O Brasileiro de 1988 foi o primeiro a adotar o rebaixamento. No ano do centenário da abolição da escravatura, o principal campeonato do país se livrava das correntes que o prendiam a longos anos de retrocesso. Desde então, em 26 edições, 45 das 50 equipes que disputaram a primeira divisão sentiram a dor da queda para a Série B. Em 2014, a Chapecoense será a 51ª de uma lista e lutará para não se tornar a 46ª de outra.

As lágrimas das 45 torcidas não foram em vão, embora isso não sirva de consolo para nenhuma delas. Graças ao estabelecimento de uma política de acesso (que já existia, de forma tímida, na época em que a Taça de Prata dava vaga na Taça de Ouro do ano seguinte) e descenso, o Brasileirão ganhou credibilidade e força como produto, embora uma ou outra edição tenha voltado a passar por inchaço, por culpa das famigeradas viradas de mesa.

Dos que caíram, 28 fizeram o caminho de volta pelo menos uma vez. Dentre eles, um caso à parte é o Remo, que só entra na estatística porque a Copa João Havelange o englobou em um dos seus módulos “coração de mãe”. Entre os 17 que não voltaram, a curiosidade fica para a Desportiva, o último clube capixaba a disputar a Série A, que viveu situação parecida aos paraenses, no também exótico (para não dizer coisa pior) Brasileiro de 1993.

O primeiro rebaixamento de um dos chamados “12 grandes” não demorou tanto assim a acontecer, já que o Grêmio caiu em 1991. O clube gaúcho viria a ser rebaixado em uma segunda oportunidade, o que também aconteceria com Palmeiras, Vasco e Fluminense. Botafogo, Corinthians e Atlético Mineiro também pagaram sua cota de pecados e foram fazer uma visita à Segundona.

Mesmo não sendo mais nenhuma novidade, quando um destes clubes cai, o assunto é explorado de forma estrondosa pela mídia. Natural, tratam-se de clubes de enorme tradição, detentores de vários títulos e grandes torcidas. Clubes que recebem as maiores cotas de TV e patrocínio e que, por isso mesmo, têm de ser mais cobrados.  Mas será que o rebaixamento de um dos membros dessa turma ainda justifica a comoção exagerada de alguns, comparável à perda de um ente querido?

As definições de inferno foram atualizadas

Brazil Argentina Soccer Copa Sudamericana

Comecemos do começo. Ser rebaixado é uma merda. Nunca caia na historinha de que às vezes um rebaixamento é bem vindo, para forçar uma reestruturação no clube. Ninguém precisa chegar ao fundo do poço para tomar uma atitude. Aliás, quem chega por lá, geralmente não volta para contar a história, ou passa o resto da vida sofrendo com as chagas da derrocada.

Como fato isolado, o rebaixamento, mais do que uma mancha histórica, é um sintoma de que algo deu errado. Os clubes com menos condição financeira sabem que um mínimo errinho de planejamento vai rebaixá-los. Os mais abonados quase sempre caem porque abusaram do direito de errar. Não é raro que os problemas de anos de má gestão estourem todos ao mesmo tempo.

Muitos falam na humilhação de jogar a Série B, quando a verdadeira humilhação está nos fatos que costumeiramente levam ao descenso, como por exemplo: dever salários, não investir em infraestrutura, montar elencos medíocres, ou ficar pior posicionado em relação a times de capacidade de investimento bem inferior. Alguém aí acha que, por ter se mantido na Série A, o Internacional fez mais bonito que a Ponte Preta no Brasileiro de 2013?

“O inferno da Série B” era um jargão muito popular nos anos 90, quando jogar a competição era uma novidade para muitos clubes tradicionais. Felizmente, as coisas mudaram bastante. Com a diminuição do contingente na Série A, a Segundona viu alguns clubes de peso no cenário nacional tornarem-se participantes habituais da competição. Adicionalmente, as visitas cada vez mais frequentes dos 12 grandes encarregaram-se de trazer os holofotes para ela.

Hoje, a Série B tem transmissão na TV aberta e fechada (onde todos os jogos são transmitidos, via pay per view). Até mesmo a CBF, negligente toda vida, firmou um regulamento que permite a todos se planejar para jogar durante a temporada inteira. Claro que não tem o mesmo gostinho de enfrentar os maiores do país, mas já é um campeonato que não faria feio quando comparado à primeira divisão de várias ligas nacionais de países com tradição no futebol.

Um processo parecido vem acontecendo gradualmente na Série C, depois que clubes como Santa Cruz, Paysandu e Fortaleza andaram atolados por lá. Enquanto vivem os piores dias de sua história, as agremiações acabaram fazendo uma boa ação e melhorando a situação de vários outros clubes. A consequência é que um clube emergente como o Luverdense já sairá da Terceirona muito mais preparado para a disputa da Série B do que aconteceria antigamente.

“Vá para o seu quarto e pense no que você fez de errado, Júnior”

Marlone, em ação contra o Atlético-PR (Foto: UOL)

Se a Série C já está se tornando um inferno climatizado, é justo dizer que a Segundona agora nada mais é que um purgatório. Para os 12 grandes, nem isso: é uma sala de espera. Ou melhor, o cantinho do castigo dos tempos de escola. Quem cai, tem de ser muito incompetente para não bater e voltar, já que, por contrato, a cota de TV recebida na Série A se mantém e só cairia pela metade (e ainda assim seria muita grana) em um hipotético segundo ano longe da elite.

