Feira de domingo. A rua lotada, o cheiro de pastel exalando, as donas de casa puxando seus carrinhos de ferro. De um lado da calçada, Joseph Blatter é o comandante da banca. Lápis na orelha, o suíço se gaba de ter descascado muitos abacaxis sem se ferir. Do outro lado, Michel Platini é quem acabou de estacionar sua Kombi para tomar conta do pedaço. A oferta dos dois? Não são tomates, jilós ou berinjelas, mas sim vagas na Copa do Mundo.

O discurso dos dois dirigentes para ganhar as próximas eleições da Fifa não é muito diferente daquele feito pelo feirante na rua de cima da sua casa. Um quer gritar mais que o outro para receber votos. Ao invés de elogiarem as madames que passam, os alvos da bajulação são os dirigentes de África e Ásia – que, sem coincidência, tem peso grande na escolha do presidente e pouco espaço no Mundial. É uma vaga direta para a Copa por dois reais, uma bacia de lugares na repescagem por cinco. Um tino comercial impressionante, que não leva em conta a qualidade da competição.

Na semana passada, Blatter foi o primeiro a tentar vender o pepino. Ele prometeu diminuir as vagas de Europa e América do Sul no Mundial para privilegiar africanos e asiáticos. Aprendeu direitinho com João Havelange, o antigo dono do pedaço, que ganhou a confiança dos clientes ao ouvir o que os outros continentes queriam – tornando os votos igualitários na eleição presidencial. Depois, conseguiu se manter no poder aumentando o número de países na Copa.

Platini não pôde cobrir a promoção de Blatter, mas incluiu o nabo na baciada. Afinal, para o francês não interessa diminuir a representatividade dos europeus, seu nicho. Nesta segunda, ele defendeu o aumento de seleções no Mundial, de 32 para 40. “É bom para todo mundo. Concordo com o Blatter que precisamos de mais africanos e asiáticos. Mas, ao invés de tirar europeus, poderíamos colocar 40 times”. Nessa ideia, Platini é especialista. Foi ele que acabou com o formato redondo da Eurocopa, elevando o número de seleções por pura política.

Ninguém pensa na qualidade. Levar 32 países à Copa não foi uma ideia ruim, especialmente para dar mais espaço aos outros continentes – que, de fato, mereciam mais vagas. O aumento tornou o formato mais simples (sem mais a classificação de terceiros colocados ou métodos mirabolantes após a primeira fase) e classificou países que dificilmente teriam chance de ir ao torneio, apesar da qualidade. Todavia, também é preciso ponderar que a expansão também tirou um pouco de competitividade do Mundial na fase de grupos.

Elevar o número de seleções para 40 seria um tiro no pé. Primeiro, justamente por prejudicar um pouco mais esse nível. Depois, por complicar um sistema de disputa que é excelente. Por que não diminuir uma das três vagas diretas da Concacaf? Porque significaria tirar poder do continente. Ou seja, não ajudaria nem um pouco na eleição da Fifa. Já ver a Copa do Mundo com 64 times, ah, isso é só questão de tempo.

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Pensar que Blatter e Platini vão manter a Copa impune em seu jogo de politicagem é ser ingênuo demais. Eles vão insistir nessa ideia para convencer os eleitores. Querem agradar os continentes? Ok, sigamo em frente. Mas não mexam na fase final do Mundial. Modifiquem o sistema da repescagem. Mais simples, não?

Uma possibilidade é tornar a etapa final das Eliminatórias apenas internacional. Europa, Ásia, Oceania e América brigando pelas mesmas seis vagas, em cruzamentos definidos pelo Ranking da Fifa. Para 2014, por exemplo, o Pote 1 poderia contar com Uruguai, França, Ucrânia, Croácia, Grécia e Portugal. Agradaria europeus, pela possibilidade de levarem mais do que quatro seleções nesta etapa final, mas também premiaria os times de outros continentes que mantêm a regularidade e vão bem no ranking.

Além disso, também dá para transformar algumas vagas diretas em jogos de repescagem. Tirar a classificação do terceiro da Concacaf e colocá-la em jogo com outro asiático, mudar as Eliminatórias africanas para cruzar um país com o quarto da América do Sul. Não diminuiria tanto a representatividade dos continentes hegemônicos e daria chances aos outros. Mas pedir racionalidade para os dirigentes da Fifa parece muito, não é mesmo?