*Do Morumbi, em São Paulo

Com um tíquete médio de R$ 485, a lógica ditaria que, nos arredores do Morumbi, não estaria ninguém que não dá a mínima para a seleção brasileira, estava ali apenas porque a sessão de Alladin ficou lotada, embora, ultimamente, os jogos muitas vezes tenham cara de evento social, sem muita relação com o futebol. De qualquer maneira, quase todo mundo que conversou com a Trivela antes da partida afirmou que sempre acompanha o time verde e amarelo (ou branco e azul) e torce para ele como se fosse seu clube.

Pelo menos do discurso. É bom fazer essa distinção entre o que foi dito e o que foi feito porque, uma vez nas arquibancadas, a torcida passou longos períodos abrindo a boca apenas para ser homofóbica com o goleiro adversário. Era possível ouvir uma agulha cair no chão do estádio da zona sul paulista, com uma ocupação abaixo da esperada lotação. Poucas das 47.620 pessoas presentes pareciam envolvidas com o que acontecia em campo.

A vitória do Brasil sobre a Bolívia por 3 a 0, na estreia da Copa América, teve a maior arrecadação já divulgada no futebol brasileiro, R$ 22 milhões, suficiente para contratar um ótimo jogador. E também foi uma das partidas de futebol mais silenciosas das quais temos registro. Combinou com a cor do uniforme do time da casa: branco gelo.

Antes do jogo, otimismo

No aquecimento para a estreia do Brasil na Copa América, o clima variava entre o otimismo, tanto em relação ao título da Copa América, quanto para a estreia contra a Bolívia – é curioso como todo mundo achou que o jogo seria 3 a 0 e também como todo mundo acertou -, e o saudável ceticismo de quem não muito tempo atrás levou sete gols em uma semifinal de Copa do Mundo.

Letícia Moura, advogada de 23 anos de Teresina, no Piauí, veio a São Paulo apenas para assistir à partida e tem uma explicação muito razoável para exigir uma vitória larga. “Eu saí de longe, quero um placar muito bom”, afirmou, à Trivela. “Nós estamos de bem. Estou botando muita fé, espero que não decepcione. Meu time é a seleção brasileira. Estou um pouco triste porque não vou ver o menino Ney”. Pivô de turbulências no ambiente da Seleção ao ser acusado de estupro, Neymar foi cortado por lesão no tornozelo sofrida durante amistoso contra o Catar. “Espero que os outros consigam jogar direitinho. Estou acreditando muito também no Gabriel Jesus”, completou.

O aposentado João Batista, 73 anos, já teve muito jogo de futebol da seleção brasileira para assistir e admite que anda um pouco descrente. “Depois daquela goleada por 7 a 1, o negócio ficou meio esquisito”, explana. O administrador Jonathan Costa Ribeiro, 36 anos, acredita que o clima da seleção e a decepção na Copa do Mundo distanciaram um pouco o torcedor: “Já foi bem melhor minha relação (com a Seleção). Hoje, está um pouco distante. Mas confesso que o coração é brasileiro”. O gremista Anderson Vágner, de Londrina, tão gremista que foi ao jogo com a camisa tricolor, tem 26 anos, é soldador e acha que Tite convoca com um “certo clubismo”: “Estou tentando acreditar, mas está difícil. Extracampo e em campo. Teve o Caso Neymar, jogador lesionado aqui e ali. Eu não sou a favor de certos tipos de convocação”.

As cornetas soaram por alguns nomes presentes ou ausentes além dos problemas de Anderson com Fágner e o seu desejo de ver Fabinho vestindo a Canarinho. No geral, ninguém pediu a cabeça do Tite, e todos avaliaram que ele faz um bom trabalho, mas Isabela Vicente, 25 anos, queria ver o lateral esquerdo Marcelo. “Essa convocação não me deixou tão feliz. Foi muito decepcionante não ver o Marcelo”, afirmou. “Eu acompanho bastante o Brasil, principalmente nesses campeonatos como Copa América e Copa do Mundo. Ultimamente, está melhor do que o meu time. A seleção me dá menos desprazer que o meu time”.

