Dez anos depois de deixar o Cruzeiro, Ramires está de volta ao futebol brasileiro. Nesta quinta-feira, o meia de duas Copas do Mundo pela seleção brasileira e campeão europeu pelo Chelsea assinou contrato de quatro anos com o Palmeiras, ampliando ainda mais as vastas opções que Luiz Felipe Scolari tem à disposição para montar o seu time.

Ramires tem experiência internacional e foi um meia incansável durante sua passagem pela Europa, atuando em várias posições. Pode ser segundo volante ou jogar ao lado de Bruno Henrique e Felipe Melo, com mais liberdade para chegar ao ataque, caso Felipão queira formar um trio no meio-campo.

Na formação habitual do Palmeiras, com uma linha de três armadores, ele também pode ser colocado pelo lado direito, como jogou algumas vezes pelo Chelsea, inclusive na campanha do título da Champions League. E, como Felipão roda bastante o elenco, encaixar um jogador dessa qualidade não é um problema.

Tecnicamente, a contratação é ótima. Mas o Palmeiras já tem muitos jogadores para essas posições, independente de onde ele atuar, e repatriar alguém da China sempre exige um alto esforço financeiro. Principalmente, porém, o problema é que Ramires atuou em apenas um jogo nos últimos 18 meses – 84 minutos na Copa da China, em maio do ano passado, quando deu uma assistência e sofreu um pênalti, no empate por 2 a 2 contra o Tianjin Quanjian.

Esse histórico aumenta o risco que o Palmeiras assumiu. Para valer a pena, o jogador de 32 anos precisa recuperar o ritmo de jogo, o que provavelmente será o foco da comissão técnica com ele durante a parada da Copa América. E nisso, a extensão do contrato vira uma faca de dois gumes: se, por um lado, quatro anos é o bastante para ele ficar afiado, por outro, se não ficar, torna-se um problema sério e caro. A questão física, até porque o jogo do meia sempre dependeu muito disso, é a incógnita que pode tornar Ramires um reforço bom ou ruim.

A passagem pela China

Ramires, do Jiangsu Suning (Foto: Getty Images)

Tudo começou bem para Ramires no Jiangsu Suning, clube pelo qual assinou, em 2016, após uma transferência de € 28 milhões do Chelsea. Atuou em 38 partidas e fez cinco gols. A temporada seguinte também foi normal, com 34 aparições e 12 tentos, embora os resultados coletivos tenham piorado – de segundo colocado no ano anterior, foi 12º em 2017.

Os problemas surgiram nos primeiros meses de 2018. Ramires começou a falar abertamente sobre retornar à Europa, primeiro à Internazionale, em janeiro, clube que também tem Zhang Jidong como dono. À época, o meia tinha moral com o treinador Fabio Capello. “Ele é um rapaz sério, que trabalha duro. Ele não é uma surpresa. É muito forte e muito importante para nós. Se ele continuar conosco na China, ficaremos muito felizes”, afirmou italiano, à Sky Sport da Itália.

Em março, às vésperas do começo da Superliga Chinesa, o papo era sobre um retorno ao Chelsea, pelo qual ele disse que “sempre teria um carinho especial”. Na mesma entrevista, afirmou que se recuperava de uma lesão que atrapalhou a sua pré-temporada. No final daquele mês, Capello foi demitido e substituído pelo romeno Cosmin Olaroiu, que tinha outras ideias. Ramires perdeu muito espaço e entrou em campo apenas uma vez no primeiro semestre, contra o Tianjin Quanjian, pela Copa da China.

Com a contratação de Éder, da Internazionale, Ramires não foi inscrito na Superliga para abrir vaga ao ítalo-brasileiro. Era o meio da janela de transferências do verão europeu. Um negócio com o Benfica ficou muito próximo de ser fechado, mas o Jiangsu exigiu que o meia renovasse o seu contrato, com validade até o fim de 2019, antes de voltar, emprestado, para Portugal.

Ramires recusou, a transferência para o Benfica melou, e quem conta como ficou o clima dele com o clube é o próprio Éder, em entrevista à Gazzetta dello Sport: “Um dia, Zhang (dono) foi ao treino da equipe por causa do caso do Ramires, que não se apresentou ao treino para sair para ao Benfica. Na altura, disse-nos: ‘quero apenas pessoas sérias aqui, que estejam envolvidas no nosso projeto. A partir de amanhã, se quiser treinar, Ramires que o faça na equipe B’”.

E foi isso que aconteceu até o fim daquela temporada do Jiangsu. O meio campo apenas com chineses segurou a barra para Olaroiu utilizar dois atacantes estrangeiros – Éder e Alex Teixeira – e Gabriel Paletta na zaga. Os problemas pareciam resolvidos no último mês de janeiro, quando Ramires afirmou ao UOL que tinha a intenção de cumprir o contrato até o fim. “Tivemos algumas divergências ano passado que acabaram fazendo com que eu não fosse inscrito para a disputa do Campeonato Chinês, mas todas essas questões já foram resolvidas”, disse.

Em fevereiro, Ramires foi reinscrito pelo Jiangsu Suning e havia a expectativa de que voltasse a atuar, mas Olaroiu continuou reservando as vagas de estrangeiros para Teixeira, Éder e Paletta, titulares em 13 dos 14 jogos deste ano. Em meados de maio, foi anunciado que seu contrato havia sido rescindido e ele estava, enfim, livre para acertar com outro clube.