O técnico Quique Setién foi contratado pelo Barcelona em janeiro como substituto do criticado Ernesto Valverde. Supostamente, Valverde era um treinador que não agradava pelo seu estilo de jogo, ainda que tenha conquistado o título Espanhol na temporada anterior. Setién é um técnico sem estofo em grandes clubes, mas tinha um trabalho completamente autoral para apresentar, que tinha muito a ver com o estilo de jogo do Barcelona, baseado em posse de bola e paciência.

Só que passados poucos meses – são seis, mas a pandemia parou a temporada por três -, o técnico já parece estar com os dias contados. É evidente o problema que há com os jogadores e a cena do seu assistente, Eder Sarabia, tentando passar instruções a Lionel Messi e o argentino caminhava na direção oposta, parecendo não estar dando qualquer atenção, foi emblemática. É só um dos sinais que têm aparecido de um desgaste entre os jogadores e o técnico.

Sarabia é alguém que desagrada há algum tempo por seu modo explosivo. Ele dá pitos públicos nos jogadores, como já vimos transparecer em alguns jogos. É compreensível que os jogadores não gostem de reclamações públicas assim. Só que o problema vai bem além disso. E embora Sarabia tenha um método de choque que por vezes incomoda, outros, com estilo mais ameno, também tiveram dificuldades.

É verdade que o trabalho de Setién tem problemas. O time tem sofrido para render na maioria dos jogos e continua muito dependente de Messi para resolver as partidas. Embora com outro estilo de jogo, o problema era similar com Valverde. Além disso, há uma clara cisão no vestiário em relação ao treinador. Este, porém, é um ponto que parece independer de quem ocupa o cargo.

Depois do jogo contra o Celta, que o Barcelona empatou por 2 a 2, Luís Suárez declarou: “Para isso que servem os técnicos. Nós damos tudo dentro de campo”. O Barcelona só conquistou 23 dos 48 pontos possíveis como visitante e ficou a dois pontos do líder Real Madrid. Uma liderança que foi conquistada depois do retorno do Campeonato Espanhol. Foi mais um elemento que mostra a separação no vestiário entre os jogadores e o treinador.

No Esporte Interativo, Marcelo Bechler relatou conversas com pessoas que falaram sobre a situação. “O vestiário não está com Setién”. “A entrevista de hoje [sábado] foi um problema a mais”. “Há um grande problema com a comissão técnica”. “Os jogadores não gostaram de como ele tratou Arthur nesta sexta”.

O técnico para tentar estabelecer uma normalidade quando perguntado sobre isso. “Eu também não era um jogador fácil. São questões pontuais que não dou importância. Cada um tem a sua maneira de ver as coisas e é normal que haja diferenças”, respondeu Setién na coletiva após o jogo contra o Celta. “Temos que convencer todos que é necessário defender uma ideia única, ceder e sacrificar uma parte de nós mesmos para o bem do grupo”.

Setién também se defendeu quando perguntado sobre a sua relação com o grupo. “De forma alguma me sinto menos forte que no início e assim seguirei até o último dia. A relação que temos é boa”, explicou o treinador. A última frase parece quase um mantra que o treinador repete a si mesmo para tentar acreditar. E nos fazer acreditar também.

Segundo o Goal, Setién desagrada o vestiário por vários aspectos. Alguns jogadores não entendem suas instruções, outros não entendem seu método e a maioria do grupo não gosta das suas declarações nas coletivas de imprensa. Alguns jogadores também se incomodam com a sua forma de trabalhar no treino, que para tudo para ficar corrigindo os jogadores individualmente nos fundamentos.

Se a situação no vestiário é ruim, na diretoria Setién ainda pior. Ernesto Valverde deixou o clube mais por estilo do que por resultados, embora as duas eliminações na Champions League, perdendo uma vantagem enorme do jogo de ida (4 a 1 em casa e 3 a 0 fora contra a Roma e 3 a 0 em casa e 4 a 0 fora contra o Liverpool), no Espanhol Valverde liderava quando recebeu o famoso bilhete azul e teve que passar no RH.

Setién era a esperança de agradar a torcida com um estilo claramente mais próximo ao que é visto como o ideal para o clube. Só que isso não aconteceu. Além disso, a diretoria acredita que ele lida mal com a imprensa e tem sido ruim para a imagem do clube. O time não joga bem, não consegue os resultados e ainda tem que lidar com incêndios na imprensa. É um cenário que faz a diretoria querer dispensar Setién assim que a temporada acabar.

Setién tem contrato até 2022, depois de assinar por dois anos e meio com o clube em janeiro. A diretoria, porém, já admite que cometeu um erro ao contratar o treinador. É verdade que ele ainda pode reverter a má impressão se conseguir conquistar La Liga e, quem sabe, a Champions, que ainda está em disputa – o Barcelona está nas oitavas de final e ainda precisa fazer o jogo de volta contra o Napoli, depois de um empate por 1 a 1 na ida em Nápoles.

Só que a não ser que o treinador consiga um milagre como esse, ficará em situação difícil, muito provavelmente demitido. E seria mesmo um milagre ver o time conquistar os dois títulos, porque não tem jogado bem o suficiente para isso. E há muitas questões que desagradam demais.

Tanto que já se fala em substitutos. Alguns querem apostar na fórmula caseira e subir García Pimienta para o cargo de técnico principal. Ele é o técnico do Barcelona B, assim como era Pep Guardiola. Sim, no clube catalão impera uma certa visão de que é preciso seguir alguns passos que já deram certo para, quem sabe, ver dar certo de novo. Mas há também quem aposte que será mais uma vez a hora de tentar convencer Xavi Hernández a assumir.

