A temporada 1994/95 foi a última de Emilio Brutagueño no Real Madrid. Aos 31 anos, atuou muito pouco, apenas 412 minutos, em todas as competições. Houve uma partida contra o Zaragoza, em 29 de outubro de 1994. Brutagueño não entrou em campo em La Romareda e, depois desse jogo, só vestiria a camisa merengue por mais 18 minutos em La Liga. A importância histórica dessa derrota por 3 a 2 sobre o Zaragoza é o surgimento do seu sucessor: um outro canterano, um outro camisa 7, um outro atacante. Foi o jogo em que Raúl González fez a sua estreia pelo clube que defenderia 741 vezes.

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Raúl completou 40 anos nesta terça-feira, mas tinha apenas 17 quando disputou sua primeira partida pelo Real Madrid. Não marcou contra o Zaragoza, mas não demoraria para dar início ao seu recheado currículo de 323 gols: na semana seguinte, enfrentou o Atlético de Madrid e anotou seu primeiro tento vestido de branco no dérbi. E foi muito bonito. Bola rolada para dentro da área, e Raúl pegou de primeira. Mandou no ângulo. O Real venceu por 4 a 2, e o garoto marcaria dez vezes na sua primeira temporada.

A titularidade veio naturalmente, e Raúl passou a atuar bastante. Tanto que se tornou o jogador que mais vezes vestiu a camisa do Real Madrid. Já havia conquistado a Champions League quando deixou seu nome registrado pela primeira vez em uma final europeia, contra o Valencia, em 2000. Aquela temporada já havia sido marcante pelo clássico do primeiro turno de La Liga contra o Barcelona. Raúl fez os dois gols merengues do empate por 2 a 2. Depois do segundo, encobrindo Ruud Hesp, causou polêmica ao fazer o sinal de silêncio para o Camp Nou.

O segundo gol em finais europeias sairia em 2002, contra o Bayer Leverkusen. Foi muito bonito. Pegou de primeira da entrada da área. Foi, porém, ofuscado pela obra prima de Zidane que decidiu o título. Simbólico: Raúl era excelente jogador – basta prestar atenção na técnica apurada que demonstra em seus gols -, mas não era vultuoso ou glamoroso como Zidane, Ronaldo, Figo ou Beckham. Era a ligação da torcida com as raízes do Real Madrid durante o projeto dos galácticos. Uma estrela formada em casa em meio a uma constelação trazida de fora.

Ainda jovem, Raúl passou imune ao primeiro projeto dos galácticos, mantendo seu lugar na equipe e marcando muitos gols. Atravessou, também, o período difícil da década passada, em que o Real Madrid conquistou alguns títulos nacionais, mas nunca passava das oitavas de final da Champions League. Nunca chegava sequer próximo de La Décima. O segundo projeto galáctico foi mais cruel. As chegadas de Cristiano Ronaldo, Benzema e Kaká, em 2009, empurraram Raúl para a porta. Atuou 39 vezes na sua última temporada, apenas 13 como titular, em um total de 1.516 minutos, quase 17 partidas completas. Era a hora de sair.

Raúl foi para o Schalke 04 e mostrou que ainda tinha uma grande temporada dentro dele. Fez 19 gols pelo clube alemão, com destaque para a campanha na Champions League. Marcou três vezes no mata-mata, contra o Valencia, nas oitavas de final, e duas vezes na Internazionale, que era a atual campeã. O conto de fadas terminou na semi, contra o Manchester United. Conquistou a Copa da Alemanha, o 12º e último título importante de sua carreira: seis La Liga, três Champions League e dois Mundiais – ainda levantou quatro Supercopas da Espanha, uma da Alemanha e uma da Europa.

A segunda temporada de Raúl na Alemanha foi ainda melhor em termos individuais. Aos 35 anos, marcou 21 vezes e ajudou o Schalke 04 a ser terceiro colocado, com classificação direta para a próxima Champions League. Havia feito o bastante. Havia provado que poderia ter sucesso longe do Real Madrid. Passou por Al-Sadd, do Catar, e New York Cosmos, dos Estados Unidos, antes de fechar a conta da sua carreira.

Desde a aposentadoria, Raúl vem atuando como embaixador de La Liga e estudando negócios do esporte. Deve ganhar a oportunidade de usar o seu novo conhecimento em um cargo diretivo no Real Madrid. Segundo a imprensa espanhola, é iminente o anúncio de sua contratação para ser assistente do diretor-geral José Ángel Sánchez, braço direito de Florentino Perez, o responsável por contratações, contratos, estratégias comerciais e desenvolvimento da marca do clube. Uma chance de ampliar a sua lenda com o Real Madrid.