Ivan Rakitic colocou um ponto final em sua história na seleção croata nesta segunda-feira. Aos 32 anos, o meio-campista preferiu se aposentar da equipe nacional, mesmo às portas de disputar a Eurocopa com seu país. O veterano totalizou 106 partidas e 15 gols pelo time principal da Croácia, presente em duas Copas do Mundo e três Euros – sempre como titular. E, ainda que ofuscado na mídia por Luka Modric, o camisa 7 precisa ser exaltado pelo bolão que jogou na Rússia em 2018, conduzindo os croatas à histórica decisão contra a França.

Até 2018, o grande momento de Rakitic com a seleção da Croácia havia acontecido na Euro 2008. E não com o desfecho mais feliz ao meio-campista. Aos 20 anos, o prodígio recém-transferido ao Schalke 04 ganhou a posição como titular durante a Eurocopa. Os croatas avançaram aos mata-matas com a primeira colocação, num grupo no qual também figuravam Alemanha, Áustria e Polônia. O novato, inclusive, deu o passe para Ivica Olic anotar o gol da vitória sobre os alemães. Mas, no insano duelo com a Turquia nas quartas de final, Rakitic desperdiçou sua cobrança na decisão por pênaltis – assim como Luka Modric e Mladen Petric.

A Croácia não se classificou à Copa de 2010. Parou na fase de grupos da Euro 2012 e também da Copa de 2014. Criou expectativas ao vencer a Espanha na Euro 2016, mas sucumbiu logo nas oitavas num duelo modorrento contra Portugal. Era uma seleção com bons nomes, mas que não fazia jus a esse talento à disposição, com campanhas modestas nas competições internacionais. Isso até a Copa de 2018, quando a dimensão desta geração croata se transformou. Rakitic seria um dos protagonistas.

Mal no Barcelona, Rakitic chegou à Rússia questionado. E daria sua resposta primeiramente na segunda rodada, um dos senhores da inesquecível vitória sobre a Argentina. O camisa 7 aproveitou a rotina de treinos ao lado de Lionel Messi para marcá-lo implacavelmente. Mais do que isso, alimentaria o poder de fogo da Croácia ao lado de Modric. Rakitic anotou o gol que fechou o triunfo por 3 a 0, além de quase ter assinado uma pintura de falta, em bola que caprichosamente bateu na forquilha. Era um belíssimo cartão de visitas.

E a longa campanha da Croácia na Copa de 2018 dependeu diretamente de Rakitic. O meio-campista não contribuiu com mais gols ou assistências. Ainda assim, sua regularidade foi até maior que a de Modric na reta final da competição. O camisa 7 atuou um pouco mais recuado, servindo de termômetro para organizar o jogo croata e ditar o ritmo da equipe. Cumpriu seu papel brilhantemente, sempre chamando a responsabilidade para si e coordenando as ações. Não à toa, fechou as vitórias sobre Dinamarca e Rússia nos pênaltis, deixando para trás 2008.

A confiança levou Rakitic a se soltar ainda mais nas duas últimas partidas. Contra a Inglaterra, o meio-campista se aproximava do ataque, se tornando o principal parceiro de Ivan Perisic e Mario Mandzukic na classificação. Era o camisa 7 quem alimentava os atacantes com seus passes açucarados. Por fim, a final em Luzhniki não guardou o resultado sonhado pelos croatas. A boa atuação do time no início da partida, mais uma vez, dependeu diretamente de Rakitic. Dominava o meio-campo, trazendo dificuldades a N’Golo Kanté que o volante ainda não havia sofrido naquele Mundial. O camisa 7 parecia antever os lances, muito inteligente na movimentação e servindo de norte aos companheiros. Mas a sorte não estaria ao seu lado naquela noite.

A Euro 2020 (em 2021) será a chance de ver a Croácia novamente em ação depois do sucesso na Copa. A equipe perde um tanto de seu brilho sem Rakitic, num time que também sentirá falta de Mario Mandzukic, outro a ter se aposentado dos compromissos internacionais. Caberá a Luka Modric e Ivan Perisic carregarem um fardo maior sobre os ombros, depois de tudo o que ocorreu em 2018. Após sair em baixa do Barcelona, Rakitic prefere se dedicar a partir de agora apenas ao Sevilla, clube ao qual volta com status de ídolo depois de seis anos longe. Perde a seleção croata, sem um craque que poderia fazer a diferença por seu talento, independentemente da fase ou da idade.

“Dizer adeus à seleção croata é a decisão mais difícil em minha carreira, mas eu senti que era o momento quando precisei fazer essa escolha. Curti cada jogo que eu disputei por minha nação e os momentos inesquecíveis da Copa do Mundo permanecerão entre meus favoritos. Estou convencido de que nós ainda temos um grande time, com um futuro brilhante pela frente. Desejo aos meus amigos e companheiros toda a sorte do mundo nos próximos desafios, e eu serei o maior torcedor”, declarou Rakitic. Está na história da Croácia.