Quem dá mais por uma vaga na primeira divisão mexicana?

Levando em conta apenas o poder financeiro dos clubes, futebol mexicano esquece lado esportivo e desvaloriza o torneio nacional

Alguns dos grandes problemas enfrentados pelas ligas e competições nacionais mundo afora são os formatos esdrúxulos, nível técnico abaixo do esperado e pouca atratividade de público. São questões com as quais a Liga MX pouco tem se preocupar.

Com um formato de mata-mata consolidado, boa média de público e clubes com dinheiro em caixa para investir, notadamente no mercado sul-americano, o principal torneio azteca agrega inúmeras razões para se desenvolver como disputa de primeiro nível. Uma de suas características mais amadoras, contudo, é a insegurança que o foco no poderio econômico dos investidores gera em clubes, torcedores e cidades onde estão localizadas as franquias mexicanas.

Um bom exemplo pôde ser visto logo após o fim do Clausura. Mesmo rebaixado pela média de pontos nas três últimas temporadas, o Querétaro manteve-se na Primera División graças ao poder econômico de seu dono, o controverso empresário Amado Yáñez, que comprou a franquia localizada em Chiapas, transferiu-a para o estado de Querétaro e garantiu a permanência dos Gallos Blancos na elite. Em outras palavras, “comprou” a manutenção do clube no topo do futebol mexicano.

Os problemas decorrentes da ação são óbvios. Além da falta de credibilidade passada pela anuência da Femexfut com a operação, a atitude fere o âmbito esportivo de forma acintosa, e já gerou desconforto até mesmo em alguns dirigentes da FIFA. O sinal passado pela entidade que rege o futebol mexicano é de que rebaixamentos e promoções dependem mais do potencial econômico do que propriamente do valor esportivo.

O passado e a tradição de equipes que há anos disputam o primeiro nível do futebol mexicano, representando o país em disputas internacionais e com um público consolidado é deixado de lado ao menor sinal de recursos vindos de outra parte do país. Torcedores, estruturas e tradições ficam relegados a um segundo plano, algo que acaba jogando contra a própria tradição do futebol azteca.

Isso, claro, sem levar em consideração a possibilidade de abrir suas atividades a aventureiros ou até atividades ilícitas. Principal acionista e diretor da empresa Oceanografía, multinacional do ramo petrolífero e responsável pela compra da nova franquia, o empresário Amado Yáñez entrou com força no mercado de futebol azteca em um intervalo de menos de um ano, investindo um montante de 12 milhões de dólares em franquias subvalorizadas ou de baixo valor por estarem em divisões inferiores, como o próprio Querétaro e o Neza FC, transformado no novo Delfines del Carmen (que militará na Liga de Ascenso), além de adquirir todo os elenco do Pumas Morelos, filial da tradicional UNAM, recém-encerrada com a queda para o terceiro nível local.

Acusado de lavagem de dinheiro e tráfico de influência, Yáñez deixa com o pé atrás até mesmo parte de seus pares, investidores do porte de Carlos Slim, Emilio Azcárraga e Ricardo Salinas, empresários poderosos do futebol local que, mesmo distantes de passar uma imagem idônea, consideram extremamente prejudiciais as movimentações realizadas pelo novo dirigente.

A anuência de Decio De María, homem-forte da Liga MX, com as ações do novo investidor colocam em cheque, inclusive, a medida divulgada em maio pela entidade que rege o futebol mexicano de pôr fim ao conceito de multipropriedade de clubes por grupos como Televisa, TV Azteca e Pegaso, que hoje mantém mais de um clube no cenário local. Tida como um avanço na competitividade do torneio, a medida passa a ser vista com ressalvas por imprensa e torcida.

Outro problema que passou longe de ser considerado é estabilidade das novas agremiações: o próprio Chiapas, criado após a extinção do Jaguares, adquiriu 21 novos jogadores no Draft da intertemporada e terá de se virar para encontrar entrosamento entre todas as suas peças, começando praticamente do zero um novo projeto que rendia frutos à cidade nas últimas temporadas, com duas disputas de playoffs seguidas e a formação de elencos que impulsionavam o futebol local.

Não dá para dizer que as mudanças certamente trarão resultados ruins para o futebol mexicano. Mas a própria história do futebol local, repleto de extinções de clubes tradicionais e pouca estabilidade de agremiações que surgem a cada ano, parece indicar esse caminho. Enquanto a própria Femexfut não exigir mais clareza dos novos donos e tratar com mais seriedade o seu principal produto, o futebol azteca, seus clubes, suas histórias e seus torcedores ficarão reféns do dinheiro e da boa vontade de alguns poucos empresários.

Abaixo, fizemos um resumo das mudanças já certas (ao menos até aqui) para a primeira e a segunda divisão mexicana na próxima temporada:

Liga MX

– Querétaro (rebaixado) comprou a vaga da franquia Jaguares de Chiapas e permanece como Querétaro FC;

– San Luis mudou-se para Chiapas, ocupando a vaga do antigo Jaguares com o nome de Chiapas FC;

– O CF Reboceros de La Piedad (promovido) foi comprado pelo governo de Veracruz, mudou-se para a capital do estado adquirente e tornou-se o CD Tiburones Rojos de Veracruz, que retorna à Primera División depois de dois anos no segundo escalão;

Rebaixamentos: nenhum (Querétaro caiu, mas permaneceu)

Promoções: dois (Veracruz por meio do La Piedad e Chiapas por meio do San Luis)

Extinções: uma (San Luis)

Liga de Ascenso

– Para compensar desaparecimento do San Luis, a franquia antes utilizada pelo Veracruz na segunda divisão foi transferida para a cidade potosina, formando um novo clube: o Atlético San Luis;

– O Neza FC, vencedor do Clausura, mas derrotado na disputa pela promoção pelo agora extinto La Piedad, transferiu-se para o estado de Campeche, dando origem ao CF Delfines del Carmen;

– O tradicional Zacatepec, bicampeão nacional, comprou a franquia CD Irapuato e obteve a vaga na segunda divisão;

Da Liga MX

Rebaixamentos: nenhum (Querétaro caiu, mas permaneceu)

Novos clubes: um (Atlético San Luis, utilizando a antiga franquia de Veracruz)

Da Segunda División

Rebaixamentos: um (Pumas Morelos)

Promoções:duas (CF Ballenas Galeana por vias esportivas e Zacatepec por vias econômicas)

Extinções: três (Neza, Irapuato e La Piedad)

Novos clubes: um (CF Oaxaca)