Querétaro x Dorados, o duelo entre os times de Guardiola e Ronaldinho no México

Os dois ídolos do Barcelona passaram pelo futebol mexicano nas duas equipes que se enfrentam nesta sexta-feira

Está sem programa para a noite desta sexta-feira? Pois bem, uma boa sugestão é o duelo entre Querétaro e Dorados, às 23h30 (de Brasília), pela terceira rodada do Clausura Mexicano.

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Tá, admito que é sacanagem. Talvez o jogo reserve alguma boa surpresa, mas o confronto entre os dois piores times do campeonato, que não possuem grandes nomes em seus elencos – apesar de um ou outro destaque como Sinha, Benny Corona, Edgar Benítez e Carlos Fierro – não é nada convidativo, principalmente numa noite de sexta-feira com várias opções de lazer. É muito melhor (com moderação, ou não) quebrar aquela gelosa, por exemplo.

No entanto, o jogo pode surpreender, e os Gallos Blancos não devem ficar na parte inferior da tabela por muito tempo. Mais do que isso, porém, a partida é atrativa por coincidências históricas entre os dois adversários desta noite.

Dois dos grandes nomes de Dorados e Querétaro são históricos e ligados pelo Barcelona: Pep Guardiola e Ronaldinho. A Era Guardiola começou no Barça após o fim da passagem épica do camisa 10 brasileiro. O artista deu passagem para o ciclo de Messi, iniciado com brilhantismo pelo treinador espanhol.

Além da ligação temporal nos Blaugranas, os ídolos do clube catalão tornaram os dois times mexicanos conhecidos ao redor do globo. Tanto Dorados quanto Querétaro eram desconhecidos mundialmente antes da chegada dos astros. Também foi durante as passagens de Guardiola e Ronaldinho, que os dois clubes viveram suas melhores campanhas na história no Campeonato Mexicano.

Altos e baixos

Ronaldinho viveu uma temporada conturbada no Querétaro. Apesar de decidir alguns jogos e ser fundamental principalmente nos playoffs com gols e assistências, o meia se envolveu em várias polêmicas: perdeu alguns treinos e se atrasou em outros, demorou um mês para se reapresentar ao clube na pré-temporada e também teve problemas com Vucetich quando ficou no banco e foi substituído no jogo de ida da semifinal dos playoffs.

Em 32 jogos oficiais, foram oito gols, mas Ronaldinho, apesar de lampejos, não brilhou no México e saiu sem deixar saudades. O craque foi um sucesso de marketing e tornou os Gallos Blancos mundialmente conhecidos, mas contribuiu pouco tecnicamente, apesar de ser fundamental em alguns momentos cruciais e ajudar o time a fazer sua melhor campanha na história do Campeonato Mexicano, ficando com o segundo lugar.

Barra pesada

Já com Guardiola, a história foi diferente, apesar das semelhanças citadas. O espanhol chegou ao Dorados de Sinaloa após dois anos ganhando rios de dinheiro no Catar, defendendo a camisa do Al-Ahli. Ele não precisava ir ao México. Já tinha ganho inúmeros títulos e muito dinheiro. Podia ter se aposentado, mas atendeu o pedido do amigo Juan Manuel Lillo, que tinha acabado de assumir o cargo de treinador do clube, e foi ser treinado por ele.

E o então volante espanhol encontrou uma realidade totalmente diferente da que estava acostumado. Se Ronaldinho chegou a um clube que queria crescer, estava investindo em estrutura, contratação de jogadores e lhe pagou uma bolada, Guardiola jogou por uma equipe que, dez anos atrás, sequer tinha vestiário no campo de treinamento, como Lillo contou à Esquire espanhola, em entrevista feita em 2006.

“A quantia da contratação nem foi tanta. Pep veio jogar por mim, não por dinheiro. Ele sabia que vinha ao fim do mundo, que não tinha vestiário no campo de treinamento… A chegada foi dura. Hoje falam bem de nós, mas nos receberam muito mal.”

Além disso, Sinaloa é uma das regiões mais perigosas do México e tida como berço de traficantes. Joaquín Guzmán Loera, o famoso El Chapo, por exemplo, é natural do local. Isso causou, inclusive, suspeitas de que o tráfico estaria movimentando dinheiro no Dorados, algo semelhante aos clubes de Medellín, na Colômbia, no auge de Pablo Escobar e outros traficantes nos anos 1980 e 90.

Oficialmente, porém, o Dorados recebia o dinheiro de três investidores, liderados por Eustáquio de Nicolás, dono de uma gigante do ramo de construção no México, a Homex. A injeção de grana foi tão absurda que em apenas três meses o time ganhou um estádio que custou 55,2 milhões de pesos mexicanos, e em um ano estava na primeira divisão. Além de Guardiola, Jared Borghetti, Iarley e Loco Abreu (que chegaram antes do espanhol) foram contratados.

Nada disso, no entanto, salvou o clube. Pep fez apenas dez jogos e marcou somente um gol no México. Assim como Ronaldinho, foi uma decepção. Ainda assim, o time perdeu apenas três jogos no Clausura Mexicano em 2006, sendo a equipe que menos perdeu no torneio e tendo seu melhor desempenho na história. Isso, porém, não salvou os comandados de Lillo, que foram rebaixados, vítimas de um regulamento complicado, que levava em consideração o desempenho dos últimos dois anos.

Foi o capítulo derradeiro da carreira de Guardiola, que pendurou as chuteiras após o rebaixamento. No entanto, nem tudo estava perdido, e os meses no Dorados também foram o pontapé para a carreira do genial treinador.

Em várias entrevistas recentes, Pep comentou que durante sua passagem pelo México ficou horas e horas na casa de Lillo vendo vídeos e mais vídeos e conversando sobre futebol. Seu treinador em Sinaloa, segundo ele próprio, foi uma de suas grandes inspirações ao lado do lendário Johan Cruyff.

E ficou até o carinho pelo clube. O Dorados, que enfrentou uma grave crise após o rebaixamento, se reergueu em 2013, com o investimento do Grupo Caliente – que também comanda o Tijuana – que adquiriu 60% do clube, deixando o restante com a Homex.

A equipe de Sinaloa voltou à divisão de elite do México no Apertura 2015, e Guardiola, antes do jogo de acesso, desejou boa sorte ao antigo time. “Sei que estão jogador a final do Ascenso (segunda divisão) contra o San Luis. Lhes desejo o melhor dos êxitos, saiam a ganhar para recuperar o lugar que que pertence ao Dorados na primeira divisão. Muita sorte! Estarei esperando notícias positivas.”