Um nome muito falado quando entramos nos períodos de transferência é o de Jean-Marc Bosman, ex-jogador belga que se tornou símbolo de uma decisão que beneficiaria todos os jogadores que vieram depois. Apesar de muitos esquecerem o belga – ou sequer conhecerem –, um jogador teve um gesto de empatia com este jogador marcante: Adrien Rabiot.

Bosman protagonizou uma batalha de longa duração contra o Clube Liège ainda nos anos 1990. Embora ele não fizesse parte dos planos do clube, ele não recebia autorização para se transferir. O clube pedia alto para liberá-lo, o que dificultava a sua saída. O Club Liège pedia € 375 mil pela sua transferência, uma quantia que afastava interessados na época.

No julgamento, Bosman alegou liberdade de movimentação dos jogadores europeus, algo que a legislação trabalhista europeia previa para todos os trabalhadores. Foi esta decisão que derrubou o que no Brasil chamamos de “Lei do passe”, que prendiam os jogadores ao clube mesmo que estivessem sem contrato. Com a decisão a favor de Bosman, qualquer jogador passou a ter o direito de deixar o clube quando seu contrato acabasse. A decisão europeia mudou a percepção no mundo todo, que passou a aplicar as leis trabalhistas no futebol. No Brasil, essa regulamentação também mudou e colocou fim à antiga Lei do Passe.

Adrien Rabiot se beneficiou desta lei ao deixar o Paris Saint-Germain ao final do seu contrato e se transferir para a Juventus no início desta temporada. Aos 24 anos, o meio-campista, formado pelo PSG, era pouco aproveitado na capital francesa e decidiu sair. Em Turim, por enquanto, ele é apenas um reserva – jogou só 12 partidas e 711 minutos, uma média de pouco menos de 60 minutos por partida.

Pouco antes de efetivar a sua transferência para a Juventus, a família Rabiot surpreendeu Bosman. “Um dia, eu recebi uma ligação de uma moça que eu não conhecia. Ela pediu pelo número da minha conta. O seu filho tinha acabado de assinar um bom contrato profissional com o PSG e ela pensou que isso era mérito meu também, então ela queria me pagar uma soma. Eu não acreditei de primeira. O nome dela era Veronique Rebiot, era mãe e agente de Adrien Rabiot. Eles estão depositaram  € 10 mil na minha conta e vieram me visitar aqui”, contou Bosman, segundo relata o Voetbal International.

“O contrato de Rabiot acabou no ano passado. Quando ele disse ao PSG que ele não queria assinar [uma renovação], eles o removeram do time e o fizeram seguir um programa de treinamento separado por sete meses, de manhã e à noite. Mas ele continuou com a sua posição. E agora ele joga pela Juventus, que o contratou de graça e paga a ele € 7 milhões por ano”.

Bosman atualmente tem 55 anos e encerrou a carreira em 1995. Ele começou a carreira em 1983, pelo Standard Liège. Jogou pelo Club Liège de 1988 a 1990. Era um jogador promissor, que teve convocações para a seleção belga sub-21, chegando até mesmo a capitanear o time de base. Aos 25 anos, tentou se transferir para o clube francês Dunkerque, em 1990. O Club Liège pediu uma quantia de mais de € 600 mil e queria pagamento adiantado. Os franceses se recusaram e o Liège não aceitou a transferência. Pior ainda: reduziu o salário de Bosman em 75%.

Com isso, Bosman foi à justiça por considerar que a medida infringia o tratado de Roma, de 1957, que legislava sobre a situação trabalhista dos europeus, já na época com o tratado de União Europeia. Com a ação na justiça, o clube suspendeu Bosman. Durante o julgamento, Bosman recebeu autorização para jogar pelo Olympique Saint-Quentin, mas pouco jogou pelo clube.

A batalha legal durou até 1995, quando ele venceu a disputa judicial. Ele, porém, perdeu praticamente cinco anos da sua carreira. Ficou com enormes dívidas para pagar pela batalha legal e faliu. Sem conseguir clube depois disso, o jogador entrou em depressão e teve problemas com alcoolismo. Ele recebe ajuda da FIFPro, o sindicato mundial de jogadores. A lei ganhou o apelido de “Lei Bosman“.

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