O homem que proferiu a frase que o Brasil precisava de um chute no traseiro acabou ele mesmo chutado da entidade da qual fazia parte. Jérome Valcke foi demitido da Fifa nesta quarta-feira, depois de estar suspenso desde setembro por suspeitas de envolvimento em atos de corrupção no cargo que ocupou, o mais alto depois do presidente. Valcke, o braço direito de Joseph Blatter, ganhou o que merecia diante da sua postura sempre arrogante, mesmo quando apontava algo que tinha razão. Mais do que isso, sua queda é um chute no traseiro do “padrão Fifa” e do modo como a instituição máxima do futebol passou a trabalhar, sem cuidar do esporte que a fez existir.

LEIA TAMBÉM: Como Jérôme Valcke caiu e por que ele não fará falta ao futebol

Acusado de vender ingressos da Copa do Mundo com intenção de lucro, o seu afastamento já dava um indício que o seu tempo na Fifa tinha acabado. No dia 7 de janeiro, o Comitê de Ética da Fifa abriu procedimento legal contra o dirigente por suposto “uso indevido de despesas e outras infrações às regras e regulamentos da Fifa”. A recomendação mínima do Comitê foi de banimento de nove anos e multa de 100 mil francos suíços.

Nesta quarta, a Fifa anunciou a demissão de Valcke. “O Comitê de Emergência da Fifa decidiu, no dia 9 de janeiro de 2016, demitir Jérôme Valcke da sua posição de secretário-geral da Fifa com efeito imediato”. A saída do francês é muito simbólica em relação ao que era a Fifa e como agia o órgão máximo do futebol mundial nos últimos anos.

Jérome Valcke era o homem forte de Joseph Blatter desde 2007, quando assumiu o cargo de secretário-geral. Foi, portando o profissional da Fifa que lidou com a África do Sul e o Brasil na organização das Copas do Mundo de 2010 e 2014. Ele se tornou o guardião do modus operandi da Fifa, do chamado “padrão Fifa” e da forma como a organização lidava com a sua principal competição, desde a escolha da sede até a hora da bola rolar – o que, para os dirigentes, parecia ser a pior parte do processo.

Por aqui, viveu entre tapas e beijos com o Comitê Organizador da Copa de 2014 e mais aos tapas que aos beijos com o governo brasileiro, sempre criticando os atrasos e os problemas daqui. Soltou a polêmica frase que “O Brasil precisava de um chute no traseiro” para as obras da Copa andarem, em 2 de março de 2012. Na época, falou nos preparativos brasileiros estarem em “estado crítico”. Foi uma guerra aberta com o governo, que respondeu com o então Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que afirmou publicamente que não queria mais Valcke como interlocutor da Fifa para falar sobre a Copa. Claro, não foi atendido.

Um dos grandes problemas entre a Fifa, representada quase sempre na figura de Jérôme Valcke, e o governo brasileiro era em relação ao excesso de gastos e ao o dirigente francês da Fifa considerava um excesso de burocracia. Não por acaso ele soltou uma outra frase que se tornou famosa e mostrava, em parte, como a Fifa gostava de agir.

“Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, assim como Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”, declarou Valcke.

Foi uma pequena demonstração do que a Fifa pensa em termos de organização da Copa do Mundo e porque países como a Rússia e o Catar, de política altamente centralizada nas mãos de poucos governantes, sem precisar de diversas instâncias democráticas de revalidação de decisões como é o Brasil ou seriam países como os Estados Unidos, candidato a sediar a Copa de 2022 no lugar do Catar.

O secretário-geral da Fifa era o responsável pelas ações da entidade e a sua atuação foi muito nociva para a Copa do Mundo, ao menos aquela que os torcedores imaginam. Valcke sempre foi um trator que tentou passar por cima das organizações que iam contra a Fifa, o que incluiu governos, como foi o Brasil. E olha que o governo brasileiro, embora já tivesse problemas, era muito mais forte politicamente naquela época e tinha força para peitar. Tanto que a Copa do Mundo não foi nos termos que a Fifa queria e a aprovação da Lei Geral da Copa, embora tenha ainda sido muito favorável à Fifa, poderia ter sido ainda pior. Se fosse com a crise política atual, é provável que tudo que a entidade quisesse fosse aprovado sem dificuldades.

Nós mostramos neste texto de setembro como foi que Valcke caiu. Não fará falta ao futebol, como escrevemos na época, mas dá para dizer que vai além: Valcke representa uma parte importante da Fifa que está desmoronando e que foi construída por João Havelange e Blatter. E tudo tem que vir para o chão para que haja alguma chance de um recomeço.