Raffael já tem 30 anos, marcou 55 gols na Bundesliga e é um dos principais jogadores do time que foi terceiro colocado na temporada passada de uma das maiores ligas do mundo, mas ninguém o conhece direito no Brasil. Em 2003, saiu do paulista Juventus muito jovem para desenvolver a sua carreira na Europa. O sucesso no futebol suíço o levou à Alemanha, onde defendeu o Hertha Berlim durante quatro anos e meio. Após rápidas passagens pelo Dínamo Kiev e Schalke 04, o técnico Lucien Favre carregou a qualidade do meia-atacante para o Borussia Monchengladbach.

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A primeira temporada pelo Gladbach foi a sua mais artilheira. Marcou 15 gols em 34 partidas da Bundesliga e ajudou o time a alcançar o sexto lugar e uma vaga na Liga Europa. Na seguinte, foi um pouco pior individualmente, com apenas 12 tentos no Alemão e mais dois na competição europeia, mas foi terceiro colocado e chegou à Liga dos Campeões. Nesta quarta-feira, enfrenta a Juventus, finalista da última edição da Champions, em Turim. Uma experiência nova para ele e seus companheiros.

No último sábado, Raffael marcou duas vezes na goleada sobre o Eintracht Frankfurt por 5 a 1. Alguns jogos antes, deu três assistências no 4 a 2 contra o Augsburg. A fase continua boa, e ela já motivou elogios de Lotthar Mathäus, que chegou a comentar que ele deveria ser considerado para a seleção brasileira. A imprensa alemã foi mais longe e cogitou a sua presença no time campeão mundial de Joachim Löw.

O brasileiro tem essas aspirações, embora não tenha recebido nenhum contato da federação alemã e admita que a concorrência na equipe de Dunga é muito forte. Diante dessas opções, disse que faria igual Rafinha, que pediu dispensa da seleção brasileira pela possibilidade de defender a Alemanha. “Eu acho que faria o mesmo. Porque eu nunca fui convocado para a seleção brasileira. Não seria tão grave do que o caso dele, que já havia sido convocado”, afirma, em entrevista à Trivela. “Estou aqui na Alemanha há muito tempo, eu conheço a maioria dos jogadores, jogo contra eles. Tenho um contato aqui. E talvez fosse uma vantagem para mim”.

Veja a entrevista completa do meia-atacante brasileiro Raffael:

O Borussia Monchengladbach estava bem ano passado, foi terceiro colocado, mas começou a temporada de uma maneira muito diferente (cinco derrotas seguidas). O que aconteceu?

Foi complicada a ausência de dois jogadores importantes (Kramer e Max Kruse). Os que chegaram precisavam se adaptar. Demorou um pouco. Tivemos muitos jogadores machucados no começo da temporada e isso também dificulta a nossa equipe, que vinha apresentando um bom futebol.

E por que melhorou tanto quando a diretoria trocou os treinadores (vem de quatro vitórias nas últimas rodadas)?

Por incrível que pareça, quando ele saiu, o time melhorou. Algumas trocas vêm para o bem.

Você trabalhou com o Lucien Favre no Hertha, e agora no Gladbach. Foi uma parceria marcante na sua carreira?

Gostava dele, sim. Ele foi inclusive o responsável por me trazer para o Gladbach.

O Gladbach conseguiu uma sequência boa nas últimas rodadas e já está no meio da tabela. Qual o objetivo no campeonato?

Não temos objetivo fixo. Esperamos continuar nessa melhora, jogo a jogo. Tentar pontuar e, quando chegarmos nas últimas rodadas, vamos ver nossas possibilidades, aonde podemos chegar, tentar alguma classificação (para competições europeias).

Como que é disputar um campeonato que começa com todo mundo já sabendo quem provavelmente será campeão?

É chato. Está meio sem graça. Estamos na nona rodada e eles já abriram sete pontos de diferença (para o segundo colocado). Para mim, será muito difícil tirar esse título do Bayern.

O que precisa ser feito para o Campeonato Alemão ter mais equilíbrio?

A Alemanha teria que ter duas ou três equipes como o Bayern de Munique. É difícil ter um clube que se comapre a ele, que é muito forte e tem muita tradição.

