A estátua de Bobby Robson nos arredores de St. James Park recebeu a companhia de dezenas de torcedores do Newcastle portando cachecóis de Rafa Benítez e cartazes contra o dono Mike Ashley. A intenção era deixar clara a posição das arquibancadas sobre o comunicado emitido nesta segunda-feira: Benítez não renovará seu contrato com os Magpies. Foi até certo ponto uma manifestação desnecessária porque os fãs têm uma longa e notória relação de ódio com o proprietário do clube, e Ashley nunca deu a mínima para o que eles pensam, como ficou mais uma vez provado.

Há meses ocorrem negociações para renovar o contrato de Benítez, que termina em 30 de junho. O colapso das conversas foi anunciado em um comunicado do Newcastle, em meio a especulações de que o espanhol teria uma proposta milionária da China em cima da mesa, e interesse do Chelsea para que ele, mais uma vez, assuma a bronca em Stamford Bridge, como em 2012/13, quando foi interino por quase uma temporada inteira após a demissão de Di Matteo. Atualmente, os Blues estão sem treinador, sem Eden Hazard e com uma proibição de fazer contratações pairando sobre suas cabeças.

“É com decepção que anunciamos que o treinador Rafa Benítez deixará o Newcastle ao fim do seu contrato, em 30 de junho de 2019. Trabalhamos duro para estender o vínculo de Rafa, no decorrer de um longo período, mas não foi – e não será – possível chegar a um acordo com Rafa e seus representantes. Queremos agradecê-lo pelos seus esforços nos últimos três anos e sua importante contribuição para o que alcançamos coletivamente. Também queremos agradecer a torcedores, jogadores e funcionários pela paciência durante um período de incerteza. O processo de escolher um sucessor começará agora”, escreveu o clube.

Rumores de outros interessados são normais em uma negociação. Frequentemente, são vazados pela própria equipe do treinador para aumentar o poder de barganha. Segundo o Evening Chronicle, dinheiro não foi um problema – ele ganhava £ 6 milhões por ano -, mas a falta de ambição demonstrada pelo clube. Mais de uma vez, Benítez cobrou em público que o clube abrisse a carteira para melhorar o time e investir em infraestrutura, especialmente nas categorias de base.

As conversas não avançaram basicamente porque não houve sinal de que Ashley estaria inclinado a fazer isso, em um momento no qual ele busca interessados para comprar o Newcastle. Ainda assim, segundo um jornalista da Sky Sports, Benítez foi pego de surpresa pelo comunicado e ainda tinha como prioridade permanecer no St. James Park.

Benítez chegou ao Newcastle em março de 2016, meses depois de ser demitido do Real Madrid, a um ponto de sair da zona de rebaixamento, com dez rodadas pela frente. Não conseguiu evitar a queda e, para a surpresa de todos, permaneceu para a disputa da Championship. Subiu como campeão e conduziu duas dignas temporadas na Premier League, em 10º e 13º lugar, sem sérias ameaças, apesar de gastar muito menos no mercado do que a maioria da tabela.

No entanto, o ambicioso treinador que já foi campeão europeu e treinou equipes como Valencia, Liverpool, Napoli, Internazionale, Chelsea e Real Madrid não queria passar o resto da carreira fazendo campanhas dignas que terminavam no meio da tabela. Queria sinais da diretoria de que ela compartilhava sua ambição de estabelecer o Newcastle entre os oito melhores clubes da Inglaterra e eventualmente brigar por vagas em competições europeias.

Para fazer isso, era necessário, primeiro, mais dinheiro. O Newcastle trabalha com um orçamento de £ 50 milhões a £ 60 milhões por temporada, o que, no mercado atual, dá para comprar mais ou menos uns dois jogadores médios. Apenas no último mês de janeiro o clube bateu seu recorde de transferências, que datava de 2005 quando Michael Owen chegou do Real Madrid, ao contratar Miguel Almirón, do Atlanta United – isso desconsiderando a inflação, o que apenas ressalta o quanto o Newcastle parou no tempo.

E, além de dinheiro, uma nova abordagem no mercado de transferências. Ashley insistia em não contratar jogadores acima de 25 anos. Queria ativos que pudessem render lucro na revenda, enquanto Benítez aspirava uma mistura entre juventude e experiência, essencial em qualquer time bem-sucedido. O caso de Salomón Rondón foi ilustrativo. O atacante de 29 anos foi emprestado pelo West Brom e desempenhou um papel importante na campanha do Newcastle. Benítez queria a contratação em definitivo. Ashley, não.

Não foi à toa que Benítez rapidamente se tornou ídolo para a torcida do Newcastle. Ele representava esperança para uma massa de fãs apaixonados e castigados pela mediocridade inexorável da era Mike Ashley. Ex-treinador de clubes como Liverpool e Napoli, ele soube exercer a responsabilidade de guardião de uma relação particular entre a torcida e seu time, expressando a ambição de atingir o potencial de um clube como o Newcastle.

Uma das faixas na estátua de Bobby Robson dizia: “19º clube mais rico do mundo. Para onde foi o dinheiro?”. Referência ao relatório Football Money League da Deloitte que colocou o Newcastle nessa posição na temporada 2017/18, com faturamento de € 201,5 milhões. À sua frente na Inglaterra, apenas Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Arsenal, Tottenham e Everton. No entanto, nas duas temporadas de Benítez no St. James Park, o clube foi apenas o 17º da Premier League que mais gastou com reforços, entre os 23 clubes que disputaram as duas edições: € 104,5 milhões. Menos do que o Fulham desembolsou em uma única passagem pela elite que terminou em rebaixamento.

Esses números levam torcedores e analistas a concluírem que Benítez colocou o Newcastle além de suas capacidades nos últimos dois anos, ganhando alguns jogos grandes, dificultando outros, e com poucos riscos de rebaixamento. Naturalmente, os torcedores estão tristes com a saída daquele que foi o maior e melhor treinador que o clube teve em muito tempo – e que provavelmente terá no futuro próximo. As casas de aposta colocam como favoritos Mikel Arteta, auxiliar do Manchester City, e Garry Monk, ex-Birmingham, Middlesbrough e Leeds.

Mourinho é outro citado. De personalidade tão ou mais forte quanto a do espanhol, porém, dificilmente conseguiria se relacionar com Ashley por mais do que dois ou três dias, além de custar bem caro. É meramente um sonho distante do Newcastle, assim como a possibilidade de se estabelecer entre os melhores clubes da Inglaterra que voou pela janela junto com Rafa Benítez. O futuro segue sendo incerto para o Newcastle, cujos torcedores não veem a hora de Ashley finalmente deixar outra pessoa comandar o clube.