Quando Pablo Horacio Guiñazú assinou com o Talleres, a quem via de fora, parecia um mero final de carreira opaco ao respeitado volante. A assinatura aconteceu em janeiro de 2016, poucos meses antes que o veterano completasse 38 anos. Ele ainda oferecia seu máximo ao Vasco, como sempre lhe foi inerente, mas a idade não deixava enganar que a aposentadoria se aproximava. Enquanto isso, La T atravessava um momento de pretensões modestas no Campeonato Argentino, longe da primeira divisão desde 2004 e com direito a duas passagens pela terceirona neste intervalo, a última em 2015. No entanto, há razões no futebol que só o coração explica. E no âmago de Guiñazú, assim como no pulso dos torcedores cordobeses, era impossível desacreditar na saga gloriosa que o destino arquitetava. Se El Cholo naturalmente entregava suor e sangue a qualquer camisa que vestisse, seja ela de um campeão da América ou de um time de bairro, ele faria isso ainda mais no clube de sua infância e depois de uma fatídica promessa ao pai falecido. Enquanto isso, a fanática massa albiazul veria o mais fiel representante de sua paixão em campo. Da segunda divisão, o caudilho Guiñazú e seu exército desbravam os caminhos do continente através da Libertadores. A classificação sobre o São Paulo é um grito que ecoa.

A trajetória que Guiñazú construiu no futebol sul-americano ao longo deste século já o colocava invariavelmente na história. Rodou um pouco mais em seus primeiros anos como profissional, surgindo no Newell’s Old Boys e ajudando o Independiente a ser campeão argentino. Tentou a sorte no Perugia e no Saturn, mas a Europa não parecia compreender aquele futebol carnal e totalmente sul-americano. Assim, caberia ao argentino desembarcar no Paraguai e transformar o Libertad em um clube respaldado no continente, como nunca havia sido. De lá arrumou as malas ao Beira-Rio, campeão da Libertadores e da Sul-Americana com o Internacional. Um jogador que todo colorado para sempre venerará, e não necessariamente pelos feitos, mas pela entrega abnegada em cada jogo. Depois disso, houve ainda um rápido retorno ao Libertad e, no Vasco, encarou tempos difíceis. Todavia, por mais que a energia sobrasse, a idade era implacável. E o último ato seria mesmo o desembarque em sua Córdoba natal, para envergar a camisa que sempre sonhou.

A chegada de Guiñazú ao Talleres provocou grande repercussão na imprensa argentina. Embora viesse em um pacotão de reforços dos cordobeses, o volante elevava o sarrafo da segunda divisão. Afinal, embora tenha recebido menos chances que o merecido, era um jogador de seleção e que ganhou a confiança de diferentes técnicos na Albiceleste – Marcelo Bielsa e Alejandro Sabella, além de José Pekerman na base. La T trazia um dos grandes em meio ao seu projeto de reconstrução, logo após deixar a terceirona. Porém, a verdadeira motivação de Guiñazú não estava descrita nas fichas técnicas, e sim encarnada nas entranhas. Jogar pelo clube que alimentou seus sonhos de menino sempre é um ponto importante, mas havia mais. O pai do veterano havia falecido recentemente. Seu último compromisso foi o de que encerraria a carreira na agremiação, aquela que servia de pretexto para compartilharem o amor entre pai e filho.

“Não sabe a alegria que tenho de voltar. Faz 20 anos que sou profissional e sempre joguei longe. Volto à minha província para conquistar o acesso e me aposentar no Talleres. Prometi ao meu pai antes de sua morte, no ano passado, que ia me retirar em Córdoba. E vou poder cumprir. Como não vou estar feliz?”, declarou Guiñazú, logo em sua apresentação. Palavras fortes que não demorariam a se cumprir e certamente orgulharam o velho, onde quer que estivesse. Escolheu inicialmente a camisa 21, referência ao seu ídolo Zinedine Zidane, a quem teve o prazer de enfrentar nos tempos de futebol italiano.

