Quando o Leicester anunciou Claudio Ranieri como o seu novo técnico, era muito natural torcer o nariz. O italiano, apesar de um currículo com muitos clubes grandes, já era contestado antes mesmo de ser derrotado pelas Ilhas Faroe com a seleção grega, uma tragédia sem precedentes. Aos 64 anos, com um time pequeno da Premier League, quais as chances de se renovar para acompanhar um esporte que não para de evoluir, em uma liga tão difícil? De alguma maneira, deu certo. Muito certo. Ranieri tornou-se o herói improvável do título mais inesperado dos últimos tempos. O comandante do Leicester campeão inglês de 2015/16.

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Sua importância fora de campo rivaliza com a de Mahrez, Vardy, Schmeichel e Kanté dentro dele. Um elenco que está entre os mais baratos da liga mais rica do mundo precisa de um ótimo trabalho tático para ser competitivo. Saber usar muito bem as suas parcas peças. Ranieri montou um time muito sólido na defesa, disciplinado, com um contra-ataque de manual, que deixa a bola com o adversário e dá o bote na hora certa.

Ele soube, acima de tudo, manter o que funcionava mesmo quando perdeu o fator surpresa. Os times grandes passaram a respeitá-lo como um igual. Os pequenos passaram a responsabilidade para o Leicester. Fica muito mais difícil executar um jogo de contra-ataque e sem posse de bola contra um time recuado e contente com o zero no placar. O campeão correu muitos riscos. Venceu vários jogos na conta do chá, com gols de bola parada e lapsos de inspiração de Mahrez ou Vardy. Desde o final de fevereiro, foram cinco por 1 a 0, sempre correndo o risco de levar um gol de empate no fim que arruinaria tudo.

Só funcionou da maneira como funcionou porque os jogadores compraram a ideia e se doaram. Ranieri manteve os pés de todos no chão. Mesmo quando a campanha já era surpreendente, ele seguiu com o discurso de que o objetivo eram os 40 pontos para escapar do rebaixamento. Mesmo quando o troféu parecia bem encaminhado, pensou passo a passo: primeiro a Champions League, depois o título. Não permitiu que o sucesso subisse à cabeça do elenco, administrou a ansiedade e não houve a esperada derrocada na reta final. Nos últimos oito jogos, só não venceu o difícil West Ham e o gigante Manchester United. Está invicto desde fevereiro.

Acima de tudo, o bom humor, o riso fácil e a simpatia de Ranieri fizeram com que todos corressem aquele quilômetro extra por ele. Anedotas como confundir as datas do aniversário de Christian Fuchs e pagar pizza para todo mundo, piadas durante o treinamento, declarações sinceras e emotivas em entrevistas coletivas – como “dilly ding, dilly dong” –, tudo isso compôs um dos personagens mais carismáticos da temporada. E o bom ambiente foi muitas vezes citado pelos jogadores como um fator determinante. “O treinador é bem tranquilo. Nos treinamentos, ele se diverte o tempo inteiro”, disse o craque Mahrez. “Ele gosta de nos dizer: ‘sejam espertos, vocês são raposas’”.

O carinho dos comandados foi importante para controlas os egos e a insatisfação dos reservas de um elenco pouco utilizado. Ranieri quebrou o rótulo de rodar muito os jogadores que lhe era atribuído e manteve onze titulares rígidos durante a temporada. Da mesma maneira, convenceu os principais jogadores a ficarem para ver até onde o conto de fadas poderia ir. Durante a janela de transferências de janeiro, esperava-se que o assédio, principalmente por Vardy, Mahrez e Kanté, fosse gigantesco. Mas ninguém saiu.

Ranieri treina times de futebol desde a metade da década de oitenta. Esteve à frente de potências como Juventus, Internazionale e Roma. Trabalhou no Atlético de Madrid, no Napoli, na Fiorentina, no Monaco, no Valencia, no Chelsea, em que teve seus melhores resultados. Nunca havia sido campeão nacional de primeira divisão, e não pode nem reclamar que nunca teve boas chances para isso. Até com um pouco de injustiça, porque fez bons trabalhos, virou alvo de piadas e de críticas muito duras.

O problema é que mesmo com bons times nunca vencia. Em um milhão de anos, nem nos sonhos mais malucos que já teve, poderia imaginar que a oportunidade de redenção viria com o Leicester, em um torneio pouco propenso a surpresas como a Premier League. E quando ela apareceu, ele fez tudo para agarrá-la e nunca mais soltá-la.