O Estádio Santiago Bernabéu é palco de algumas das grandes histórias da Liga dos Campeões. Verdadeiros esquadrões se consagraram naquele gramado, partidas épicas se consumaram por lá. E uma das noites mais inesquecíveis da Champions foi vivida nesta terça-feira. É a noite de um Ajax gigante. De uma camisa que se respeita por tudo o que representa, de uma filosofia que transformou o futebol mundial, de uma torcida que pulsa em máxima intensidade. Os holandeses invadiram Madri e viram o impossível ruir diante dos seus olhos. Uma atuação magnífica do time de Erik ten Hag possibilitou isso. Foi a equipe intensa, que pressionou na marcação a todo o momento e manteve sua concentração em nível altíssimo. Foi a equipe letal, explorando os erros e atacando os espaços. Foi a equipe de jogadores talentosos, protagonizando o maior jogo de suas vidas. Tadic, Ziyech, Neres, De Jong, Blind e todos os outros merecem aplausos pelo que fizeram na Espanha. Só a conjunção de fatores explica os 4 a 1 aplicados pelos Godenzonen, que valeu a classificação às quartas de final.

Mas se por um lado o Ajax desfruta de seu ápice desde o timaço dos anos 1990, o Real Madrid também encara a sua queda. É a derrocada de um time multicampeão, que faturou o tri da Champions como não ocorria na Europa desde os anos 1970. É o fim de uma dinastia, provocada pelos desgastes que os merengues evidenciaram desde a pré-temporada, quando o elenco vitorioso começou a desmontar. Não é mais o Real de Zidane ou Cristiano Ronaldo. É um Real insuficiente, que deu sinais recentes de melhora, mas nada que bastasse em uma semana de pesadelo. As duas derrotas seguidas em casa para o Barcelona, em menos de 72 horas, eram inéditas. Assim como foi inédita a goleada dos Ajacieden por 4 a 1, maior sofrida pelos madridistas no Bernabéu por competições europeias. O triunfo dos visitantes por 2 a 1 na Johan Cruijff Arena foi um ótimo prólogo nestas oitavas de final. Até que a epopeia se cumprisse em Madri.

Antes que a bola rolasse e se tivesse noção do que ocorreria dentro de poucos minutos, os dois times mantiveram a base utilizada no jogo de ida. No Real Madrid, o único desfalque era Sergio Ramos, suspenso após forçar um cartão amarelo. Nacho compôs o miolo de zaga ao lado de Raphaël Varane, enquanto Sergio Reguillón permanece como preferido de Santiago Solari na lateral esquerda. O meio entrou com a trinca composta por Casemiro, Toni Kroos e Luka Modric. Já no ataque, o treinador reconheceu a fase recente para alinhar Lucas Vázquez, Karim Benzema e Vinícius Júnior. Erik ten Hag, por sua vez, repetiu a escalação utilizada pelo Ajax em Amsterdã. David Neres foi mantido na ponta esquerda, com Dusan Tadic centralizado no ataque e Hakim Ziyech pela direita. E no apoio, um trio de qualidade técnica formado por Frenkie de Jong, Lasse Schöne e Donny van de Beek.

Durante os primeiros minutos no Bernabéu, o Real Madrid parecia interessado em impor o seu jogo. Começou buscando o ataque e logo mandou uma bola no travessão. Lance de desatenção da defesa do Ajax, com Varane aparecendo sozinho para cabecear o cruzamento de Lucas Vázquez. Para sorte dos holandeses, o zagueiro errou por centímetros, enquanto André Onana só assistia. Os Godenzonen, de qualquer maneira, não demorariam a responder. Trabalhavam com muita intensidade sem a bola e apertavam a marcação sobre os merengues. Pois a pressão daria resultado, com o primeiro gol saindo aos sete minutos.

O lance decisivo começou na lateral direita. Ziyech pressionou Kroos e conseguiu roubar a bola. Tadic se deslocou para a ponta e recebeu o passe, avançando em direção à área. David Neres também teve uma participação vital na jogada, ao abrir para o lado oposto e puxar a marcação. Assim, o sérvio pôde esperar a aproximação de Ziyech e rolou ao marroquino, que chegou batendo de primeira. Thibaut Courtois não conseguiu reagir a tempo. O gol precoce impulsionou a confiança do Ajax. O time atuava com grande segurança e leveza, sem se intimidar com o Real Madrid. Prova disso foi a finta que Neres tentou aplicar sobre Dani Carvajal na linha de fundo, dando um drible da vaca de letra sobre o lateral. Pena que a bola saiu.

O Real Madrid tentou responder de imediato. Todavia, o Ajax se defendia com muita solidez e atenção, o que reduzia os espaços aos merengues. Os Ajacieden trancavam a porta e esperavam o espaço para dar o bote no ataque. O que aconteceria com uma frequência considerável na sequência do primeiro tempo. E o segundo gol nasceu aos 18 minutos. Tadic fazia uma senhora partida, algo que se escancarou com uma jogada fabulosa. O atacante tinha total controle do espaço ao receber o passe na intermediária. Livrou-se dos marcadores até aplicar um drible soberbo em Casemiro, uma roleta que deixou o volante totalmente perdido. Então, o sérvio viu a infiltração de Neres pela esquerda e deu a enfiada. O brasileiro dominou e, com Courtois a seus pés, deu um toque sutil para encobrir o arqueiro. O placar já era suficiente à classificação dos visitantes.