O começo não seria fácil. Durante a pré-temporada, Guiñazú tomou uma cotovelada que provocou uma fratura dupla na mandíbula. Ainda demorou um bocado até estrear na segunda divisão do Campeonato Argentino. Porém, não precisou de tempo para se transformar na grande liderança de La T rumo à elite. A equipe arrancou em uma campanha irretocável. Abriu oito pontos de vantagem na liderança e, em 5 de junho de 2016, poderia conquistar o acesso por antecipação. Um dia que ficará marcado na memória dos torcedores. Até parecia que a festa ficaria para outro dia, quando o All Boys aproveitou sua vantagem numérica após uma expulsão e abriu o placar aos 37 do segundo tempo. Dois minutos depois, Gonzalo Klusener empatou aos cordobeses. Mas aquela ocasião histórica só poderia ter um herói. Que não fosse de fazer muitos gols, que os carrinhos fossem bem mais passíveis de suas vibrações, Pablo Horacio abriu uma exceção desta vez.

Um relâmpago ganhou os céus da Argentina, saindo dos pés do capitão. O chute de fora da área, aos 50 do segundo tempo, nem deu tempo de reação ao goleiro. Ele só veria a bola estufar as redes. Guiñazú não se conteve na comemoração, como havia de ser. Era o seu primeiro gol desde 2009. Era o gol do acesso. Era a promessa cumprida e extrapolada ao pai, poucos meses depois. O veterano se ajoelhou no gramado, encostou o rosto na grama, começou a chorar. Os companheiros pulavam por cima do herói. Depois de 4354 dias de espera, o Talleres pode se afirmar novamente como um time de primeira.

“Meu pai queria isso. E esse gol, esse final contra o All Boys, esse título que ganhei com o Talleres, é capaz que ele tenha me ajudado a isso lá de cima. Ele sonhava com isso que consegui”, declarou em 2016, durante entrevista ao jornal Día a Día. “Eu te digo algo: meu título com o Talleres foi melhor do que ter ganhado a Libertadores. Ganhei tudo como jogador, faltou apenas o Mundial de Clubes, mas te juro que trocaria tudo por isso que me passou contra o All Boys. Foi um momento mágico, único, algo muito significativo pessoalmente e profissionalmente. É o melhor sentimento que já tive como jogador”.

Para Guiñazú, sua história no futebol poderia ter se encerrado ali, naquela tarde gloriosa. E, aos 38 anos, o veterano estava resoluto em se aposentar a partir de então. Tirou férias com a família e, em Punta Cana, avisou a esposa que não jogaria mais. Eis que entra em ação uma heroína não tão reconhecida ao Talleres: Érica. Foi ela quem convenceu o volante a mudar de ideia e a retomar a rotina com La T. “Ela estava em desacordo, porque me via bem e conhecia o clube, as pessoas e tudo o que é o Talleres. Então vieram as palavras mágicas: ‘Você nunca foi um cagão’. Foi o pior que poderia ter me dito, tirou o pior de mim. Contei até cem e ela voltou a dizer. Então peguei o telefone e liguei para o técnico. Três dias depois, já estava de volta ao clube”, revelou. Não poderia ser mais feliz em sua jornada na primeira divisão.

O Campeonato Argentino de 2016/17 marcou uma campanha digna do Talleres. A equipe somou 42 pontos, a dois da zona de classificação à Copa Sul-Americana, e terminou exatamente na metade da tabela, ocupando o 15° lugar. Guiñazú se destacava pelo alto nível, liderando as estatísticas da competição em roubos de bola e passes certos. O bom momento dissipou de vez suas ideias de aposentadoria e ele renovou o contrato por mais um ano. Não apenas liderou La T na briga pelo título, recolocando o clube na Libertadores após 17 anos. Aos 40 anos, seria eleito o melhor meio-campista do campeonato. Mantinha a sua essência, entre o espírito de luta incontrolável e a combatividade que conduzia os grandes sonhos dos cordobeses. Continuava se sentindo faminto pelos calcanhares alheios, em suas jornadas de perseguições ávidas e carrinhos perfeitos. Não seria agora, ainda mais, com a América no horizonte, que o capitão penduraria as chuteiras.

