inescapável. São 12 pontos de desvantagem em relação ao Neuchâtel Xamax, penúltimo colocado – que, graças ao novo regulamento do Campeonato Suíço, precisará disputar um playoff de rebaixamento contra o vice-campeão da segundona.

Neste domingo, no jogo que consumou a tragédia, o Grasshopper enfrentou o Luzern sabendo qual seria o provável destino. A derrota por 4 a 0, a quatro rodadas do fim do campeonato, se tornou a pá de cal. Do lado de fora, os torcedores começaram a ameaçar uma invasão de campo, até que a polícia intervisse. Pior, ainda pressionaram os jogadores para tirarem a camisa e os meiões, com alguns deles voltando aos vestiários apenas de calções. Capitão da equipe, o goleiro Heinz Lindner foi o responsável por negociar a “trégua” com os ultras. Enquanto isso, o árbitro deu o jogo como encerrado, mesmo faltando mais de 20 minutos por jogar. O ônibus do clube precisou ser escoltado durante seu retorno a Zurique.

Os ultras do Grasshopper já tinham se envolvido em outros incidentes violentos nesta temporada. Durante o confronto direto com o Neuchâtel Xamax, há duas semanas, os hooligans começaram a depredar o estádio dos adversários e arremessaram os assentos das cadeiras no campo. O jogo foi paralisado e a polícia interveio com bombas de efeito moral. Já em março, contra o Sion, o duelo foi abandonado no segundo tempo porque os torcedores visitantes lançaram sinalizadores em campo. O time da casa, que vencia por 2 a 0, terminou garantindo os 3 a 0 no placar.

Presidente do Grasshopper, Stephan Rietiker prometeu acionar a justiça. “Vou falar com os políticos e com a federação. Precisamos agir agora. Uma mistura de repressão e diálogo é necessária. É um problema da sociedade. Neste país, as leis de trânsito são mais duras que as punições aos hooligans”, declarou. “Os jogadores tiraram a camisa porque queriam acalmar a situação. Fui contra meu coração, mas era a melhor coisa a se fazer. De outra forma, os hooligans invadiriam o vestiário. Ameaças claras foram feitas. Isso foi uma chantagem. Mas eu precisei ponderar a situação. Não havia polícia suficiente”.

O temor do dirigente se concentra, principalmente, nas outras atitudes que os ultras podem tomar contra os jogadores do Grasshopper. A impunidade prevalece durante as últimas semanas e a violência sofre uma escalada. Teoricamente, há mais três rodadas a se disputar e a intimidação tende a prosseguir. Uma covardia que horroriza, que desconsidera o lado humano e que atrapalha o trabalho do clube no que deveria ser sua prioridade: a reconstrução.