Último dia do mercado de transferências na Europa. Muitas especulações, especialmente na Inglaterra, sobre grandes transferências. O que chama a atenção é que esse dia é sempre muito movimentado nos principais países do futebol europeu e o final dele sempre traz muita repercussão. Algo que, no Brasil, ainda parece que não sabemos fazer com a mesma eficiência.

Fernando Torres foi o principal nome da janela de transferências e não podia ser diferente. Sua ida para o Chelsea foi um recorde na Inglaterra: a maior transferência de um clube inglês na história, € 58 milhões.

Ao ser efetivada a transferência, o Chelsea soube usar o seu site, divulgar a informação, colocar fotos do astro assinando contrato junto com o presidente do clube e, mais tarde, colocou um vídeo com a entrevista do novo camisa 9 ao canal de TV do clube. Mais do que isso: promoveu aquele que talvez seja um dos principais produtos do futebol: as camisas. A propaganda do site mostrava um link para a loja oficial para comprar a nova camisa 9 do time.

Em relação a camisas, o Brasil já aprendeu, ao menos em relação aos principais jogadores. O São Paulo soube usar bem isso com Adriano, quando o trouxe de volta, assim como o Corinthians fez com Ronaldo e o próprio Flamengo fez com Adriano e agora Ronaldinho. O Santos é outro que tem aproveitado bem isso, especialmente quando trouxe Robinho de volta e promove Neymar (ainda que esteja aquém do que deveria).

No Liverpool, a confirmação de Andy Carroll como contratado veio pelo site do clube,q eu assim como o Chelsea, soube promover de forma magnífica o novo reforço: trouxe dados sobre ele, promoveu a nova camisa a ser vendida aos torcedores, junto com a do outro contratado, Luis Suárez.

No dia seguinte, tanto Chelsea quanto Liverpool capitalizavam: entrevistas em seus sites canais de TV do clube, promoção das novas camisas dos contratados, o técnico falando sobre a transferência. Aqui, ainda engatinhamos com isso. Poucos times têm um canal de TV realmente ativo. O Santos é o melhor exemplo: tem um canal que usa de forma excepcional, promove o clube, mostra bastidores e traz informações que os torcedores querem saber.

Seja em entrevistas, imagens de treino ou bastidores, o canal é sempre uma boa fonte de informações. O Flamengo perdeu a chance de fazer o mesmo com Ronaldinho. O São Paulo perdeu a chance de fazer com Rivaldo. E todos os outros times também, porque se nem toda contratação é bombástica, todas elas são interessantes, no mínimo, aos torcedores do clube.

Andy Carroll pode ser encarado como um bom exemplo para os clubes brasileiros. Embora tenha sido contratado por um valor altíssimo (cerca de € 40 milhões), é um jogador que ainda tem muito a provar e precisa mostrar muito futebol. Tem 22 anos e parece ter potencial, mas é um jogador inglês que não desperta o interesse mundial, como Wayne Rooney, por exemplo. Mesmo assim, sua transferência foi bem explorada pelo clube, que colocou no dia seguinte uma entrevista com o jogador, além de uma extensa análise do técnico sobre o reforço. Sem contar tudo que disse acima.

Isso só acontece porque há dois fatores que o Brasil não usa, e contribuiu para que não tenhamos um campeonato tão bem promovido e tão cheio de atrativos, embora qualidade técnica e grandes jogadores continuem jogando aqui. Dizer que falta organização é clichê, embora verdadeiro, então serei mais específico e aponto dois pontos que poderiam contribuir para a melhora da promoção do futebol brasileiro.

O primeiro é a definição mais precisa da janela de transferências. Você sabe quando começa e termina a janela brasileira? Pois é. Esse é um problema. Os times contratam o ano inteiro, sem parar. Times em má fase então, pior ainda. Ficam sendo pressionados a contratarem. Há times que refazem o time duas, às vezes três vezes por temporada – depois de um eventual fracasso no estadual, no meio do ano, e já no final do ano, no desespero de tentar algum bom resultado que salve a temporada.

É preciso que tenhamos janelas bem definidas, de forma a impedir essas bizarrices, mas principalmente para promover melhor os times e os jogadores que atuam por aqui. Mais do que isso: para fazer com que os torcedores fiquem mais ligados, o que gera mais repercussão, gera mais expectativa e vende mais produtos. Bom para os clubes, os jogadores, os torcedores, a imprensa e para os campeonatos, que ganham mais força mundialmente também. Fica mais fácil para vender o produto Campeonato Brasileiro no exterior.

O segundo ponto é numeração fixa. Sim, sei que muitos gostam de ver o seu time iniciar o jogo com camisas de 1 a 11, mas definitivamente é um modo de desorganizar o campeonato. Numeração fixa serve a vários propósitos. Um deles é o marketing. O time vende as camisas dos jogadores, não apenas do clube. Vemos isso hoje apenas em casos excepcionais, como o de Ronaldo ou Ronaldinho, citados acima.

A definição da numeração gera expectativa na torcida e vira notícia. Quem usará a 10 na temporada? Que número usará aquela contratação bombástica que gosta da camisa 7, mas terá que usar outro número porque ela é usada por um ídolo do clube? Cito dois exemplos.

Túlio, quando veio para o Corinthians, usava a camisa 7 no Botafogo. Foi o número que o consagrou e era o seu preferido. No Corinthians, teria que usar outro, já que a 7 era de Marcelinho Carioca. O patrocinador do time, na época, aproveitou isso e o fez usar a camisa 12, promovendo um de seus produtos (o cheque especial com 12 dias sem juros).

David Beckham, quando deixou o Manchester United para ir para o Real Madrid, passou por situação semelhante. Usava a camisa 7 no United, mas o número era usado por Raúl no clube merengue. Ficou definido então que ele usaria o número 23, que teria aceitação em outros mercados, especialmente nos Estados Unidos, já que foi o número usado por Michael Jordan no Chicago Bulls durante anos.

Numeração fixa ajuda a organizar e identificar os jogadores. Quem é aquele destaque do Figueirense, arrebentando? É o camisa 11. Se a numeração não é fixa, o torcedor no Brasil todo terá mais dificuldade de identificar. Sem contar que cria a possibilidade dos jogadores usarem o número que gostarem mais fora dos tradicionais 1 a 11,como 15, 18, 21 ou 30, como é o caso de Kléber no Palmeiras. É curioso, chama a atenção do torcedor, ajuda a identificar os jogadores – o que para aqueles que assistem no exterior é muito útil – e vende produtos.

Com essas duas medidas, já seria possível fazer um Campeonato Brasileiro mais forte, comercialmente. Juntando isso a ações dos clubes, como mostradas no Liverpool e no Chelsea, o futebol brasileiro pode ganhar dimensões muito maiores, que refletiriam melhor o que é esse campeonato, um dos mais difíceis e divertidos de assistir do mundo. Se os clubes aqui não são ricos como os ingleses, estão longe de serem pobres. São mal administrados, o que é outra coisa. E sabemos que os times têm cada vez mais condição financeira de manter jogadores. Dinheiro já não é um problema como foi há 15 ou 20 anos. Falta é organizar, fazer as coisas mais bem feitas. É possível.