Poucos países do mundo possuem torcidas tão fanáticas quanto as da Turquia. No entanto, a paixão que estremece as arquibancadas também resulta em tragédias. Como a que completará 15 anos neste domingo: em 2000, dois torcedores do Leeds morreram esfaqueados antes do confronto com o Galatasaray antes do jogo pelas semifinais da Copa da Uefa. Triste coincidência que, quase na mesma data, o futebol turco tenha vivido um episódio igualmente pesados – sem relatos de vítimas fatais, ainda que mais assustador. O ônibus do Fenerbahçe foi alvo de um atentado a tiros, que colocou em risco todo o elenco.

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O episódio de terror aconteceu na cidade de Trebizonda. O Fener passava pela cidade após golear por 5 a 1 o Rizespor, pelo Campeonato Turco.  Quando o ônibus passava por um viaduto, o atirador abriu fogo contra o motorista, assim como pedras também foram arremessadas contra o parabrisas. As suspeitas são de que o grupo intencionava fazer o condutor perder o controle do veículo e derrubá-lo do local. O ônibus só não despencou porque membros do time teria conseguido dominar o volante.

O motorista foi levado diretamente ao hospital e está na UTI, onde sua condição é estável. Já o restante do elenco recebeu apoio da polícia, que o levou para o aeroporto de Trebizonda. “Eu não posso acreditar no que acabou de acontecer. Tirando o motorista, estamos todo bem, mas não entendemos como ele pôde atirar contra nós nestas circunstâncias, com o ônibus em alta velocidade”, declarou Bekir Irtegün, zagueiro do Fenerbahçe.

Segundo os relatos do Today Zaman, um dos principais veículos da imprensa turca, o ataque teria sido conduzido por torcedores do Trabzonspor. A rivalidade entre os clubes cresceu a partir de 2010/11, quando disputaram ponto a ponto o título do Campeonato Turco e se envolveram em um escândalo de manipulação de resultados. Desde então, o clube de Trebizonda começou a brigar pelo direito de ser declarado campeão, após ser declarado inocente pela Uefa e ficar com a vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões. A tensão, então, começou a se desdobrar entre as torcidas.

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Há uma grande diferença entre o crime cometido pelos torcedores do Galatasaray e o atentado contra o Fenerbahçe 15 anos depois. Entretanto, eles apontam para um contexto bem mais amplo. Por mais que os ultras tenham se unido recentemente contra o autoritarismo do governo nos protestos da Praça Tahrir e que haja um movimento de reaproximação feito pelos dirigentes, as tensões foram alimentadas por décadas, e nem sempre contaram com as medidas de combate mais eficazes. A segurança se intensificou desde 2000, mas, ainda que seja algo difícil de prever, o ataque deste sábado representa um quadro geral preocupante. Outra vez, o  mês de abril deverá marcar profundamente o futebol turco – e podendo dar brecha também para que o governo ataque os seus opositores políticos. Por sorte, sem uma tragédia maior neste sábado.

* À medida que novas informações forem trazidas pela imprensa turca, atualizaremos a nota.