Participaram desta reportagem Bruno Bonsanti, Felipe Lobo, Leo Martins e Ubiratan Leal

“Foi o Co-Conspirador 3, com a mala de dinheiro, na sala de música.” O mundo seria mais simples se as investigações fossem como um jogo Detetive. Mas os caminhos das atividades ilegais são sempre labirintosos, cheio de obstáculos e caminhos sem saída. E é preciso juntar muito mais elementos do que autor + arma + local para desvendar um crime. O FBI, por exemplo, precisou de um documento de 162 páginas para destrinchar o esquema corrupção dentro da Fifa.

LEIA MAIS: Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa

O documento da polícia federal norte-americana é bastante detalhado (aqui) na descrição das práticas ilegais e dá nomes dos responsáveis mais importantes do esquema (os indiciados nesta quarta), mas os demais personagens estão cifrados. “Co-conspiradores” e “Empresa de Marketing Esportivo” são menções comuns para os coadjuvantes ou protagonistas que colaboraram com as investigações.

No entanto, o FBI deixou pistas claras sobre quem seriam essas figuras. Nós cruzamos dados, investigamos os fatos descritos pelo relatório da polícia norte-americana e indicamos alguns dos prováveis personagens. Confira abaixo:

Co-conspiradores

#1: Chuck Blazer, ex-secretário-geral da Concacaf e ex-membro do Comitê Executivo da Fifa, representando os Estados Unidos. Fez acordo de delação premiada com a Justiça dos EUA e devolverá US$1,9 milhão.

#2: José Hawilla, fundador e dono da Traffic, que negociou diversos direitos de competições de futebol. Fez acordo de delação premiada com a Justiça dos EUA e devolverá US$151 milhões – US$25 milhões já entregues à Justiça.

#3: Executivo de alto escalão da Traffic USA.

VEJA MAIS: De dono do futebol brasileiro a delator: a ascensão e queda de J. Hawilla

#4: Enrique Sanz Santamaria, alto executivo da Traffic USA, ex-secretário-geral da Concacaf.

#5: Executivo de contas da International Sports Marketing (ISM), empresa sediada na Nova Jersey que negociava os direitos de marketing da Conmebol, tanto dos naming rights da Libertadores quanto atuando como intermediário na venda de direitos de transmissão.

#6: Kleber Leite, ex-executivo sênior da Traffic e depois de uma empresa de marketing descrita como Sports Marketing Company B e que venceu a Traffic na disputa pelos direitos comerciais da Copa do Brasil de 2015 a 2022. A Klefer, empresa de Kleber Leite, garantiu os direitos pelos anos citados no documento pelo valor de R$128 milhões. Leite chegou a ser vice-presidente da Traffic nos anos 90.

#7: Mohammed Bin Hammam, alto executivo da Fifa e da AFC, que concorreu à presidência da Fifa de 2011. Foi banido do futebol por tentar comprar votos. Há suspeita que ele tenha tentado comprar votos para a candidatura do Catar a 2022, já que foi membro importante do comitê de candidatura do país, além de ser catariano e ter sido presidente da AFC, Confederação Asiática de Futebol.

#8: Eduardo Deluca, ex-secretário-geral da Conmebol. Ficou no cargo de 1988 a 2011, quando renunciou. Ele recebeu propina para manutenção de naming rights da Copa Libertadores entre 1996 e 2012. Ele esteve nas negociações para venda de naming rights para a Toyota e para o Santander.

#9: Executivo de alto escalão da Traffic e da Traffic USA.

#10: Julio Grondona, ex-presidente da AFA, ex-membro do Comitê Executivo da Fifa.

#11: Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF e ex-membro do Comitê Executivo da Fifa.

#12: Marco Pólo Del Nero, presidente da CBF, que também foi vice-presidente da entidade e é presidente da Federação Paulista de Futebol.

#13: Executivo sênior da Traffic e da Traffic USA, assim como executivo da subsidiária americana de empresa de marketing esportivo, descrita no documento como “Sports Marketing Company C”.

#14: Daryll Warner ou Daryan Warner: um dos filhos de Jack Warner, ex-presidente da Concacaf e ex-vice-presidente da Fifa, além de ex-membro do Comitê Executivo da Fifa. Ambos fizeram acordo de delação premiada com a Justiça dos EUA.

