O nome da competição, por si, já transmite uma mensagem bastante profunda. A Copa Libertadores exalta um momento primordial na formação da identidade dos países sul-americanos. A independência (especialmente nos países de colonização espanhola) se fez a partir de um movimento contínuo, que contou com personagens atuantes em diferentes regiões. Não à toa, alguns heróis nacionais se repetem em diferentes países. Episódio que marca a integração dos povos que tem suas diferenças entre si, mas possuem o mesmo passado escrito com sangue. E que, em partes, também celebram esta união todos os anos na principal competição de clubes das Américas.

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A lição dos libertadores, no entanto, nem sempre é respeitada. Mas, nesta quarta, Óscar Romero tomou uma atitude para preservar o princípio de união que regeu a formação do continente. E, mais importante do que isso, tentou dar um basta na discriminação que se repete dentro dos estádios de futebol. O meia se rebelou contra os próprios torcedores que entoavam um cântico xenofóbico.

Durante o primeiro tempo da goleada do Racing sobre o Bolívar, parte da torcida no Cilindro começou a cantar uma música tradicional contra o Boca Juniors – também adversário no grupo. A letra defende a exploração de bolivianos, os adversários da noite, e também de paraguaios. Romero se sentiu ofendido com a referência negativa ao seu povo e se virou às arquibancadas, fazendo “não” com os dedos e pedindo silêncio. Então, outra parte dos albicelestes começou a gritar o nome do camisa 10, que acenou em agradecimento. O paraguaio terminou a noite como um dos melhores do jogo, participando diretamente nos quatro gols da Academia.

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Na saída de campo, Romero comentou o incidente: “Eu não sou ninguém para mudar o cântico das pessoas. É maravilhosa a torcida do Racing. Mas eu, como paraguaio, não gosto de ser discriminado. Creio que depois entenderam e mudaram”. E manteve o discurso em entrevista à rádio ABC Cardinal, de seu país. “Foi um momento incômodo para mim, doeu muito escutar algo contra meu país. Cheguei com toda a vontade de ajudar o clube, mas vou defender meu país quando escutar algo assim”.

Além disso, o meia de 23 anos fez uma colocação importante contra a xenofobia e a discriminação nos estádios: “Isso não é bom para o futebol. Muitos dizem que é folclore, mas para mim não é assim. Espero que não cantem mais. Eram poucos que cantavam isso, mas a gente do Racing entendeu e os meus companheiros deram apoio. Não falo só por mim, essas coisas não ajudam o futebol. Espero seguir da mesma maneira”.

A xenofobia ouvida no Cilindro, aliás, acontece com certa frequência na Libertadores – inclusive há uma semana no Pacaembu, contra a torcida do Strongest, no duelo com o São Paulo. E o posicionamento de Romero se faz importantíssimo, até por ser tão raro no futebol. O jovem colocou em risco sua própria trajetória no clube ao encarar os barras. Ganhou como resposta o apoio daqueles que reconheceram o erro e o apoiaram. La Academia já deu tantos espetáculos no Cilindro, não precisa proclamar o preconceito apenas em uma mesquinha “demonstração de superioridade” – contra os rivais e as minorias. A insurgência do camisa 10, enfim, expõe no palco principal também a dor do oprimido, e não apenas a voz do opressor.

Romero não era o alvo direto dos insultos. Assim como não são muitos daqueles que se sentem ofendidos com os cânticos discriminatórios do futebol. Que a intenção não seja essa, o ataque ao clube rival neste sentido ajuda a perpetuar o preconceito. A música no Cilindro atingia o Boca Juniors, mas também legitimava a exploração dos bolivianos e paraguaios. Por mais que Romero seja adorado, a realidade histórica de seus compatriotas não é assim. Como escreveu Martín Estévez, em ótimo artigo publicado no site da revista El Gráfico, “não importa aonde nasceram, são pessoas, e cantar simpaticamente apoiando essa opressão não é folclore, é cumplicidade”.

O estádio de futebol é um ambiente perfeito para amplificar vozes. Muitas vezes, na luta por liberdade – como o próprio Racing serve de exemplo, ao ser um dos primeiros times formados para exaltar a cultura criolla argentina. Mas que também pode ratificar preconceitos. Romero, por sua vez, aproveitou a sua visibilidade como jogador de futebol para se manifestar. Que a torcida do Racing perceba a ofensa e deixe de corroborar a exploração. Que outros jogadores se manifestem contra a opressão, mesmo sem se sentirem atacados. Que outras torcidas não precisem de um Romero para perceberem a discriminação recorrente. Que cessem os cânticos, e não em respeito ao ídolo, mas ao próximo que sente a mesma dor.