Esta coluna muito já falou, ao longo dos últimos meses, sobre o fenômeno social e cultural que promove a aproximação cada vez maior do entretenimento com a vida real, fazendo com que ambos possam até se confundir. É uma das conseqüências do que se conhece por pós-modernidade. E isso, como fica claro, tem uma ligação muito forte visível nos games, evidenciando-se bastante no futebol virtual. E quer maior prova de que isso é verdade do que o acachapante sucesso do famoso Football Manager (FM)?

Há quem confunda o jogo aqui retratado com o Championship Manager (CM). O que não chega a ser lá grande distorção, devido à proximidade de ambas as séries. Afinal, até a versão 2003/04, o produto era feito em conjunto pela Sports Interactive (SI) e a Eidos, até a separação de ambas, em 2003, que acarretou na ‘divisão’ em FM e CM. Acontece que, no fim, quem levou a melhor foi a empresa que, de fato, fora a criadora do jogo, lá na era 8 bits: a SI, que ficou com a riquíssima database do game. Até por isso, falar de Football Manager como um jogo solto, sem conexão com o seu “sucessor” é difícil, embora haja quem, por ser muito fã do CM “tradicional”, encare FM como um “genérico”. Será?

Nunca se entrou muito nos detalhes que permearam a ruptura entre as companhias. O que se sabe é que foi uma “separação relativamente amigável”, com a alegação de que “os estilos eram diferentes”. Explicação, evidentemente, pouco convincente. A mídia especializada no mercado de jogos eletrônicos chegou a poucas conclusões. Sabe-se, porém, que a Eidos estava em vias de ser vendida, já em situação financeira complicada e extremamente dependente da série CM. Enquanto isso, a SI já era sondada para atuar em parceria com a Sega — que a adquiriu em 2006. Há dúvidas de que tais circunstâncias foram essenciais?

Como dito, o que dizia respeito ao acervo do game ficou com a Sports Interactive, enquanto a Eidos manteve a alcunha Championship Manager. O fato gerou certa tensão nos fãs da série, já que a crescente evolução da franquia passava a ser uma verdadeira incógnita a partir daquele momento. Como seria o jogo sem a database monstruosa da SI? Será que um possível software que viesse da nova rival da Eidos no mercado iria emplacar contra o já consagrado nome CM? Mas a principal questão era se a série, de fato, seria reiniciada, e, se sim, de que forma isso seria feito — e por quem.

Acontece que, embora, na verdade, a grife estivesse com a Eidos, a empresa inglesa não se organizou nem se preparou adequadamente para competir. Adiou o quanto pode o lançamento do esperado CM 5, e viu, ainda em 2004, a ex-parceira anunciar Football Manager 2005, game que levaria a alcunha daquele que foi um dos precursores do gênero para o extinto ZX Spectrum, em 1982. Para aquele game, o sistema era simples: escolhia-se um time da quarta divisão e se tentava promovê-lo à elite. No Brasil, o modo se notabilizou no famoso Elifoot, com a diferença de que a equipe era escolhida por sorteio.

Dali em diante, a franquia, desenvolvida por Kevin Toms, que, em sua carreira, também desenvolveria versões específicas managers para o campeonato de futebol da Nova Zelândia (!!), passou a ter continuações, baseando-se em atualizações da liga inglesa, até 1993, quando um fracasso nas vendas resultou no fim dos trabalhos. Resgatar esse nome, que, de certa forma, já tinha certa credibilidade no meio futebolístico virtual, e mostrar que detinha o verdadeiro “mojo” do que era o game, eram os objetivos da SI. E que, como se viu, foram muito bem cumpridos.

Embate sem graça

Como supracitado, a Eidos demorava para lançar o novo Championship Manager, chegando a adiar o lançamento para 2005. Melhor para a Sports Interactive, que, já em 2004, colocou no mercado sua grande aposta: Football Manager 2005. Desenvolvido por Paul e Oliver Collier, fundadores da SI, criadores oficiais do CM e responsáveis por tornar o game o mais bem vendido da história no Reino Unido (leia-se Europa), o jogo se destacava pelo aprimoramento de artifícios visuais e principalmente de conteúdo. Impressionava principalmente pela exatidão na captura de informações referentes às equipes, mesmo as mais escondidas, e superava, de longe, qualquer outra versão já desenvolvida para o gênero.

Claro que havia alguns “bugs”, como a enorme quantia financeira que muitos clubes brasileiros tinham (algo bastante comum até, por exemplo, o CM 2001/02 — até hoje o mais celebrado da série). Era curioso escolher a Portuguesa Carioca e ter à disposição mais de R$ 700 mil para transferências… Também na liga nacional, havia um erro na configuração da Copa do Brasil, já que todos os times participavam, jogando ao estilo FA Cup, com os grandes entrando aos poucos. Isso seria corrigido em seguida, e, nas versões de hoje, o software já segue exatamente os critérios aqui utilizados para a ida de um determinado time para a competição, com base na classificação do Estadual.

Além disso, o jogo também sofreu com a questão dos direitos de imagem. Os casos mais conhecidos foram os do goleiro Oliver Kahn, que impediu que seu nome fosse veiculado no jogo, e o da liga japonesa, que não foi licenciada. Curiosamente, Kahn foi “transformado” em Jens Mustermann. O troco veio de maneira bastante perspicaz. Mustermann significa “homem comum, irrelevante”, enquanto Jens tem ligação direta com o arqueiro Jens Lehmann, rival evidente do alemão.

