*Por Joshua Law

Enquanto alguns clubes da Premier League estão afastando e reduzindo salários dos seus funcionários de base – aqueles que trabalham na cozinha, limpam o centro de treinamento, ou servem bebidas nos estádios; os que ganham mal mesmo em tempos normais –, os atletas que recebem milhões de libras por ano demoram a aceitar um corte na sua renda.

Uma parte da mídia e alguns políticos têm apresentado a situação como uma dicotomia clara: se os jogadores aceitassem uma redução, evitariam afastamentos e protegeriam a saúde financeira dos trabalhadores menos bem remunerados.

O ministro da Saúde, Matt Hancock, falou ao vivo na televisão que os jogadores devem “fazer a sua parte e aceitar um corte no salário”. O seu colega de partido, Julian Knight, apontou para um “vácuo moral” no coração da Premier League. No Daily Mail, o jornalista Ian Herbert escreveu: “O que realmente ultrapassa a compreensão num momento como este é a aparente incapacidade de qualquer jogador naquele mundo dourado a enxergar como iria parecer [melhor] se ele sacrificasse só uma pequena parte do seu pagamento”.

Para muitos, é uma mostra da ganância e falta de bom senso que tem caracterizado jogadores profissionais da primeira divisão inglesa desde a explosão de salários, no começo dos anos 2000. Para a liga, é um desastre de relações públicas. Mas a principal responsabilidade não é dos atletas. Quase todos os críticos estão atirando suas palavras na direção do alvo errado.

O aporte do governo

Muito do desgosto gerado por este caso vem do fato de o governo estar cobrindo uma grande parte do salário dos funcionários afastados pelos clubes.

Depois do fechamento de todas as empresas, lojas e restaurantes não essenciais, o governo britânico colocou em prática um esquema para preservar empregos e negócios de pequeno e médio porte durante a pandemia do novo coronavírus.

Com o projeto, as empresas podem afastar os seus empregados que não têm como trabalhar de casa, e o governo paga 80% dos salários deles até um limite de £ 2.500 mensais. Os donos e executivos de Liverpool, Newcastle, Tottenham, Bournemouth e Norwich, sem dinheiro entrando em caixa, decidiram se aproveitar disso para reduzir os gastos de seus clubes.

Claramente, o esquema não foi pensado para proteger os riquíssimos clubes da Premier League. São empresas com uma renda boa e confiável, que dificilmente vão falir por causa da recessão econômica resultante da pandemia atual. O uso de dinheiro público para cobrir os seus custos enquanto pagam centenas de milhares de libras por semana a alguns jogadores, então, é realmente indefensável. E os jogadores, como a face pública de uma liga que está nadando em dinheiro, são um alvo fácil. São famosos, jovens, barulhentos e ricos.

Os responsáveis

Mas a decisão de afastar os funcionários não veio dos atletas. Veio de cima. Veio de uma classe de pessoas muito – mas muito – endinheirada, especialmente nos casos de Liverpool, Newcastle e Tottenham. John Henry, proprietário dos Reds, tem fortuna avaliada em £ 2,04 bilhões. Mike Ashley, dono do Newcastle, possui empresas avaliadas em quase £ 2 bilhões, enquanto Joe Lewis, proprietário do Tottenham, tem uma fortuna estimada de £ 4,4 bilhões. Usando somente uma pequena parte desta grande reserva de dinheiro, Henry, Ashley e Lewis poderiam facilmente cobrir os salários dos seus funcionários, sem se apoiar no Estado, que poderia investir esse dinheiro em saúde e educação.

Mas é difícil esperar o melhor deles. Mesmo depois da quarentena imposta pelo governo, Ashley, um homem com uma longa história de violações trabalhistas, forçou os funcionários das suas lojas de material esportivo a comparecer ao trabalho, alegando ser um “serviço essencial”. Lewis mora nas Bahamas justamente para não pagar impostos no Reino Unido, o país onde cresceu e fez a sua fortuna.

Tottenham, um clube que teve lucro de £ 87 milhões na temporada passada, emitiu uma nota oficial desprezível na quarta-feira, assinada pelo diretor executivo Daniel Levy. Nela, Levy disse: “Nós tomamos a decisão difícil – para proteger empregos – de reduzir a remuneração de 550 diretores e funcionários, não jogadores, em 20% em abril e maio, utilizando, onde for apropriado, o esquema do governo”.

Para proteger empregos? Usando o esquema ‘onde apropriado’? Se Levy, que ganhou £ 7 milhões no ano passado, incluindo um bônus de £ 3 milhões para a construção do novo estádio, fosse um líder de verdade, cortaria o próprio salário para proteger os menos bem pagos e evitar que o clube usasse o dinheiro do contribuinte.

E, para os políticos como Hancock e Knight que dizem que jogadores têm a responsabilidade de proteger salários dos mais pobres, vou ser bem claro: ninguém quer ouvir conselhos morais de mal-intencionados e egoístas como vocês.

Como Andy Dunn, jornalista do Daily Mirror, bem destacou, Knight literalmente escreveu um livro explicando como sonegar impostos. E Hancock, miserável e incompetente ministro que é, não consegue fornecer materiais protetivos adequados aos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao vírus. Ambos fazem parte de um partido que, há uma década, reduz o orçamento do Serviço Nacional de Saúde.

Papel dos Jogadores

No outro lado, muitos jogadores poderiam contribuir, é verdade. Têm recursos para tal. E, ao contrário do que jornalistas como Ian Herbert pensam, estão plenamente cientes disso. Muitos jogadores de vários clubes têm feito doações expressivas a caridades e hospitais nos arredores dos seus estádios ou suas cidades natais.

Porém, em termos de uma redução salarial que abrange todos, os atletas estão negociando coletivamente através do seu sindicato. É a coisa certa de se fazer, independentemente do ramo de trabalho, e implica uma certa demora. Não é só aceitar uma redução; tem que discutir condições de trabalho na volta à normalidade e, mais significativamente, onde o dinheiro economizado dos seus salários será investido. Vai proteger os salários dos diretores, vai ser desperdiçado com empresários e transferências, ou vai ser usado para ajudar ONGs e hospitais locais?

Também não é tão simples como dizer que todos têm que aceitar um corte de 30%, o sugerido pelos organizadores do campeonato. Vou usar o jogador do Tottenham Japhet Tanganga como exemplo. Subiu recentemente da base e recebe £ 1 mil por semana. É um pobre coitado? Claro que não, já que £ 52 mil por ano é um salário bom. Mas em uma cidade onde o aluguel mensal médio é por volta de £ 1.700, também não é uma fortuna.

Mesmo em tempos normais, muitos jogadores apoiam boas causas, ou, no caso de muitos sul-americanos, amparam grandes famílias e grupos de conhecidos que antes moravam em condições financeiras difíceis. Eu, pessoalmente, gostaria muito de saber se os sonegadores de impostos Mike Ashley e Joe Lewis ou os políticos Knight e Hancock fazem o mesmo.

Atacar os jogadores é um reflexo da nossa sociedade. Questionamos o direito de alguns jovens, muitos dos quais foram criados em famílias de baixa renda, de ganhar um salário extremamente bom, enquanto grande parte da mídia e políticos ignoram aqueles que realmente têm poder, influência e força financeira.

*Joshua Law é um jornalista britânico radicado no Brasil, criador do site Yellow and Green Football e já teve seu trabalho publicado no Guardian e na Forbes Sports.