Chamavam-no de “Napoleão do Futebol”. E, pela baixa estatura, já dava para entender uma das razões do apelido. O talento de Raymond Kopa, no entanto, levava o termo às mais diferentes compreensões. Dentro de campo, podia ser considerado um imperador com a bola nos pés. Fazia os outros 21 jogadores em campo respeitarem a sua autoridade, atacante de múltiplas virtudes, dotado de grande qualidade técnica e visão de jogo privilegiada. Além das quatro linhas, foi um desbravador de fronteiras. Fundamental para a popularização do esporte na França, assim como da imagem do jogador francês no exterior. Não à toa, iniciou o estilo que ficou conhecido como “futebol champagne”, antes de fazer sucesso no esquadrão do Real Madrid e brilhar na Copa do Mundo. Acima de tudo, tinha uma personalidade forte, de quem compreendeu a magnitude do futebolista além de suas funções no gramado e lutou por seus direitos. Completa lenda, que faleceu nesta sexta, aos 85 anos, mas deixou um rico legado.

Assim como outros grandes craques franceses, Kopa tem origens imigrantes. Seus avós paternos deixaram a Polônia após a Primeira Guerra Mundial. Seu pai tinha 13 anos quando chegou ao novo país e se casou também com uma descendente de poloneses. Os Kopaszewski se instalaram no norte da França, onde encontraram oportunidades de trabalho nas minas de carvão. Não muito afeito à escola, com dificuldades de aprender em francês por causa do idioma polonês corrente em casa, o jovem conciliava os estudos com a sua maior paixão, o futebol.

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Kopa começou a chamar atenção por sua habilidade quando tinha apenas oito anos e jogava com outros filhos de mineiros, também imigrantes. Aos 11, ganhou uma chance de se juntar ao US Nœux-les-Mines, equipe da cidade onde nasceu. Todavia, eram tempos difíceis, com a Segunda Guerra Mundial espalhando sangue pela Europa. O norte da França estava ocupado pela Alemanha. Inclusive, foi de soldados nazistas que o garoto ganhou a sua primeira bola de couro. Chamado para entrar em campo com outros amigos, arrebentou contra os adversários. “À nossa maneira, quase fizemos um ato de resistência, não?”, avaliaria, tempos depois.

O caminho de Kopa se abriu depois da Segunda Guerra Mundial. Enquanto defendia o Nœux-les-Mines, também começou a trabalhar nas minas de carvão. No entanto, quando tinha 16 anos, sofreu um acidente sério: a partir de um deslizamento de terra, uma rocha esmagou o indicador da sua mão esquerda. Precisou amputar o dedo e ficou temporariamente afastado do trabalho, recebendo uma pensão por invalidez. Voltou à labuta meses depois, em funções mais leves. Mas não precisaria se esforçar tanto. Nesta época, o talento com o futebol se sobressaía. E por mais que a vida de mineiro oferecesse uma estabilidade até maior do que a carreira de jogador naqueles tempos, o craque optou mesmo pela bola.

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O sucesso no Nœux-les-Mines levou Kopa ao time de sua região, brilhando nas competições nacionais. Já em 1949, participou de um concurso organizado pela Federação Francesa de Futebol, para apontar jovens revelações do país. A competição se baseava em provas individuais de habilidades, e o descendente de poloneses chegou até as finais, embora não tenha ficado com o prêmio principal, terminando na segunda colocação. A vitrine ao menos serviu para atrair o interesse do Angers. Inicialmente, o rapaz de 18 anos iria assinar um contrato semi-profissional e ganhar um emprego de eletricista. Contudo, sem o trabalho prometido, o clube preferiu não perder o talento e profissionalizou a promessa. Não se arrependeu.

Duas temporadas bastaram para Kopa (apelidado assim no clube, deixando para trás de vez o sobrenome Kopaszewski) se tornar um dos destaques da segunda divisão do Campeonato Francês. E também para dar passos maiores. O atacante chamou atenção do Stade de Reims após um amistoso entre os dois clubes. Foi convidado pelo mítico técnico Albert Batteux a realizar testes nos alvirrubros, campeões nacionais em 1949. Não havia como abrir mão de tamanho prodígio. As negociações se estenderam por semanas e, ainda que a pedida do Angers fosse alta, o Reims aceitou pagar. Além disso, Kopa também exigiu uma bonificação polpuda para assinar, fazendo os dirigentes ficarem reticentes. No fim das contas, Batteux convenceu os patrões a cobrirem o valor.