COPA 2022: Entenda por que o relatório da Fifa que inocentou a candidatura do Catar-2022 é cara de pau

#15: Alto oficial da campanha da África do Sul para sediar a Copa do Mundo de 2006 e 2010, além de participante do comitê organizador local da Copa de 2010. Possivelmente Danny Jordaan.

#16: O documento do FBI fala em “alto oficial da campanha da África do Sul para sediar a Copa do Mundo de 2006 e 2010, além de participante do comitê organizador local da Copa de 2010”. Pela descrição das ações, o co-conspirador 16 fez parte de uma reunião na qual também estava presente o presidente sul-africano Thabo Mbeki.

#17: O documento do FBI fala em “Dirigente da Conmebol e membro do comitê executivo da Fifa”, mas a descrição de suas atividades nos faz acreditar que se trata de Isaac David Sasso Sasso, ex-presidente da federação costarriquenha.

#18: Dirigente da Fifa envolvido em esquema de corrupção nas eliminatórias da Copa do Mundo na Uncaf (União Centro-Americana de Futebol) em 2011.

#19: Intermediário que operou, junto com outros negócios, um grupo de consultoria baseado na América Latina. Possivelmente brasileiro, já que duas contas do Itaú, uma no Brasil e outra nos EUA, são citadas nos documentos.

#20: Executivo sênior da subsidiária europeia da empresa representada como “Sports Marketing Company C”, multinacional de marketing esportivo com subsidiárias na Europa e nos EUA.

#21: Executivo sênior da subsidiária americana da “Sports Marketing Company C”, multinacional de marketing esportivo com subsidiárias na Europa e nos EUA.

#22: Dono da empresa descrita no documento como “Front Company A”, empresa envolvida em esquema de corrupção nas eliminatórias da Copa do Mundo na CFU (Caribbean Football Union) em 2012.

PRESOS: Veja quem são os cartolas presos na Suíça. José Maria Marin está entre eles

#23: Dirigente da Fifa e da CFU (Caribbean Football Union), além de empresário, conectado com a empresa descrita como “Soccer Uniform Company A”, fabricante de material esportivos envolvida em esquema de corrupção na Gold Cup/Champions League da Concacaf.

#24: Dirigente da Conmebol, além de dirigente da Fifa. Segundo o documento da Justiça dos EUA, “em 2009 ou 2010, um grupo de seis presidentes de membros associados tradicionais e menos poderosos da Conmebol formou um bloco para ter controle sobre as decisões relativas à vendas das propriedades comerciais da Conmebol. O bloco era liderado pelo co-conspirador #24, que tinha relações próximas com a [empresa de marketing esportivo] Full Play e os acusados Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, assim como com o co-conspirador #25 e o acusado Rafael Esquivel”. Ainda segundo o documento, os dois receberam propina da empresa Datisa em troca do uso de marca da Copa América.

#25: Dirigente da Fifa e da Conmebol.

Empresas

Sports Marketing Company A: International Sports Marketing (ISM), empresa sediada em Nova Jersey, EUA.

Sports Marketing Company B: Klefer, de Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo.

Sports Marketing Company C: Empresa multinacional de marketing esportivo com subsidiárias na Europa e nos EUA, empregou os co-conspiradores #20 e #21.

Sportswear Company A: Nike.

Sportswear Company B: Umbro.

LEIA MAIS SOBRE O FIFAGATE:

– Quem são os “co-conspiradores” na investigação do FBI sobre corrupção na Fifa
– De dono do futebol brasileiro a delator: a ascensão e queda de J. Hawilla
– [Vídeo] Romário: “Muitos dos corruptos e ladrões que fazem mal ao futebol foram presos”
– Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa
– Veja quem são os cartolas presos na Suíça. José Maria Marin está entre eles
– Patrocinadores da Copa 2022 têm seus logos recriados para criticar apoio ao trabalho escravo
– Entenda por que o relatório da Fifa que inocentou a candidatura do Catar-2022 é cara de pau
– O que a confusão nos direitos de TV da Copa nos EUA diz sobre a mudança da Copa-2022