A Federação Italiana de Futebol (FIGC) aprovou nesta semana novas regras para lidar com seu recorrente problema de racismo nos estádios. O órgão criou incentivos para que os clubes ajudem nas investigações de incidentes de racismo nas arquibancadas. Por mais que enfim estejamos diante de alguma movimentação, as diretrizes são tão brandas que mais parecem uma tentativa de aplacar os ânimos depois dos repetidos episódios de discriminação neste início de temporada. No entanto, Gabriele Gravina, presidente da FIGC, classificou o momento como um “ponto de virada”.

Segundo a agência de notícias Associated Press, as novidades são uma resposta a uma investigação policial recente sobre ultras da Juventus. A apuração descobriu que membros da torcida também participantes da organização mafiosa ‘Ndrangheta, a principal máfia italiana, estariam chantageando o clube, pedindo carga maior de ingressos para poder revender, sob o risco de entoarem cantos racistas no estádio, o que resultaria potencialmente no fechamento de arquibancadas e perdas financeiras à Velha Senhora, por consequência.

Anteriormente, os clubes estavam simplesmente sujeitos a punições de fechamento parcial de arquibancadas em seus estádios por causa de episódios de racismo – embora a aplicação disso fosse bem falha. Agora, a federação possibilita aos clubes evitar qualquer punição, contanto que entreguem a identidade dos torcedores racistas – ou ao menos demonstrem ter feito o possível para ajudar na investigação. Gravina afirmou que, “se um clube agora adotar e aplicar plenamente o nosso modelo, ele não tem mais nada a temer”.

As novas medidas da FIGC para que os clubes possam evitar punições por episódios de racismo exigem que eles enviem relatórios previamente às autoridades sobre partidas com alto risco de incidentes racistas; estabeleçam e apliquem um código de ética, que adotem um sistema de punição e criem um observatório independente para analisar o próprio trabalho feito por eles, clubes, de monitoramento e punição aos racistas.

Episódios de racismo contra Romelu Lukaku e Franck Kessié, entre outros, colocaram os holofotes na Serie A durante as últimas semanas, com diversos jogadores, ex-jogadores, clubes e até políticos se pronunciando e pedindo combate mais forte à discriminação. Na premiação The Best, da Fifa, o presidente da entidade, o italiano Gianni Infantino, reforçou o coro para que a Itália resolva seu grave problema de racismo nas arquibancadas.

Damiano Tommasi, presidente da associação de jogadores italianos, apontou o dedo para os dirigentes do país, dizendo que eles “não veem o problema todos da mesma maneira”, enquanto o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, elogiou a punição da Roma a um torcedor seu que enviou mensagens racistas ao brasileiro Juan Jesus.

A Serie A diz estar trabalhando em um projeto contra a discriminação no futebol, que contaria com representantes de todos os clubes e envolveria ainda a polícia e um parceiro estrangeiro, mas não há detalhes sobre a ação. Por sua parte, o Milan anunciou há duas semanas a criação de uma força-tarefa antirracismo, com atividades de conscientização, monitoramento e punição por comportamentos racistas.

Tudo proposto até agora ainda soa vago e pouco eficaz, e as mudanças anunciadas agora pela FIGC parecem brandas demais. Ainda assim, é um passo à frente para uma cultura de futebol mais do que acostumada a fazer vista grossa aos seus problemas de racismo.