O segundo gol atordoou completamente o Real Madrid. O Ajax encontrava um espaço enorme às costas da defesa adversária e ia surrando os espanhóis com seus ataques rápidos. O terceiro poderia ter vindo logo na sequência. David Neres partiu em posição levemente adiantada e, na tentativa de superar Courtois, mandou para fora. Os merengues dependiam de espasmos, sobretudo iniciados por Vinícius Júnior. Quando o ponta serviu Benzema e o centroavante soltou a bomba, Onana fez ótima defesa. Mas eram os Godenzonen que maltratavam. Tadic quase deixou o seu na sequência, parando nas pernas de Courtois. O ímpeto dos holandeses fazia crer que o terceiro gol não tardaria, enquanto os espanhóis se perdiam entre seus erros e o excessivo nervosismo.

Como se não bastasse, nem mesmo a sorte estava do lado do Real Madrid. Lucas Vázquez sentiu lesão e precisou ser substituído aos 29 minutos, por Gareth Bale. Pouco depois, Vinícius Júnior arrancou sozinho por todo o campo de ataque e acertou a rede pelo lado de fora. Também machucou o tornozelo neste momento e Marco Asensio veio em seu lugar. Do outro lado, Ziyech não tinha piedade dos problemas madridistas e estava disposto ao terceiro. Parou em defesaça de Courtois, antes de bater para fora, com muito perigo. Os anfitriões só voltariam aos trilhos nos dez minutos finais. Estancaram o sangramento na defesa e insistiram no primeiro gol. Pararam na postura ligada dos Ajacieden na defesa, sempre precisos no corte. Quando Onana saiu mal, Nico Tagliafico afastou na pequena área. Depois, Daley Blind travou Asensio dentro da área. E quando Bale encontrou a brecha para arrancar pela esquerda, estalou outra vez a trave.

A exibição do Ajax era ainda melhor do que a realizada no primeiro tempo em Amsterdã. E não apenas pelo placar, mas também pela consistência na defesa e pela calma para encarar uma ocasião deste tamanho no Bernabéu. O Real Madrid sabia que precisava de uma resposta imediata e, por isso, começou a etapa complementar tentando sufocar. Modric aparecia bastante na organização e o time ia arriscando. Faltava mais precisão nas finalizações, com a defesa do Ajax segurando o tranco. Ainda assim, o esforço dos merengues parecia insuficiente ante a objetividade dos ajacieden. Do outro lado, um ataque bastou para Van de Beek forçar boa defesa de Courtois. Já aos 13 minutos, uma jogadaça de Benzema pela esquerda quase terminou em golaço. Deu uma finta que deixou Ziyech no chão, mas o chute cruzado passou raspando a trave para fora.

O momento crucial aconteceu aos 17 minutos. Foi quando o Ajax anotou o seu terceiro gol. A jogada começou em um lance brigado na lateral do campo, no qual Noussair Mazraoui se esforçou ao máximo para que a bola não ultrapassasse a linha. Seu empenho foi premiado com o contragolpe, no qual Van de Beek serviu Tadic. Então, o camisa 10 coroou sua atuação apoteótica. Encarou a marcação dupla e encontrou espaço para mandar a bola no ângulo de Courtois. Golaço. O lance, obviamente, foi para a revisão do VAR. Havia uma clara dúvida se a bola de Mazraoui teria saído ou não e a arbitragem passou bons minutos analisando as imagens. Cada ângulo passava uma impressão diferente, embora tenha prevalecido a visão de que a esfera não passou completamente o plano da linha. O alemão Felix Brych manteve a decisão de campo e validou o tento. A análise da jogada será motivo de discussão por muito tempo. Inclusive, por pesar contra o Real Madrid dentro do Bernabéu e em plena Champions. Ao final, ficará confirmada a pintura de Tadic.

Os minutos de revisão pareceram esfriar o jogo. O Ajax relaxou um pouco e o Real Madrid tentou se aproveitar. Foi arrematando e, depois de dois bons lances, um deles defendido por Onana, conseguiu anotar o seu gol de honra aos 25 minutos. Reguillón veio pela esquerda e passou a Asensio. O atacante chutou cruzado e a bola beijou a trave, antes de entrar. Até parecia que os espanhóis estavam vivos, restando 20 minutos mais acréscimos. Dois minutos depois, Schöne dizimou as esperanças dos madridistas. Em uma cobrança de falta lateral, o meio-campista mandou direto para o gol. Outra pintura, em tiro que encobriu Courtois e morreu no ângulo.

Depois disso, a bola só rolou por protocolo. E dois lances simbolizaram a peleja. Quando De Jong errou na entrada da área e Benzema poderia ter diminuído outra vez, escorregou, com Onana brecando a sobra de Bale. Por fim, o quinto gol dos holandeses não saiu porque Ziyech perdoou na linha da pequena área, após cruzamento de Tadic – de novo ele. Não era necessário um golpe de misericórdia dos Godenzonen. A história estava feita, em qualquer sentido que fosse contada, pelo Ajax ou pelo Real. Houve tempo para Nacho ser expulso no fim, mas nada que alterasse o curso do épico que se tornava realidade.

Ainda há um longo caminho para o Ajax sonhar concretamente com a reconquista da Champions. Ainda há um longo caminho para determinar o que esta geração pode fazer – ou até quando pode. O futuro pouco importa neste momento. Porque a impressão final do que se viveu no Bernabéu é que o presente se cristaliza logo em forma de eternidade, uma eternidade a ser contada e recontada enquanto o futebol existir. Uma atmosfera um tanto quanto surreal tomou o gramado. Os derrotados atônitos se desolavam diante dos vencedores incrédulos. E a noção da realidade, veja só, era transmitida apenas pela loucura que se via no setor visitante das arquibancadas. A insanidade daqueles que melhor noção têm do que representa esta vitória. É a magia que nunca acabará, independentemente do que se passe das quartas de final em diante. Todo torcedor aguarda uma noite como esta. Os torcedores do Ajax aguardaram por décadas. E a viveram com o gigantismo que é inerente à sua camisa.