Em 2013, o Palmeiras recebeu quase 25 vezes a mais que 18 de seus adversários (R$ 70 milhões a 3). A exceção era o Sport, que também acabara de ser rebaixado, e recebia 20. Por mais que o alviverde tenha trazido mais audiência e visibilidade à competição, a diferença de valores é absurda. Para um dos 12 grandes, cair até ajuda a colocar as contas em dia, já que os custos caem mais que o faturamento.

Há ainda a possibilidade da torcida se sensibilizar e chegar junto. De reformular o time do zero, em um ambiente de menor pressão (o título pode ser obrigação, mas as chances de conquistá-lo também são bem maiores do que uma boa posição na Série A). Pode ser bom para o dirigente, que se gabará de um feito nem tão complicado assim. E até mesmo para o patrocinador, como revelou de forma bastante indelicada o executivo de uma marca vinculada ao Vasco.

Quem sofre mesmo é o torcedor, que tem de aturar as gozações dos rivais, bem como suspirar alto quando lembra que talvez só torne a enfrentá-los no ano seguinte. Mas este ano de penitência, que parece que não termina nunca, pode renovar seu jeito de torcer e sua comunhão com o clube. Um ano de tranquilidade, ainda que forçada e abastecida por vitórias insossas, também acaba dando um descanso à alma torturada de quem tanto sofreu na temporada anterior.

Competitividade faz bem, nas duas pontas da tabela

*FOTO EMBARGADA PARA JORNAIS DE SALVADOR* SALVADOR, BA - 08.12.2013: BRASILEIRO/BAHIA x FLUMINENSE - Rafael Sóbis (c) após rebaixamento do Fluminense - Partida entre Bahia e Fluminense, válida pela última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol 2013, realizada da Arena Fonte Nova, na capital baiana, neste domingo. (Foto: Lúcio Távora/Ag. A Tarde/Folhapress)

Sempre que um dos 12 grandes cai, ou pelo menos fica seriamente ameaçado, volta o papo de que caírem quatro clubes da A para a B é muita coisa. Depende muito do referencial. Matematicamente, parece mesmo pesado que 1/5 dos clubes tenham de se despedir do bem bom. Na prática, você se lembra de alguma boa equipe que foi rebaixada apenas por azar? Difícil. Ainda mais agora, que o campeonato dura oito meses.

Para criticar os principais campeonatos europeus, o brasileiro adora mencionar a alta competitividade do nosso. Não que tenhamos sempre 12 favoritos ao título, como ainda pensam os mais ingênuos, mas é de fato um campeonato imprevisível. Aqui, o time que faz planos de soberania nacional vai parar no meio da tabela. O campeão de 2010 e 2012 corre riscos de rebaixamento em 2009 e despenca em 2013.

Se são 12 considerados grandes em um campeonato com 20 vagas, ninguém precisa ser um gênio da matemática para saber que a competitividade que age na parte de cima da tabela também atuará sempre na de baixo. E isso não é ruim. Quanto menos clubes acomodados em um campeonato de pontos corridos melhor.

Algumas coisas precisam ser lembradas aos que defendem um menor número de rebaixados para “proteger” os grandes clubes. A primeira delas é que a mudança no acesso/descenso veio justamente para ajudá-los, depois que Palmeiras e Botafogo disputaram a Série B juntos valendo apenas duas vagas na elite e que o Grêmio ficou a uma Batalha dos Aflitos de amargar mais um ano na segunda divisão.

Vale lembrar também que de todos os 12 grandes rebaixados, apenas dois acabaram como  “o quarto colocado de baixo para cima”: o Corinthians e o Fluminense deste ano. Porque quando um grande tem de cair, parece que ele embica para baixo com mais força ainda. Time grande não cai, despenca. Diminuir o número de rebaixados também poderia reduzir a força daquele grupo de clubes que já entenderam que vão cair de vez em quando, mas conseguirão sempre subir de volta.

Ao alcançar a final da Sul Americana e, com muita serenidade, priorizar a conquista de um título inédito a uma tentativa desesperada de se manter na primeira divisão, a Ponte Preta deu um recado aos “grandes médios”: ser rebaixado sempre será um contratempo, mas não vai matar ninguém. Faz parte do jogo. Também para os maiores clubes, que com o tempo terão de encarar com mais naturalidade que também devem pagar pelos seus erros.

Dinamitando a autocrítica

Se um clube já tem mais dinheiro, mais prestígio e mais força política que alguns de seus pares, não pode querer também ser mimado com regulamentos que o protejam, ou com excesso de compaixão. Tudo parece reflexo de uma sociedade que desaprendeu a assimilar fracassos. A culpa agora é sempre dos outros. Quando fica só nisso, ainda é bom… porque sempre tem um canalha que vai procurar uma brechinha na lei pra tirar o seu da reta na hora do aperto.

No futebol, deveriam prevalecer as mesmas regras básicas que deveriam prevalecer na vida. Errou? Corrige. Não deu para corrigir a tempo? Pede desculpas. Seu erro gerou consequências? Arque com elas. Caiu? Levante-se. Se você nunca teve de lidar com alguma bobagem que fez na vida, há 0,000001% de chances de que você seja perfeito e 99,999999% de que seja um mentiroso compulsivo.