Os Estados Unidos celebram, nesta quinta-feira (4), o seu Dia da Independência. E, perto da data, Megan Rapinoe, um dos destaques da seleção norte-americana, e o presidente do país, Donald Trump, trocaram declarações sobre o que significa ser americano.

Vice-artilheira da Copa do Mundo 2019, com cinco gols, Rapinoe tem sido destaque dentro e fora dos campos durante este Mundial. Mesmo ausente da equipe que bateu a Inglaterra para alcançar mais uma vez a decisão, Rapinoe ganhou manchetes, mas pela resposta contundente que deu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que a acusou de desrespeitar o país ao dizer que não iria para a “porra da Casa Branca” se ganhasse o título na França.

No início da semana passada, um vídeo que passou a circular nas redes sociais – gravado antes da Copa do Mundo – mostra Megan Rapinoe dizendo, com palavrão e tudo, que não visitaria a Casa Branca em caso de título na Copa do Mundo. Após a divulgação da imagem, Trump foi ao Twitter responder o conteúdo e provocar Rapinoe:

“A jogadora de futebol feminino Megan Rapinoe acaba de afirmar que ‘não vai pra porra da Casa Branca se ganharmos’. Exceto pela NBA, (…) ligas e times amam vir à Casa Branca. Sou um grande fã da seleção norte-americana e do futebol feminino, mas a Megan deveria vencer antes de falar! Termine o serviço! Ainda não terminamos a Megan ou o time, mas agora estou convidando o time, ganhando ou perdendo. A Megan nunca deveria desrespeitar o nosso país, a Casa Branca ou a nossa bandeira, especialmente considerando que tanto foi feito por ela e pelo time. Tenha orgulho da bandeira que você carrega. Os EUA estão ótimos!”

Nesta quarta-feira (3), um dia antes do tradicional 4 de Julho, Rapinoe se disse “profundamente americana” e elencou seus motivos para achar isso. “Se falamos dos ideais que defendemos, todas as canções, o hino e aquilo sobre o que fomos fundados, acho que sou extremamente americana”, afirmou a repórteres.

“Defendo a honestidade, a verdade e a vontade de ter diálogo. E defendo olhar honestamente para o país e dizer, sim, somos um grande país, e há muitas coisas que são tão incríveis, e eu me sinto muito sortuda por estar neste país. Eu nunca conseguiria fazer isso em vários outros lugares.”

Apesar de exaltar o próprio país, Rapinoe continuou sua réplica, jogando luz sobre problemas da sociedade americana e pedindo um diálogo maior. “Isso também não significa que não possamos melhorar. Isso não significa que não devemos nos esforçar para ser sempre melhores. Acho que este país foi fundado com muitos grandes ideais, mas também foi fundado com base na escravatura. E acho que só precisamos ser verdadeiramente honestos sobre isso e estar realmente abertos para falar sobre isso, para que possamos conciliar isso e, com sorte, avançar e tornar este país melhor para todos.”

A fala de Rapinoe está ligada ao episódio que deu origem aos atritos entre o presidente Donald Trump e esportistas dos Estados Unidos. No país, é tradição que se fique de pé durante o hino nacional antes de eventos esportivos. Em 2016, em partida do San Francisco 49ers, time da NFL, o jogador Colin Kaepernick, em protesto contra a injustiça racial e a opressão sistemática a negros no país, permaneceu ajoelhado. Desde então, uma enorme briga política tomou conta do entorno do atleta, com Trump sendo um de seus mais ferrenhos antagonistas.

A própria Rapinoe é uma figura que expressa muito abertamente suas opiniões, debatendo questões ligadas a desigualdade racial, discriminação de gênero e direitos LGBTQ. Em apoio a Kaepernick, por exemplo, também se ajoelhou durante o hino nacional antes de duas partidas dos EUA em 2016, bem como em um jogo do Seattle Reign.

É tradição nos Estados Unidos que atletas vão até o lar do presidente do país – a própria Megan Rapinoe, com a seleção norte-americana, esteve lá após vencer a Copa do Mundo de 2015, quando o presidente era Barack Obama. Porém, é bom apontar, Rapinoe não seria a primeira esportista a recusar convite a visitar a Casa Branca após uma conquista importante. Desde que Trump assumiu o poder, diversos episódios de recusa aconteceram: o Golden State Warriors, na NBA, e o Philadelphia Eagles, da NFL, o fizeram.

Não há informação concreta sobre a presença ou ausência da seleção norte-americana na Casa Branca em caso de sucesso neste domingo, na final contra a Holanda. Entretanto, Ali Krieger, também da equipe, defendeu publicamente a colega de time na semana passada, escrevendo a Trump: “Eu sei que mulheres que você não pode controlar ou apalpar te irritam, mas eu fico ao lado da Rapinoe e deixarei passar essa também. Não apoio esse governo e a sua luta contra os cidadãos LGBTQ+, imigrantes e os mais vulneráveis de nós”.

Principal nome da seleção, Alex Morgan, que divide a artilharia da Copa ao lado de Ellen White, da Inglaterra, com seis gols, também já criticou Trump e garantiu que não iria à Casa Branca em caso de triunfo, assim como Becky Sauerbrunn. Com líderes como Rapinoe e Morgan se expressando assim, é uma grande incógnita o que acontecerá após um possível título norte-americano. O que parece quase certo é que as declarações desse atrito ainda não chegaram ao fim.