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“O garoto é inteligente, dribla em espaços curtos, chuta forte com os dois pés, possui um bom domínio, joga de cabeça erguida e tem boa visão”, escreveu a imprensa local, na época de sua contratação. Durante os primeiros anos de carreira, contudo, Kopa era acusado de prender demais a bola e exagerar nos dribles. Costumava atuar centralizado no ataque, mas não como um centroavante clássico. Fazia uma função mais parecida com a de Nándor Hidegkuti na seleção húngara, buscando o jogo, abrindo espaços aos companheiros – o que permitiria a mutação do WM em 4-2-4, e décadas depois seria batizado de ‘falso nove’. Com o tempo, o francês evoluiu seu jogo coletivo. E todos ganharam com isso, diante de sua qualidade nos passes.

A partir da contratação de Kopa, o Stade de Reims se transformou em um símbolo do futebol francês. A modalidade importada da Inglaterra não era bem uma preferência nacional naqueles anos, marcada pela força física. O garoto, Batteux e seus companheiros no Estádio Auguste-Delaune ajudaram a mudar essa percepção. Praticavam um estilo mais solto, valorizando os passes e os dribles. Classe que ganhou o apelido de “futebol champagne”, não apenas pela sofisticação da bebida, mas também pelo fato da cidade de Reims estar encravada na região da Champanha, de onde se origina o vinho branco espumante. Via-se a paixão do futebol praticado nas ruas, mas que acabaria abrindo portas bem maiores, inclusive internacionalmente.

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“Quando Kopa inventou o futebol-champagne, junto com os companheiros do Stade de Reims, todos baixinhos, todos rápidos, foi amor à primeira vista. O dedo indicador que faltava em uma mão serviu para nos dirigir ao que foi a primeira revolução do futebol francês, a do jogo bonito. Filho imprudente de imigrantes poloneses, tomou a batuta e governou nosso jogo como fazia em seu bairro. Com ele, todos fomos vizinhos do mesmo povo”, escreve Thibaud Leplat, em homenagem no jornal El País. “Kopa era o drible, a finta para dentro, os espaços reduzidos. Kopa não era a forma mais direta de chegar ao gol, mas a mais bela. Mas também Kopa era uma forma ética de entender o futebol. Não no sentido moral ou político, mas no sentido existencial, filosófico. Para Kopa, o futebol era a forma mais bela inventada pelos seres humanos para se fazerem livres”.

Demorou pouco para Kopa e o Stade de Reims aliarem o jogo bonito à eficiência. Em 1952/53, a equipe de Albert Batteux conquistou o Campeonato Francês. Além do baixinho de origem polonesa, o time já contava com outros jogadores de respeito, a exemplo de Robert Jonquet, Léon Glovacki e Bram Appel. E se consagrou além das fronteiras, com o título da Copa Latina – competição disputada pelos campeões nacionais de Espanha, França, Itália e Portugal. Na decisão, 3 a 0 sobre o Milan do “GreNoLi” (composto pelos suecos Gren, Nordahl e Liedholm), com dois gols de Kopa. E a fama do atacante se espalhava pela Europa.

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A partir de 1952, aos 21 anos, Kopa começou a ser convocado para a seleção francesa. Uma pena que sua primeira participação em Copas do Mundo não tenha sido boa. Os Bleus não passaram da primeira fase do Mundial de 1954 e o craque foi criticado pela torcida. Na saída para o intervalo na derrota contra a Iugoslávia, chave para a eliminação dos franceses, ele ouviu das arquibancadas: “Volte para as minas, seu verdadeiro lugar é lá”. Sua redenção veio nos anos seguintes, quando a França sustentou uma série invicta, derrotando adversários de peso como Alemanha Ocidental e Inglaterra. Em março de 1955, acabou com a Espanha em um amistoso disputado em Madri. Atuação tão boa que rendeu o apelido de Napoleão, dado por um jornalista inglês, e repercutiria na sequência de sua carreira.

Em 1954/55, com o acréscimo de outros futebolistas notáveis, como Michel Hidalgo e René Bliard, o Stade de Reims conquistou mais um título do Campeonato Francês. Feito que garantiu ao clube o direito de disputar a primeira edição da Copa dos Campeões. Os alvirrubros caminharam até a decisão. Eliminaram os dinamarqueses do Aarhus, os fortíssimos húngaros do Vörös Lobogó e os escoceses do Hibernian. Já na decisão, encararam o Real Madrid em pleno Parc des Princes. Os franceses chegaram a abrir dois gols de vantagem, mas permitiram o empate. Já no segundo tempo, fizeram o terceiro, tomando a virada por 4 a 3. Decisão épica, mas que terminaria com Kopa derrotado. Seu último ato até mudar de lado.

