Depois de três anos em que, na maior parte do tempo, tirou leite de pedra, Rafa Benítez não está mais no Newcastle. No fim de junho, o clube anunciou que não renovaria seu vínculo. Há uma semana, o espanhol trabalha como novo técnico do Dalian Yifang – e garante que nos sete primeiros dias de novo emprego teve mais conversas com a diretoria chinesa do que em três anos no clube inglês.

A revelação foi feita por Benítez em um post de blog de seu site oficial, nesta quarta-feira (10). Nele, o treinador oferece um insight bem interessante sobre sua primeira semana no clube chinês, numerando as diferenças que encontrou na nova casa. Dá até para dizer que o maior choque cultural foi ter um canal de comunicação eficaz com o clube para o qual trabalha.

“Devo dizer que tive mais reuniões com o presidente e o diretor geral nesta semana do que tive em três anos no Newcastle. Não foram apenas reuniões de trabalho, mas, sim, sinais de respeito, em que pudemos apreciar as diferenças e semelhanças em nossas culturas.”

Exceto pela fala acima, Benítez não diz isso diretamente, mas a cada linha de elogio aos novos empregadores é possível enxergar uma crítica ao que faltava no Newcastle. O técnico exaltou a gentileza e o respeito mostrados pelos chineses: “Nossos anfitriões nos trataram com muita consideração e estão sempre dispostos a nos fazer felizes”. História bem diferente da vivida no Newcastle, em que o atrito entre técnico e dono, o empresário Mike Ashley, sempre ficou claro, especialmente no quesito contratações.

Repetidas vezes, Benítez cobrou em público que o Newcastle abrisse a carteira para que ele melhorasse a equipe e investisse em infraestrutura, com foco especial sobre as categorias de base. Ashley nunca acenou que faria isso. Com orçamento baixíssimo para os padrões atuais – entre £ 50 milhões e £ 60 milhões por temporada –, o clube demorou quase 14 anos inteiros para quebrar seu próprio recorde de contratação, ao assinar em janeiro deste ano com Miguel Almirón, venezuelano ex-Atlanta United cujo valor (£ 20 milhões) superou a cifra de £ 16 milhões paga por Michael Owen em 2005.

Além da cutucada explícita ao antigo empregador, Rafa Benítez trouxe um lado bastante interessante de sua primeira semana em Dalian. Mostrou-se encantando com a infraestrutura da cidade, cuja população é de 6,6 milhões de pessoas, e sublinhou seu maior desafio neste início de trabalho: ser entendido por seus comandados.

“Quando você vai jogar no exterior com seu time, você tem tradutores com você, mas, é claro, se dirige à sua equipe diretamente – ou você fala a língua deles ou eles entendem a sua. Obviamente, esse não é o caso aqui. A maioria dos jogadores e as pessoas em torno de você não entendem nada do que você diz e vice-versa, então você precisa de um tradutor do seu lado o tempo todo, mesmo para transmitir uma mínima correção no treino. E não só eu, mas também todos os meus auxiliares precisam de tradutores. Então, por vezes, como brinquei com meus amigos da imprensa em Newcastle, pode parecer uma cena dos Irmãos Marx, com tanta gente em volta.”

A sintonia entre treinador e tradutor precisa estar afiada, mas às vezes o espanhol tem mesmo é que se virar sozinho. “Se você grita, ele tem que gritar também, e você tem que confiar que ele está transmitindo o que você quer. Pelo menos com os jogadores estrangeiros podemos falar em inglês, espanhol ou, no caso do Marek (Hamsik), italiano, ainda que ele já saiba o que é preciso, vindo de nosso tempo juntos no Napoli. Mas o tradutor não pode estar do seu lado o tempo todo durante a partida, já que o quarto árbitro o manda se sentar. Então me pego sozinho, gesticulando para tentar transmitir os ajustes que quero dos jogadores. Como disse, isso não é parecido com nada das minhas experiências anteriores.”

Diante disso, o conselho que mais ouviu das pessoas com quem conversou e que haviam trabalhado na China não poderia ser outro: “Não é que você deva contratar um bom atacante, mas, sim, um ótimo tradutor”.

Se Mike Ashley fosse chinês, provavelmente pediria um relatório detalhado sobre a necessidade de um tradutor.