Outro nome citado foi o de Fernandinho, marcado por um erro na derrota para a Bélgica, e por vários na semifinal contra a Alemanha. O bancário Luis Emanuel, de 26 anos, fez cara feia ao ser informado pela reportagem que o jogador seria titular ao lado de Casemiro no meio-campo. “Ruim. Acho que já está bom para ele”, justifica. “Fernandinho é um caso à parte. Tem futebol, mas não para a seleção”, acrescenta Anderson.

O que nunca se perde, porém, com todas as derrotas, convocações questionáveis e polêmicas extracampo, é a mística da camisa amarela em alguns países, como o Haiti de Jean Rinaldi, técnico de telefonia de 31 anos. Ele mora no Chile e aproveitou uma viagem ao Brasil para fazer outras coisas para, pela segunda vez, assistir à Seleção. A primeira foi o Brasil e México, no Allianz Parque, em 2015. “Desde o Haiti, sempre foi um sonho ver um jogo da seleção brasileira. Como eu estava aqui, aproveitei o momento”, conta.

Durante o jogo, silêncio

Tite, técnico do Brasil (Foto: Getty Images)

Quem precisava fazer o filho dormir poderia tê-lo trazido ao Morumbi, convertido por duas horas no local mais silencioso de São Paulo. A torcida parecia distraída com recados nas redes sociais ou os novos vazamentos da Lava-Jato. Despertava, assustada, apenas quando o Brasil se aproximava da área, como se alguém tivesse estalado os dedos à sua frente, ou quando o goleiro boliviano Carlos Lampe batia tiro de meta para soltar o inaceitável grito de “bicha”, pelo qual a Fifa já multou a CBF.

E o pior é que o começo foi promissor. A torcida completou o hino nacional à capela, como na Copa do Mundo, a ponto de arrepiar. Vaiou a primeira vez que a Bolívia pegou na bola e esboçou um grito de “Brasil, Brasil Brasil”.

No entanto, a animação inicial passou bem rapidinho. Antes dos dez minutos, chegava a ser constrangedora a falta de barulho no Morumbi. Eventualmente, alguém, provavelmente também incomodado, puxava algum grito de guerra, como “lêlêo, lêlêo” ou “mil gols”, mas quase ninguém acompanhava e o plano era abortado. Cinco minutos depois, outro herói tentava atrapalhar a missa e também falhava. Nenhuma empreitada durava mais do que alguns segundos.

Até o intervalo, o momento de mais agitação foi uma ola realizada enquanto o árbitro assistia a algum lance no monitor do assistente de vídeo. Quando ele apitou o fim do período, o segredo foi revelado. A torcida não estava quieta por desinteresse. Estava quieta porque guardava energias para soltar uma tradicional vaia à paulista contra a seleção brasileira assim que o primeiro tempo terminou em 0 a 0. Foi o maior número de decibéis atingidos no Morumbi na noite de sexta-feira.

O problema do placar zerado foi resolvido logo aos cinco minutos do segundo tempo, quando houve um pênalti a favor do Brasil. A torcida foi à relativa loucura. Coutinho marcou, todo mundo gritou. Houve uma frágil tentativa de expor o orgulho e o amor de ser brasileiro, mas rapidamente o silêncio voltou a dominar o ambiente. Três minutos depois, Firmino recebeu pela direita e cruzou para Coutinho ampliar. Novas comemorações. E, de novo, o silêncio.

Tão profundo que o placar eletrônico deu mais de um susto no autor deste texto com o seu barulhinho para alertar que estava prestes a anunciar alguma coisa, como a primeira substituição da Bolívia, o cartão amarelo para Philippe Coutinho ou a entrada de Gabriel Jesus, um momento que rendeu alguns gritos animados das arquibancadas. Parece que a torcida gosta do jogador do Manchester City, mas não a ponto de ficar mais do que dez ou quinze segundos acordada.

