Era esperado que o Real Madrid fosse com fome ao mercado de transferências, depois da sua pior temporada em muito tempo, na qual ficou clara a necessidade de renovar o elenco. Nesta quarta-feira, o clube espanhol anunciou o quinto reforço da janela, chegando a um gasto total de € 300 milhões. O lateral esquerdo Ferland Mendy chegou do Lyon, por € 50 milhões, para uma posição que está bem ocupada.

A chegada de Mendy coloca, em números brutos, sem corrigir a inflação, este mercado do Real Madrid à frente daquele de 2009/10, quando foram reunidos Kaká, Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Xabi Alonso. E é compreensível, não apenas pela alta dos preços, mas porque durante duas janelas, as comandadas por Zidane, o clube gastou muito pouco.

O investimento foi mais alto na última temporada, mas o único titular, de fato, foi Courtois. Os outros jogadores (Odriozola, Mariano Díaz, Brahim Díaz, Andriy Lunin) serviram para compor elenco, com exceção de Vinícius Júnior contratado inicialmente para a base, mas que acabou se tornando um dos destaques do time. O Real Madrid gasta muito neste momento para preencher lacunas dos últimos mercados.

Hazard é o craque para assumir a liderança técnica que ficou vaga com a saída de Cristiano Ronaldo e os problemas de Gareth Bale. Luka Jovic prepara a sucessão de Karim Benzema no comando de ataque e ajudar a repor os gols que fugiram para Turim, o que Mariano Díaz, claro, não conseguiu fazer. Éder Militão renova a defesa, e Rodrygo, como Vinícius Júnior, foi garantido para o futuro. E Ferland Mendy?

Mendy é um lateral esquerdo de 24 anos que, dois anos atrás, deixava o Le Havre, da segunda divisão, para defender o Lyon. Fez duas boas temporadas pelo time de Bruno Génésio. Começou a primeira no banco, mas ganhou a posição na metade dela, e foi titular na segunda. Em novembro de 2018, foi convocado pela primeira vez para a seleção francesa. Tem quatro partidas pelo time de Deschamps.

Tem potencial, embora não seja exatamente um moleque, tanto que foi especulado também em outros clubes grandes da Europa e teve um papel importante no setor ofensivo do Lyon – sem se traduzir em números, porém: sete assistências e três gols em 79 partidas. Guarda semelhanças com o seu xará Benjamin, importante válvula de escapa do Monaco antes de se transferir para o Manchester City. Pode melhorar e se tornar um dos melhores jogadores da sua posição.

Mas a a lateral esquerda do Real Madrid tem um dono. Depois de uma temporada de contestações, Marcelo ganhou moral com o retorno de Zidane, o que esfriou as especulações de que poderia deixar o clube que defende há tanto tempo. O vice-capitão tem Sergio Reguilón como escudeiro, jovem que impressionou nas oportunidades que recebeu. Então, qual o propósito da contratação de Mendy?

Um reserva mais experiente e confiável para Marcelo? Ele realmente parece mais pronto do que Reguilón, no momento. Tem dois anos a mais e 57 partidas de primeira divisão contra 14, e oito de Champions League contra quatro, além de experiência internacional. Mas não parece ser uma diferença tão grande que justifique € 50 milhões por um jogador de apoio.

Ele também não tem um perfil tão diferente ao de Marcelo, gênio no campo de ataque e nem tanto assim na defesa. As estatísticas da última temporada mostram que Mendy influencia muito mais na frente do que atrás. Esteve entre os mais bem colocados da Ligue 1 em passes para finalização (média de 1,3 por jogo) e dribles (1,8). Está fora dos cem primeiros, ou quase, nos fundamentos de defesa: desarmes (1,5), interceptações (1,1), bloqueios (0,2) e afastadas (1,4).

A contratação de Mendy faz mais sentido, caso Marcelo vá embora imediatamente, o que, no momento, parece pouco provável. Do contrário, a lateral esquerda ficaria congestionada e quem acabaria rodando seria Reguilón, que fez por merecer mais oportunidades. Ele teria o desenvolvimento interrompido por um retorno ao Castilla ou por um empréstimo a um time mais fraco. A situação parece uma recaída do Real Madrid ao velho vício de cortar oxigênio de suas promessas com contratações caras e nem sempre essenciais.