Madri viveu os 180 minutos mais tensos de seu dérbi. Entre os mais sofridos da história, mas também entre os mais sofríveis. O futebol não esteve tão em alta quanto a entrega defensiva e o jogo aéreo nos duelos entre Real Madrid e Atlético de Madrid, pelas quartas de final da Liga dos Campeões. Sobretudo, porque os merengues resolveram descer do altar e enfrentar o seu pior algoz nos últimos tempos (quatro derrotas e três vitórias nos encontros anteriores na temporada) de igual para igual. Não deu jogo, mas valeu classificação com suor, sangue e um herói inesperado: Chicharito Hernández, o responsável por finalmente bater Jan Oblak e garantir a vitória por 1 a 0 no Santiago Bernabéu, que botou os madridistas em sua quinta semifinal seguida de Champions.

O Real Madrid parecia ciente de suas dificuldades e limitações desde os primeiros minutos. Sem Benzema, Bale e Modric, Carlo Ancelotti optou por uma escalação mais conservadora no meio-campo, improvisando Sergio Ramos como volante. Serviu para conter os contra-ataques do Atlético, que vinha com Saúl Ñíguez e Arda Turan para dar mais mobilidade ao meio. E também adiantou bastante o que seria o confronto no Santiago Bernabéu: muito truncado e de muita aposta no jogo aéreo.

Para vencer o Atlético de Madrid, o Real Madrid parecia jogar sob as ordens do Simeone. Diante da sempre sólida defesa dos colchoneros, o time de Carlo Ancelotti se limitava ao jogo aéreo e a esperar os erros dos adversários. O que acontecia muito pouco, diante de um Atleti bastante cauteloso, se expondo pouco nas saídas ao ataque, mesmo diante de um rival tão desfalcado. Pouco, para quem complicaria bastante a vida dos anfitriões com um mísero gol marcado como visitante. Tanto que as únicas chances de gol do primeiro tempo vieram em um chute de longe de Cristiano Ronaldo e em um erro de Tiago que deixou o camisa 7 na cara do gol. Ambas paradas de maneira magistral pelo goleiro Jan Oblak, o melhor em campo nos dois clássicos.

Sem espaço também no ataque, o Atlético de Madrid dependia ainda mais dos cruzamentos direcionados a Mandzukic. E atuação pelo alto do Real beirou a perfeição, com Pepe e Varane intransponíveis nas jogadas aéreas. Simeone até tentou deixar o time mais robusto, trocando Griezmann por Raúl García no segundo tempo. O problema é que ficava difícil de finalizar se a criação era praticamente nula. Com Koke e Arda Turan bem anulados, a saída vinha mais com os laterais, Juanfran e Jesus Gámez. Nada que fosse insuficiente. E a situação ficou bem pior aos 31, quando Arda Turan recebeu o segundo amarelo por um pé alto, em decisão contestável do árbitro Felix Brych. O Atleti precisaria se defender apenas com 10 no final.

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Diante das circunstâncias, um jogador parecia predestinado a decidir: Chicharito Hernández. O mexicano perdia boas chances, é verdade, mas sua movimentação era fundamental para abrir brechas na defesa do Atlético de Madrid. Em sua grande oportunidade, aos 35 minutos, o camisa 14 saiu de frente para Oblak, mas o goleiro operou um verdadeiro milagre e desviou a bola, que passou a centímetros da trave.  Até aquele momento, o 0 a 0 e a prorrogação pareciam inescapáveis no Bernabéu. Até que o talento individual e o oportunismo, enfim, fizeram a diferença.

James Rodríguez e Cristiano Ronaldo, os principais talentos individuais do Real Madrid, demoraram 88 minutos para se combinar. Quando conseguiram, arrombaram a retranca do Atlético e permitiram que Chicharito se tornasse herói. Ronaldo passou a bola para o mexicano definir em um toque. Finalmente bater Oblak. O gol que daria a classificação aos merengues e dificultaria a reação do Atleti – com pouco tempo no relógio, um homem a menos e uma escalação ainda mais defensiva, depois da entrada de José María Giménez na vaga de Tiago.

O Atleti tentou buscar um gol salvador nos sete minutos restantes, repetir um “Sergio Ramos inverso” da última final. Substituído, Chicharito ia às lágrimas no banco de reservas. Mas nada lhe tiraria a chance de se consagrar pelo Real Madrid. Ele precisava agradecer a Cristiano Ronaldo pelo passe, é verdade. Mas todos os merengues têm sua pontinha de gratidão pela vitória no dérbi que não acontecia há tanto tempo, para livrar os 4 a 0 ainda engasgados entre os madridistas. Se não é a chance para continuar no Bernabéu na próxima temporada, ao menos o camisa 14 abre portas.

O Real Madrid não apresentou bom futebol nas quartas de final. Mas sai fortalecido, por sua capacidade de lutar em campo e de se adaptar à situação. O Atlético de Madrid decepcionou, é verdade, pela maneira como se fechou nas trincheiras contra os rivais. Também por não ter encontrado aquele adversário que se acostumou a bater, potente no ataque, mas que deixava enormes espaços aos contra-ataques. Os merengues preferiram deixar a soberba de lado na hora de se defender. E agora seguem com chances de conquistar um título gigante. Valeu a pena.