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Naquele momento, não havia o que segurasse Kopa. Em agosto de 1956, por um valor recorde para um futebolista francês, o atacante acertou sua transferência ao Real Madrid. Encantados desde o amistoso entre as seleções no ano anterior, os merengues naturalizaram Alfredo Di Stéfano e usara a vaga aberta para estrangeiros contratando o francês. Enquanto isso, Just Fontaine seria o seu substituto no Stade de Reims. Na capital espanhola, o novo reforço formou ao lado de Di Stéfano, Héctor Rial, Paco Gento e outros grandes a versão primordial dos “galácticos”, muito antes de ganhar este nome. Todavia, ninguém negava o status atingido pelo timaço merengue. Ao final de 1956, Kopa terminou em terceiro na primeira edição da Bola de Ouro. E, em sua temporada inicial em Chamartín, já ergueu a taça que lhe escapara. Em decisão contra a Fiorentina, ajudou o Real Madrid a ser bi da Copa dos Campeões. Também faturou o Campeonato Espanhol. Jogava mais na ponta direita, com Di Stéfano centralizando a poderosa linha ofensiva.

Terceiro colocado da Bola de Ouro mais uma vez na segunda edição do prêmio, em 1957, Kopa ganhou a companhia de seu ídolo em sua segunda temporada no Real Madrid: Ferenc Puskás. Aos 26 anos, pôde aprender um bocado com o mestre. Não à toa, chegou ao ápice da forma naquele período. Mais uma vez levou o Campeonato Espanhol e a Copa dos Campeões, agora derrotando o Milan por 3 a 2. Além disso, teve a oportunidade de liderar a seleção francesa e reescrever sua história na Copa do Mundo. Do poderoso quinteto de ataque, apenas Maryan Wisniweski não era proveniente do Reims. O Napoleão pôde se entrosar com Just Fontaine, Roger Piantoni e Jean Vincent, todos seus “herdeiros” com a camisa alvirrubra. Levaram o futebol champagne também aos Bleus.

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A França fez uma campanha de respeito no Mundial da Suécia. Terminou na primeira colocação de seu grupo, apesar da derrota para a Iugoslávia. No jogo que valeu a classificação, Kopa abriu o triunfo sobre a Escócia. Já nas quartas de final, o time treinado por Albert Batteux goleou a Irlanda do Norte. E, apesar da eliminação para o Brasil nas semifinais, em dia inspirado de um garoto chamado Pelé, os franceses mantiveram a honra ao conquistarem o terceiro lugar, derrotando a Alemanha Ocidental por 6 a 3. Kopa não foi tão letal quanto Fontaine e terminou a competição com três gols. Ainda assim, foi eleito para o time ideal do torneio. “Eu acho que eu ajudei um pouco Fontaine a marcar tantos gols. Não sozinho, mas era eu quem comandava o ataque. E eu acho que Fontaine não reclamaria disso. Penso que ele poderia até ter feito mais gols. Pode perguntar a ele. O Brasil tinha uma equipe extraordinária, mas estavam com medo de nós. Eles não haviam tomado nenhum gol até nos enfrentar. Mas nosso azar é que rapidamente ficamos com dez, quando Jonquet se machucou após 20 minutos. E como não havia substituições…”, avaliou sobre sua participação, em entrevista à SoFoot.

Juntando a supremacia no Real Madrid, faturou a Bola de Ouro. Recebeu 71 pontos, contra 40 do segundo colocado, Helmut Rahn, e 23 de Just Fontaine, o terceiro. Pela primeira vez, a principal honraria do futebol europeu iria para as mãos de um jogador francês. Algo que se repetiria apenas com Platini, Papin e Zidane. “Ele fez progressos sensacionais no último ano. Na técnica, ele aperfeiçoou o seu jogo com classe, precisão, velocidade e poder de decisão. Ele bate na bola mais forte e encontra seus companheiros mais rápido. Ele consegue maravilhas com dribles, unicamente por fintas de corpo, deixando a bola imóvel no chão. Então, ele age de maneira rápida, no momento certo. Na tática, nunca vimos alguém executar melhor as tabelas, aproveitando o espaço livre para receber o passe de volta. Kopa não se contenta em lançar os companheiros. Ele os deixa nas melhores condições para marcar. Seu verdadeiro lugar não é como ponta ou meia, nem mesmo como centroavante. Seu lugar é a criar, é como um jogador que integra o ataque que ele inspira, orienta e serve à perfeição”, apontou a France Football, ao descrever o jogo de Kopa na época da entrega da Bola de Ouro.

