A carreira de Vanderlei Luxemburgo possui um claro divisor de águas. A chegada ao Real Madrid trouxe ao técnico um reconhecimento internacional poucas vezes conquistado por seus pares brasileiros. Luxa não foi mal no Bernabéu, com aproveitamento de 69%. Porém, a falta de um futebol convincente, a eliminação nas oitavas da Champions para o Lyon e a humilhação contra Ronaldinho dentro do Bernabéu culminaram em sua demissão. Voltou ao Brasil sem ter dado certo na Europa, mas ainda como um currículo respeitadíssimo. Desde então, acumulou sete trabalhos em sete anos e frustrações – a última delas encerrada nesta segunda, demitido pelo Fluminense.

O cartel de títulos de Luxemburgo fala por si. No ‘primeiro momento’ de sua carreira, o carioca conquistou cinco Brasileirões, uma Copa do Brasil, sete estaduais e dois Rio-São Paulo. Chegou à seleção brasileira, com a qual foi campeão da Copa América. Ascendeu com o Bragantino e montou verdadeiros esquadrões em Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro e Santos. A grande decepção tinha acontecido no Flamengo, no projeto afundado no ano do centenário.

Na volta da Espanha, o sucesso de Luxemburgo murchou de maneira gigantesca. O técnico continuou ganhando títulos, mas sua influência foi limitada regionalmente (veja a  compilação feita pelo ótimo FutDados). Foram cinco taças estaduais e nada mais. Fez um trabalho estável no Santos, não foi além de um Paulistão com o Palmeiras, nunca convenceu no Atlético Mineiro, não teve controle sobre o bonde sem freio do Flamengo, fracassou na tentativa de fazer o estrelado elenco do Grêmio render. Agora, solução paliativa, deixa o Fluminense à beira do rebaixamento e uma bomba no colo de Dorival Júnior – que, coincidentemente, o substituirá pela terceira vez, depois de já sucedê-lo no Santos e no Atlético.

A sequência da trajetória de Luxemburgo é uma incógnita. A aura de um dos melhores técnicos da história do Brasil é praticamente nula, obscurecida pela imagem do comandante que não faz o time funcionar e que se sugere ultrapassado. Algum outro grande clube dará uma oportunidade ao carioca em breve? O aproveitamento recente não sugere. E, se alguém o fizer, talvez seja esperando que o ‘professor’ reencontre aquele fio da meada perdido em algum lugar do passado, que o leve novamente ao caminho dos grandes títulos.

Os piores desempenhos de Luxemburgo desde 2006

Um por um, o aproveitamento do técnico em todos os seus trabalhos desde a saída do Real

luxemburgo

1º – Fluminense 2013
26j 7v 9e 10d (38,5% de aproveitamento)

De longe, o pior desempenho de Luxemburgo. O casamento com o clube das Laranjeiras parecia que não daria certo desde o início. O treinador chegou após a conturbada saída de Abel Braga, com o Flu na zona de rebaixamento do Brasileirão após nove rodadas. Até trouxe uma esperança aos tricolores, engrenando no início do segundo turno, quando chegou à nona colocação. Contudo, as lesões se combinaram à queda de rendimento do time e o declínio foi constante. Eram nove rodadas consecutivas sem vitórias, sendo seis derrotas. O presidente Peter Siemsen ainda prometeu evitar a degola, mas a demissão veio diante do desespero de tentar a salvação no Brasileiro.

2º – Santos 2009
26j 9v 8e 9d (44,9%)

Em sua quarta passagem pela Vila Belmiro, Luxemburgo protagonizou seu pior rendimento com o Santos. Assumiu na 13ª rodada do Brasileirão, substituindo Vágner Mancini, mas não engrenou o time. Com Neymar e Paulo Henrique Ganso figurando apenas como promessas, o Peixe estacionou no meio da tabela e não foi além disso. Deixou os alvinegros no final do ano, junto com o presidente e amigo Marcelo Teixeira.

3º – Atlético Mineiro 2010
50j 21v 11e 18d (49,3%)

Luxemburgo até foi campeão Mineiro com o Atlético, só que nunca fez o time embalar de verdade. A campanha no Estadual esteve longe de causar suspiros, com o Galo terminando em terceiro na fase de classificação e se livrando de pegar o Cruzeiro nos mata-matas. Na Copa do Brasil, caiu para o Santos. E o desempenho no Brasileirão foi ainda mais fraco, com apenas seis vitórias em 24 rodadas, em aproveitamento de 29% dos pontos. Deixou o time na vice-lanterna, salvo graças à guinada proporcionada justamente por Dorival Júnior.

4º – Flamengo 2010/12
84j 38v 32e 14d (57,9%)

Os números brutos de Luxemburgo no Flamengo não parecem tão ruins. Todavia, a participação vitoriosa no Campeonato Carioca de 2011 ajuda a inchá-los. O professor assumiu na reta final do Brasileirão, contribuindo para que os rubro-negros se mantivessem afastados da zona de rebaixamento. No ano seguinte, com Ronaldinho e Thiago Neves à disposição, o Fla prometia muito. Caiu para o Ceará na Copa do Brasil e, mesmo próximo da liderança por várias rodadas na Série A, se satisfez com a conquista da vaga na pré-Libertadores. Em atrito com os astros do elenco, perdeu o emprego logo no início de 2012.

5º – Palmeiras 2008/09
111j 61v 25e 25d (62,5%)

O retorno de Luxemburgo ao Palmeiras provocava sensações distintas na torcida do Palmeiras. A memória pelos timaços dirigidos na época da Parmalat pesava, mas alguns também o acusavam de ter pulado fora do barco na campanha da queda para a Série B, em 2002. No fim das contas, seu desempenho se aproximou mais dessa última passagem. O time começou embalando no Paulistão de 2008, ficando com a taça, e conseguiu a classificação à Libertadores com o quarto lugar no Brasileirão. Todavia, o ano seguinte não foi tão bom. Os alviverdes caíram nas semifinais do estadual e nas quartas do continental. Luxa saiu após atrito com a diretoria, por discordar da negociação de Keirrison com o Barcelona.

6º – Grêmio 2012/13
100j 56v 21e 23d (63%)

Estava sentindo falta da campanha com o Grêmio? Pois as vitórias no Gauchão conseguem maquiar bastante os números e elevar o aproveitamento – quase um terço de seus triunfos aconteceu no torneio. Em pouco mais de um ano à frente dos tricolores, o treinador não levou título algum. Seu mérito foi chegar à terceira posição no Brasileiro de 2012, colocando o time na pré-Libertadores. O problema maior é que, mesmo com um elenco qualificado, os gremistas patinaram no torneio sul-americano. Durou até a pausa para a Copa das Confederações, sob as justificativas de que o time precisava se renovar e de alguém que combinasse com a filosofia.

7º – Santos 2006/07
143j 85v 26e 32d (65,5%)

O trabalho mais duradouro e mais bem feito de Luxemburgo desde 2006 aconteceu justamente em sua volta ao Brasil. O Santos não possuía mais um grande elenco, mas o técnico cumpriu bem seu papel na direção. Duas vezes campeão paulista, classificou o Peixe duas vezes à Libertadores, sendo até mesmo vice da Série A em 2007 – ainda que anos-luz atrás do São Paulo. Na competição continental, Luxa cumpriu outra vez sua sina de não brilhar, caindo nas semifinais, contra o Grêmio. Sua saída aconteceu apenas no final de 2007. Foi a única das vezes em que não saiu queimado, sem chegar a um acordo com a diretoria e optando por negociar a volta ao Palmeiras.