Vendo de dentro do futebol alemão, o que separa o Bayern de Munique dos outros clubes?

A estrutura é quase parecida. Eu já joguei em dois clubes da Alemanha (três, na verdade, passou rapidamente pelo Schalke 04) e sei que são quase iguais. Acho que a diferença maior está na parte financeira.

Como que está sendo dividir as atenções com a Champions, uma novidade para esse time do Gladbach?

Está sendo espetacular. Estamos aproveitando bastante esse momento único do clube. Muitos jogadores ainda não tiveram a oportunidade de jogar e estar ali no campeonato que tem as melhores equipes do mundo.

Você chegou a jogar, e foi até campeão, na segunda divisão da Bundesliga, que tem uma média de público maior que a de muitos campeonatos mais importantes, como o Brasileiro, por exemplo. Por quê?

Acho que é a organização que eles têm aqui. Eu sempre bato na mesma tecla: em organização, os alemães são os melhores. E tem também o amor, o respeito que o torcedor tem pelo clube. Quando teve um jogo da segunda divisão em Berlim, contra uma equipe que estava na parte debaixo da tabela, colocamos mais de 70 mil pessoas no estádio. É uma coisa histórica.

Pela sua experiência, quem ama mais futebol: o brasileiro ou o alemão?

Acho difícil dizer, mas vemos o respeito que as pessoas têm pelo jogador, o quanto o torcedor é mesmo apaixonado. Acho que nesses termos, os alemães estão um pouco à frente dos brasileiros.

Ano passado, o Lotthar Matthaus chegou a dizer que você deveria ser convocado à seleção brasileira. Concorda com ele?

Fiquei muito feliz pelo elogio dele. O jogador tem que merecer a seleção. Pelo mérito, pelo que venho fazendo nos últimos anos na Alemanha, acho que já merecia uma chance.

Acha que não ter tido uma carreira de destaque no Brasil atrapalha?

Acho que é isso. São vários fatores. Não sou conhecido no Brasil. Cheguei à Europa muito novo. E também tem a concorrência, que é muito grande. Acho que a seleção brasileira é a mais difícil de jogar. Tem muita gente que fala isso.

Com quem você acha que concorre entre os jogadores que vêm sendo convocados pelo Dunga?

Eu não vi a maneira como a seleção está jogando. Até porque, não tem como acompanhar aqui. Os jogos são muito tarde. Não tenho noção de onde eu poderia me encaixar.

Falou-se também que você poderia jogar pela Alemanha. Você já tem a naturalização, houve algum contato?

Acho que isso foi mais na imprensa. Foi uma coisa criada entre eles, pois estou me destacando no país. Isso criou uma expectativa, mas, para mim, ainda não chegou nada. Não fui procurado.

O Rafinha abriu mão da seleção brasileira pela possibilidade de defender a Alemanha. Se você fosse chamado, faria a mesma coisa?

Se tivesse essa possibilidade, eu acho que faria o mesmo. Porque eu nunca fui convocado para a seleção brasileira. Não seria tão grave do que o caso dele, que já havia sido convocado.

Por quê tomaria essa decisão?

Eu acho que faria o mesmo que o Rafinha, porque eu não joguei na seleção brasileira, e (a Alemanha) é o pais aonde eu jogo, se o treinador contasse comigo. Mas eu acho que é melhor não responder essa segunda pergunta (sobre o motivo). Estou aqui na Alemanha há muito tempo, eu conheço a maioria dos jogadores, jogo contra eles. Tenho um contato aqui. E talvez fosse uma vantagem para mim.

Nesse tempo em que esteve na Europa, recebeu quantas propostas para voltar ao Brasil? Por que não aceitou?

Não chegou nenhuma proposta para mim. Teve algumas especulações apenas.

Pensa em aceitar um dia?

Acho que se for no momento certo, e eu achar que posso voltar para o Brasil, eu poderia aceitar. Tenho contrato com meu clube e no momento seria impossível.

Qual clube brasileiro você sonha em defender?

De preferência, o time que eu torço. Eu gosto do São Paulo e gosto do Ceará. Mas acho que hoje no Brasil, não teria preferência de jogar em nenhum clube.  Seria interessante se fosse uma equipe forte, de massa.