O jogo foi um enorme sucesso, tanto por aqui como e principalmente em terrenos europeus. Ficava evidente quem era realmente o dono da bola do CM. Por muitas semanas e meses, o jogo esteve entre os mais vendidos — segurando a liderança — do Velho Continente. Championship Manager 5? Bom, esse demorou para sair da forma, e veio lotado de erros. A liga brasileira, por exemplo, ora tinha determinado time na Série A, ora na B. Um bug tremendamente agressivo aos olhos de quem esperou por tanto tempo a continuação da série. Depois dessa, dá para classificar CM 5 como o sucessor da ótima versão 2003/04, a última com a participação da SI?

A alcunha Football Manager tinha chegado para ficar. Em dois anos, a série já vendera mais de 1,5 milhões de unidades, de acordo com o site Gamasutra, tornando-se a segunda de vendagem mais rápida na Europa até hoje. Milhões de fóruns e sites surgiram referindo-se exclusivamente ao novo jogo da Sports Interactive. Aqueles cujo assunto principal era o CM, abriram-se cada vez mais ao FM, tornando-o a principal ferramenta de dados, updates, patches, etc. Repercussão essa que afetou muito países como Brasil e Portugal, onde a franquia é de imenso grado.

E mesmo os mais fãs da série que está sob cuidados da Eidos acabam preferindo ficar com os jogos mais antigos da franquia, como e principalmente o CM 01/02. A maior prova é que, justamente no site oficial do game, há um link para download gratuito do jogo lançado em 2001. E a fase é tão complicada que o novo software da série ainda não foi lançado, e a previsão se estendeu para junho, segundo as últimas notícias referentes ao assunto.

Enquanto isso, FM dá goleada não apenas no rival direto, mas em muitos outros games para PC. Recordam-se da última relação de jogos mais vendidos? Notem que a presença de FM 2009 é bastante maciça, ocupando, por muitas vezes, a liderança da semana. E esse sucesso começa a chegar nos consoles, após uma passagem não muito bem sucedida pelo Xbox 360. Tanto que o Football Manager Handheld, para PSP, passou a surgir com frequência na lista dos mais vendidos para o aparelho portátil da Sony. E com razão, já que, dentro das limitações do pequeno vídeo-game, faz maravilhas.

Com isso tudo, fica a pergunta: quem é realmente o genérico da história?

Rivais

Que o jogo da SI e da Sega é disparado o mais forte do meio manager, não há dúvidas. Que Championship Manager, apesar de tudo, é a franquia (considerando FM como seu imediato sucessor desde 2005, evidentemente) mais famosa e grandiosa do estilo, a discussão também é ínfima. Mas ao longo do tempo, alguns jogos tentaram “ameaçar” esse domínio, e angariaram uma interessante legião de fãs e simpatizantes. FIFA Manager e LMA Manager serão assuntos futuros por aqui.

Vendagens das últimas duas semanas (apenas jogos de futebol)

Fonte: Gamasutra

Dados de 10/04 (1ª semana)

Xbox 360 – Reino Unido (Europa)

1.FIFA 09 (EA Sports), 2. Grand Theft Auto IV (Rockstar), 3. Gears of War 2 (Microsoft), 4. Call of Duty 4: Modern Warfare — Game of the Year Edition (Activision), 5. Left 4 Dead (EA Games).

PlayStation 2 – Reino Unido (Europa)

1. SingStar: Queen (SCEE), 2. SingStar: ABBA (SCEE), 3. FIFA 09 (EA Sports), 4. Shin Megami Tensei: Persona 4 (Square Enix), 5. Call of Duty: World at War — Final Fronts (Activision).

PC – Reino Unido (Europa)

1. Company of Heroes: Tales of Valor (THQ), 2. Warhammer 40,000: Dawn of War II (THQ), 3. Football Manager 2009 (Sega), 4. Empire: Total War (Sega), 5. Left 4 Dead (EA Games).

PlayStation Portable (PSP) – Reino Unido (Europa)

1. FIFA 09 (EA Sports), 2. Resistance: Retribution (SCEE), 3. Lego Batman (Warner Bros.), 4. God of War: Chains of Olympus — Platinum Edition (SCEE), 5. Grand Theft Auto: Vice City Stories — Platinum Edition (Rockstar).

Dados de 17/04 (2ª semana)

Xbox 360 – Reino Unido (Europa)

1. Grand Theft Auto IV (Rockstar), 2. Call of Duty 4: Modern Warfare — Game of the Year Edition (Activision), 3. Fable II (Microsoft), 4. The Godfather II (EA Games), 5. FIFA 09 (EA Sports).

PlayStation 3 – Reino Unido (Europa)

1. LittleBigPlanet (SCEE), 2. Grand Theft Auto IV (Rockstar), 3. FIFA 09 (EA Sports), 4. Resident Evil 5 (Capcom), 5. Killzone 2 (SCEE).

PlayStation 2 – Reino Unido (Europa)

1. SingStar: Queen (SCEE), 2. SingStar: ABBA (SCEE), 3. FIFA 09 (EA Sports), 4. Guitar Hero III: Legends of Rock Bundle (Activision), 5. Call of Duty: World at War — Final Fronts (Activision).

PC – Reino Unido (Europa)

1. Football Manager 2009 (Sega), 2. Company of Heroes: Tales of Valor (THQ), 3. Empire: Total War (Sega), 4. Warhammer 40,000: Dawn of War II (THQ), 5. World of Warcraft: Wrath of the Lich King (Blizzard).

PlayStation Portable (PSP) – Reino Unido (Europa)

1. FIFA 09 (EA Sports), 2. Resistance: Retribution (SCEE), 3. Ben 10: Alien Force (D3 Publisher), 4. Patapon 2 (SCEE), 5. God of War: Chains of Olympus — Platinum Edition (SCEE).