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E a figura de Raymond Kopa possuía representatividade muito além das quatro linhas. O atacante ajudou a iniciar uma nova era, com jogadores que capitalizavam a partir da imagem. Primeiro, em 1954, emprestou seu nome a uma fábrica de sapatos. Depois, lançou sua própria marca de refrigerantes. Também teve um jornal, uma tabacaria e foi coproprietário de um hotel. Já ao final da carreira, se tornou diretor comercial da Kopa, que produzia materiais esportivos. Chegou a percorrer cerca de 80 mil quilômetros entre viagens para ajudar a promover a marca antes mesmo de pendurar as chuteiras. Seguiu à frente da companhia até 1991, com 60 anos.

Mas, à parte do homem de negócios, ainda havia o craque. Em sua última temporada em Chamartín, viu o Barcelona triunfar no Campeonato Espanhol. De qualquer maneira, não havia concorrência digna na Copa dos Campeões. O Real Madrid vinha em mais uma campanha inapelável. Mais uma vez, cruzou com o Stade de Reims na decisão. E a Lei do Ex favoreceu Kopa, que não balançou as redes, mas ergueu a taça outra vez com a vitória por 2 a 0. Já era hora de voltar para casa. Em agosto de 1959, o meia-atacante acertou o seu retorno ao próprio Reims. Ao final daquele ano, ainda quase faturou sua segunda Bola de Ouro, atrás apenas de Di Stéfano. Era o quarto pódio consecutivo, em sequência que só seria repetida décadas depois, por Messi e Cristiano Ronaldo.

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Ao lado de Fontaine, Piantoni, Vincent e outros companheiros da seleção de 1958, Kopa conquistou o Campeonato Francês mais duas vezes, em 1960 e 1962. Em ambos os anos, voltou a figurar entre os primeiros colocados da Bola de Ouro, mas sem repetir o pódio. Só não teve a mesma sorte na Copa dos Campeões, eliminado por Burnley e Feyenoord. Neste período, a personalidade forte de Kopa criou alguns problemas. Entrou em rota de colisão com o técnico da seleção, Georges Verriest, trocando farpas publicamente e acabou suspenso, ao se recusar a jogar enquanto o comandante não pedisse desculpas. Em 1962, encerrou sua história nos Bleus. Enquanto isso, também pegou um gancho de seis meses, ao criticar à imprensa o regime de vínculo dos futebolistas com seus clubes e declarar que “os jogadores eram escravos, os únicos seres humanos no Século XX que podiam ser comprados e vendidos sem serem consultados”. Não à toa, antes de se aposentar, virou vice-presidente do sindicato dos jogadores, liderado pelo amigo Fontaine. Juntos, conseguiram forçar uma reforma no sistema de aposentadoria dos atletas.

Em 1963, Kopa fez parte da primeira seleção do mundo, formada para celebrar os 100 anos da Football Association. Contudo, o final de sua carreira não teve os mesmos sucessos. Em dificuldades financeiras, o Stade de Reims despencou de rendimento. Foi rebaixado em 1963/64, antes de retornar à elite do Campeonato Francês duas temporadas depois, para cair novamente. Então, aos 36 anos, Kopa deu seu basta à carreira profissional. Despediu-se com 668 partidas disputadas e 159 gols anotados – destes, 45 jogos e 18 tentos pela seleção.

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De qualquer maneira, Kopa seguiu alimentado a sua paixão. Calçava chuteiras em equipes amadoras. Durante o início dos anos 1970, aos 42 anos, chegou mesmo a ser convidado por Just Fontaine, então dirigente, a se juntar ao recém-criado Paris Saint-Germain. Recusou, apesar de disputar um amistoso. E sua carreira como amante da bola perseverou bastante, muito além do que a idade pudesse sugerir: continuou batendo sua bolinha até os 70, só parando por conta de uma osteotomia. Em 2004, na ocasião dos 100 anos da seleção francesa, foi eleito o terceiro melhor jogador dos Bleus em todos os tempos, só atrás de Platini e Zidane.

Diante da notícia do falecimento, vários jogadores renderam homenagens a Kopa. Ex-companheiros, como Fontaine, Piantoni e Hidalgo. Sucessores, a exemplo de Zidane e Platini. “Ele nos mostrou o caminho. Para mim, ele foi principalmente um exemplo. Não o vi jogar, mas assisti aos vídeos de suas partidas. E eu tentei aprender não apenas com o jogador que ele foi, mas também com o homem que ele era, com a importância que teve à seleção francesa e ao Real Madrid. Pudemos nos encontrar algumas vezes e eu amava falar de futebol com ele. Todos os momentos que passei com Raymond foram agradáveis”, relatou Zizou, ao L’Equipe. Ficam as memórias de quem representou tanto e, mesmo décadas depois, continua considerado um dos melhores jogadores da história.