O jogo seguiu desta maneira até o fim. Às vezes, um brasileiro acertava um drible dentro de campo e outro brasileiro ficava feliz na arquibancada. Teve um momento particularmente promissor, sem motivo aparente, em que o volume subiu bastante, mas por um período muito breve. A regra foi o silêncio sepulcral, interrompido ocasionalmente por alguma reação ao que os jogadores faziam, como o golaço de Everton, ou esforçadas e espasmódicas tentativas de equiparar o clima do Morumbi ao de um jogo de futebol, que nunca resistiam e geravam até um pouco de simpatia, pela inocência.

Depois do jogo, explicações

Richarlison, do Brasil (Foto: Getty Images)

Não é novidade a seleção brasileira encontrar, no Morumbi, resistência maior nas arquibancadas do que dentro de campo. O estádio tem a fama de ser exigente, embora não a de ser indiferente. “Sabíamos que aconteceria isso”, afirmou Filipe Luis. “Jogamos aqui outras vezes. Estávamos avisados que era um estádio complicado. A torcida no Morumbi é sempre exigente. O importante é que o time manteve a concentração a todo momento”.

Daniel Alves, na saída de campo, disse que dava para ouvir as instruções do Tite em alguns momentos e espera mais animação, um “axé diferente”, em Salvador, onde o Brasil enfrenta a Venezuela na próxima terça-feira. Mais tarde, acrescentou que o problema da torcida paulista é ser clubista demais. “Apesar do calor que fazia, a torcida é um pouco assim em São Paulo”, brincou. “Eles são muito fanáticos pelos clubes e havia jogadores de clubes diferentes. Gritaram Rogério (Ceni). É normal. A gente não sente o clima de seleção brasileira aqui, sente mais clima de clube. Não dificulta, mas não ajuda muito porque estamos aqui representando nossa nação”.

Thiago Silva tocou em um ponto importante: o preço do ingresso. “Muito caro, cara. As pessoas pagam caro e querem ver show, querem ver gol. É natural ter um pouco de vaia, mas no segundo tempo premiamos eles com o bom resultado, mais agressividade”, disse. “Acredito que a tendência nossa é melhorar. Passou a ansiedade da estreia, mais do que natural e compreensível por parte do torcedor a apreensão de esperar que a gente abra o placar e jogue bem”.

Roberto Firmino, Willian e Coutinho, bem coordenados, disseram que os jogadores têm que se concentrar em um bom desempenho, independente do que acontece nas arquibancadas. “A gente se blinda desse lado de fora, tem que ficar focado dentro de campo, mas a gente conta com o apoio deles, com certeza”, afirmou o autor de dois gols contra a Bolívia. Richarlison disse que a situação “é normal” no Brasil. “Até rolou uma certa vaia, mas já estamos acostumados com isso. Voltamos mais fortes para o segundo tempo”, acrescentou.

Alisson creditou o clima gelado do estádio ao que acontecia dentro de campo. “Começamos o jogo muito bem. Criamos muitas chances nos primeiros 30 minutos e não conseguimos fazer a bola entrar. Acredito que gera um certo nervosismo em quem está de fora”, disse. E Gabriel Jesus foi o único que conseguiu dizer que a torcida apoiou o time. “Eles apoiaram a gente, mas no primeiro tempo não saiu gol, que é o que queremos ver, espetáculo. Poderíamos ter feito no começo do jogo, mas é futebol, não aconteceu. Entendo”, afirmou.

Ingressos caros. Torcida paulista. Reflexo do jogo. Ou tanto faz. As explicações foram dadas, mas o quanto a frieza do Morumbi não foi sintoma do distanciamento cada vez maior entre a Seleção e o seu povo? Por mais que esse povo fale que está tudo bem.