A final do Mundial de Clubes foi uma partida em que ficou clara, como poucas vezes, a superioridade do campeão europeu em relação ao sul-americano. O Real Madrid foi melhor em quase todos os setores, com exceção da defesa, em que o Grêmio foi protegido por uma atuação colossal de Geromel, com menções honrosas a Marcelo Grohe e Kannemann, e apenas por isso não saiu de Abu Dhabi com uma derrota mais ampla do que o 1 a 0, gol de Cristiano Ronaldo, que valeu aos espanhóis o sexto título mundial.

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Mesmo equipes que contam com orçamentos mais próximos ao do Real Madrid, que disputam os mesmos torneios e têm acesso aos melhores do mundo, sofrem com o trio de meio-campo Casemiro, Kroos e Modric. São jogadores acostumados a dominar o setor mais importante do gramado com frequência. Jaílson, Ramiro e Michel foram afogados pela qualidade dos adversários, amplamente superiores na precisão do passe, no posicionamento, nos desarmes, na movimentação. Em tudo.

Particularmente Michel duelou com Luka Modric como se portasse uma faca contra uma metralhadora. Não viu a cor do cabelo do croata, o melhor atleta em campo, autor das melhores jogadas deste sábado. Maicon, retornando de lesão, ficou no banco de reservas. E Arthur, machucado, nem foi inscrito. Os dois bons passadores poderiam ter melhorado um pouco a saída de bola e a criação do Grêmio. Fizeram falta. Mas, em qualquer cenário, seria difícil igualar a qualidade do trio de meio-campo do Real Madrid.

Não existiu ataque para o Grêmio. Nada. Ninguém. Estavam travados, sem fluidez, hesitando demais antes de qualquer jogada, talvez por medo de darem o contra-ataque para o Real Madrid, talvez por sentirem o peso da ocasião. Faltou, entre muitas outras coisas, um pouco mais de atrevimento. Carvajal, Sergio Ramos, Varane e Marcelo não tiveram trabalho nenhum. Keylor Navas nem precisaria ter entrado em campo. O Grêmio não acertou um chute a gol. A única finalização foi uma cobrança de falta de Edilson, no primeiro tempo, por cima do travessão.

Embora uma única partida não seja um parâmetro confiável, foi uma atuação particularmente preocupante para Luan. Fernandinho, Jael e Lucas Barrios são jogadores bons, úteis ou competentes que funcionaram dentro do coletivo arrumado do Grêmio, mas o campeão olímpico tem potencial de craque. Está prestes a se transferir para a Europa, onde enfrentará adversários de nível próximo ou igual ao do Real Madrid, nos campeonatos nacionais e na Champions League, e é cogitado na seleção brasileira.

Sem precisar se preocupar com a retaguarda, e no controle total do meio-campo, o Real Madrid nem precisou acelerar demais no ataque. Estava confortável, ciente de que não seria possível que Geromel cortasse todas as bolas e desarmasse todos os adversários, por mais que ele tenha chegado bem perto disso. Como no chute cruzado de Carvajal, aos 19 minutos do primeiro tempo, que tinha endereço certo. Isco, de fora da área, levou perigo, logo em seguida. Modric sambou contra Michel, bateu cruzado, de esquerda, e ficou muito próximo de abrir o placar.

O gol acabou saindo em um erro da barreira do Grêmio, que permitiu um pequeno buraco, entre Luan e Barrios, pelo qual Cristiano Ronaldo mandou sua cobrança de falta. A bola entrou no campo de Marcelo Grohe, que ainda defendeu chutes cruzados de Modric e Cristiano Ronaldo, impedindo que o Real Madrid ampliasse o placar.

Diante do gigantesco desequilíbrio financeiro e técnico entre os continentes, os sul-americanos precisam de uma grande partida contra um dia ruim dos europeus para terem uma chance de conquistarem o Mundial de Clubes. Não foi isso que aconteceu. O Real Madrid teve uma atuação consistente, correta, nada espetacular, contra um Grêmio que lutou, brigou, tentou e foi digno. Não levou um baile, mas também não conseguiu, nem de longe, encaixar o tipo de jogo memorável que é necessário nessas ocasiões. Há muita irracionalidade no futebol. Mas, às vezes, dá a lógica.