Chega a ser paradoxal imaginar que Guiñazú, este senhor que tão bem representa o cheiro da grama verde e a emoção de vibrar agarrado a um alambrado enferrujado, tenha virado destaque nos videogames. Foi o jogador que teve o maior salto nas estatísticas de Fifa. O que o mundo virtual não mede é o empenho, aquilo que se traduz a cada dia, e que tanto empolga ao assistirmos a esse monstro. O volante era o cara que chegava a treinar de capa de chuva em meio ao verão do Rio de Janeiro, para suar mais e melhorar sua forma. Profissionalismo sempre foi sua marca e explica bastante a postura já depois dos 40. O peso da idade sobre as pernas é sua capa de chuva figurada a cada jogo, que não o impede de correr tanto quanto (ou mais) do que garotos que poderiam ser até mesmo seus filhos – e, aliás, apreciam El Cholo nos games.

Mas há um forte elemento mental, também. Guiñazú deseja o máximo no futebol, sua marca de sempre, e o Talleres permite que não se prive mais dos prazeres na vida pessoal. Quando chegou a Córdoba, sua esposa e seus filhos continuaram morando em Porto Alegre. Então, buscou a sua mãe no povoado natal para morar consigo na cidade grande. Enquanto isso, costuma visitar a velha General Cabrera para ir ao bar de seu irmão. Por lá, come seu asado e toma o seu fernet, ao lado dos amigos de infância. Em entrevista ao Olé, apontou sem restrições que come churrasco duas vezes por semana porque, acima de tudo, “faz bem, junta com os amigos e a família, alimenta outra parte do ser humano”. Ou como apontou também ao Día a Día: “Eu tenho 20 anos como profissional, é metade da minha vida no futebol. Mas não me acostumo a olhar para trás porque estou na ativa. Estamos em busca de um objetivo e eu me encaixei perfeitamente neste clube. Ainda há coisas a lutar pelo Talleres. Defendemos uma camiseta, defendemos os torcedores, defendemos nossas famílias”.

As cores e a enorme família albiazul de Guiñazú ficaram evidentes neste início de Libertadores, em ambos os confrontos com o São Paulo. O volante jogou muita bola, algo ainda mais contrastante com o desencontro de seus oponentes. O gás não falta nunca. Soma-se à inteligência na movimentação, à precisão nos botes, à segurança na saída de jogo. Pablo Horacio Guiñazú é um senhor meio-campista. O caudilho que dominou a intermediária no Estádio Mario Kempes e também no Morumbi. As pretensões dos cordobeses são mais vivas, ao olharem seu capitão. A Libertadores ganha mais cara de Libertadores. E se torna impossível não simpatizar com a campanha de La T, mesmo aos doloridos tricolores. É o capítulo que gostaríamos de contar sobre o nosso time, mas que El Cholo está escrevendo logo ali, no interior da Argentina. Os colorados já estão ansiosos com a possibilidade de reencontrá-lo, caso os argentinos passem pelo Palestino na próxima etapa.

A honra de acompanhar Guiñazú é esta. É ver de perto um jogador que sente o futebol de maneira tão viva, que nunca mediu esforços, mas que agora pode realizar tudo o que sempre quis por seu clube de infância. Parece aquele rapaz que a gente encontra vestindo a camisa do clube de bairro no fim de semana, uniforme sujo pelo terrão, ou aquele que fica em transe nas arquibancadas ao nosso lado, imaginando que seus gritos irão mudar os rumos do que acontece em campo. Na verdade, este rapaz está lá na tela da TV, em plena Libertadores. E tudo isso aos 40 anos – de sonho, de sangue e de América do Sul. Todo torcedor merece ter, por um dia que seja, um Guiñazú botando a camisa de seu time. Tornando-a segunda pele empapada de suor, pelejando por cada centímetro de grama, conduzindo seu batalhão às vitórias mais célebres. Doando corpo, alma e coração por uma ambição na qual ele também crê e compartilha. É mais um torcedor, afinal. Uma pena que, em um futebol cada vez mais asséptico, isso se perca. Mas o interminável Pablo Horacio prova que ainda é possível acreditar na essência.