O ex-jogador do clube foi procurado antes de Setién, mas suas exigências de controle total do futebol foram consideradas excessivas. Sem isso, ele não quis assumir. Ronald Koeman, técnico da seleção holandesa, também já tinha recusado o cargo, preferindo permanecer no seu trabalho corrente. Sobrou para Quique Setién, uma aposta fácil de um técnico desempregado e com um estilo de jogo sempre muito elogiado, embora com resultados inconsistentes.

Setién deve mesmo sair e independente de quem venha, o Barcelona precisa dar um jeito no seu vestiário. Está claro que há um problema ali em termos de disputa de poder, algo que a diretoria do clube foi muito incompetente nos últimos anos em lidar. Mais do que isso: a diretoria tem trocado os pés pelas mãos constantemente, seja no caso de contratar uma empresa para difamar os jogadores e defender o presidente, seja por contratações equivocadas gastando dezenas de milhões de euros, seja por não conseguir gerir um grupo de jogadores que ganha um poder tremendo.

Desde a saída de Luis Enrique, que também tinha se desgastado no comando do time, o cargo de técnico do Barcelona se tornou uma cadeira que parece fritar seus ocupantes. Luis Enrique tinha história e preparo quando assumiu o Barcelona, mudou o estilo de passe paciente para um jogo mais direto, aproveitando seus três atacantes fora de série, Messi, Suárez e Neymar. Sua exigência sempre alta custou um degaste que ele mesmo quis encerrar antes que as coisas ficassem piores.

Quem poderia chegar para resolver isso? Xavi já deixou claro na última vez que quer a chave do vestiário e do departamento de futebol. Quer poder dispensar quem quiser, sem interferência. Quer poder lidar com os problemas com total apoio. Se a diretoria der isso a ele, é possível que ele dirija o time, mas o processo pode ser desgastante e ter alguns problemas no meio do caminho. Se não for Xavi e for outro, o técnico precisará um cavalo selvagem que é o vestiário, que parece ter poupa paciência para entender o comandante.

O Barcelona, como clube, precisa entender o que quer. Não só como estilo de jogo, mas como cube. A ideia de ter um time baseado nas categorias de base ficou para trás há muito tempo, parte porque pararam de acreditar no mito que La Masia produziria uma infinidade de jogadores bons para abastecer o time, o que era irreal; parte porque os treinadores não se sentiram respaldados para dar continuidade aos nomes que surgiram. Hoje, eles são membros marginais do plantel. Quem mais dá pinta de conquistar espaço é Ansu Fati. E Sergi Roberto é a presença mais constante.

Todo clube, por mais que tenha categorias de base de alto nível, com uma formação excelente, raramente conseguirá ter um time inteiro baseado na base. A não ser que este seja um projeto do clube e ele esteja disposto a enfrentar os problemas que são ocasionados por esse tipo de política, como a falta de qualidade em algumas posições.

É o que acontece, por exemplo, com o Athletic Bilbao. Como o clube só quer jogadores com ligação com o país Basco, basicamente só tem as categorias de base para se servir, além de alguns poucos jogadores espalhados por outros clubes. Não é definitivamente o caso do Barcelona, que precisa competir no mais alto nível não só localmente, mas em termos continentais – e não tem restrições sobre quem colocar em campo.

O problema é que é preciso saber contratar. E, mais do que isso, fazer uma boa gestão da folha salarial, algo que o Barcelona já se perdeu há algum tempo. A pesada folha salarial representa cerca de 70% das receitas, algo que é sempre um risco. Até porque o Fair Play Financeiro, da Uefa, estabelece que este é o limite que os clubes podem gastar com salários. Ir além disso é estar irregular. E o clube está sempre flertando com isso.

Basta ver que trouxe Miralem Pjanic, um salário maior que o de Arthur, que deixará o clube para ir no sentido oposto, para a Juventus. Uma gestão responsável do Barcelona indicaria uma redução salarial. Mas como fazer isso com o fogo ardente da pressão pelos resultados constantes? É algo que só bons dirigentes conseguirão fazer.

Há no elenco um grupo de veteranos que parece ditar as regras, o que só foi possível graças a técnicos fracos e principalmente uma diretoria incompetente e provavelmente muito pior do que isso. Suárez, Messi, Piqué, Busquets e companhia são a espinha dorsal de um time que vem se envelhecendo ao longo do tempo. A última vez que o time levantou a taça da Champions League foi em 2015, há cinco anos, e todos esses jogadores estão mais velhos desde então.

A reposição, com contratações milionárias, não chegou nem perto de ser suficiente para manter a qualidade do time. O clube não parece saber o que quer também na hora de contratar, a ponto de ter gastado tudo que recebeu dos imensos € 220 milhões recebidos de Neymar em Philippe Coutinho e Ousmane Dembélé (aliás, gastou mais do que recebeu) e sem ter retorno. E está chegando Miralem Pjanic por € 60 milhões, aos 30 anos. Gastando mais de € 100 milhões por jogadores que sequer conseguem estar em campo pelo clube é um sinal que há uma falta de visão que passa pelo projeto como um todo, mas chega à decisão de quem contratar também. O que é um desastre completo.

Nos vestiários, os jogadores precisarão entender que cada técnico trará um modo de jogar. E a não ser que o clube consiga convencer Pep Guardiola a voltar, o que parece altamente improvável, haverá diferenças em relação ao que passou a ser enxergado como o DNA do Barcelona, uma ideia de jogo etérea que seria a identidade do clube. Isso foi pouco questionado com Luis Enrique, porque o time jogava bem, mesmo sendo de outro estilo. Os jogadores precisarão entender, o técnico que chegar também. E essa relação é o maior desafio para o Barcelona na próxima temporada.

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