Por Gabriela Chabatura, em Montevidéu

“A dor vai sempre existir, mas o sofrimento é opcional. Às vezes, nos agarramos ao sofrimento e não seguimos em frente. Porque a vida, em um milésimo de segundo, muda ou termina”. É assim que Rafael Henzel, sobrevivente do trágico acidente aéreo que envolveu a delegação da Chapecoense em novembro do ano passado, começa uma palestra para convidados e jornalistas no prédio da Intendência, em Montevidéu. O bate-papo, denominado “Superação: minha segunda vida”, é um relato emocionado dos dias angustiantes que viveu na Colômbia e a chance de recomeçar.

LEIA TAMBÉM: Bairro onde nasceu Peñarol tem outro Peñarol. E não é de futebol

A partida contra o Nacional, nesta quinta-feira, na Copa Libertadores, será a primeira transmissão internacional de Henzel após 150 dias da queda do avião da Lamia em Medellín. Depois da capital uruguaia, no dia 10 de maio, ele retornará ao palco do acidente para a segunda final da Chape contra o Atlético Nacional, na Recopa, e continuará a expedição para os trabalhos na rádio e discursos de força e recuperação.

Na visita a Montevidéu, foi a segunda vez em que Henzel palestrou sobre o episódio – embora receba convites para muitas outras. Em uma das gigantes salas de cerimônias do prédio municipal, o jornalista falou para cerca de 100 pessoas por quase 1h30, ao som da trilha sonora de “We are the champions”, da banda Queen. Concedeu entrevistas, tirou fotos, relembrou de todo o pesadelo e, por fim, se emocionou.

Agora, ele é uma espécie de celebridade. As pessoas querem tocá-lo, fazer perguntas, saber detalhes. É como fosse um milagre, o qual todos querem ver e comprovar a sua veracidade. Uma exposição enorme a um jornalista ou radialista, como ele é, que até então só estava acostumado a vivenciar somente o outro lado do microfone. O lado do entrevistador, de informar, de relatar. É naturalmente estranho. Mas o Rafael não parece ter problema com isso.

Além da palestra, participou de um longo programa esportivo, da Fox Sports do Uruguai. Ao vivo na emissora local, reafirmou diversas vezes que não “teve medo de morrer” quando tudo aconteceu naquele 29 de novembro. Foi homenageado pelos jornalistas uruguaios e, no jogo entre Peñarol x Palmeiras, acabou presenteado com uma camisa do clube carbonero.

“Não é fácil para mim falar sobre isso. Mas só um milagre para me deixar vivo a 0ºC com sete costelas quebradas. Quando eu acordei, não havia mais aeronave. Eu desmaiei e, depois de cinco horas, um policial me acordou em Medellín. Quero conhecê-lo e dizer ‘obrigado’”, afirma Henzel.

No Gran Parque, Rafael deve receber mais homenagens dos torcedores locais e também da direção do Nacional.  Midiático ou não, fato é que o jornalista da pequena cidade de Chapecó não é e nunca será mais será o mesmo.

LEIA TAMBÉM: Fanático pelo Palmeiras, Arnaldo Torres é quem organiza torcida que pinta Montevidéu de verde