A capa da edição dominical do Corriere della Sera de julho de 1961 é impactante. Assim como nos cadernos esportivos de cinco décadas depois, o mercado de transferências dominava a pauta do jornal italiano. E o momento era excelente para tratar do assunto. Luisito Suárez havia quebrado o recorde como contratação mais cara da história, levado do Barcelona à Internazionale por 250 milhões de liras. Um número que podia ter sido superado por Pelé.

Inter, Juventus e Milan ofereceram 600 milhões de liras pela revelação da Copa de 1958. Algo que o próprio Rei confirmaria anos depois, em entrevista ao Corriere dello Sport: “No início da minha carreira, Angelo Moratti [então presidente da Inter] fez uma proposta, mas o Santos recusou. O clube também disse não à Juventus de Agnelli e, por isso, fiquei no Brasil”. O resto da história é mais do que conhecida. O Peixe se aproveitou da situação enfileirando taças na década de 1960 e a própria seleção brasileira se deu bem, mantendo o craque a seu serviço durante todo o tempo.

Segundo o jornal La Repubblica, Moratti tinha dinheiro suficiente para dar um lance ainda maior e presentear o esquadrão comandado por Helenio Herrera com o camisa 10. No entanto, o dirigente temeu que o valor exorbitante pudesse causar repercussões negativas na sociedade italiana. Somente sete anos depois é que a marca seria batida, quando a Juventus deu 650 milhões de liras ao Varese pelo atacante Pietro Anastasi.

Mas qual o valor atualizado da proposta dos italianos por Pelé? Fazendo a correção monetária com base na libra, unidade monetária utilizada nas primeiras contratações, os números parecem irrisórios para os dias atuais: cerca de € 6,9 milhões. Considerando o que já foi gasto nesta janela, o camisa 10 do Santos seria apenas a 95º transação mais cara de 2013/14. Léo Baptistão custou ao Atlético de Madrid € 100 mil a mais, por exemplo.

O número não quer dizer que Pelé seria uma pechincha se jogasse nos dias atuais. Longe disso. Ele ajuda a dimensionar a valorização do atleta como mercadoria, bem como do próprio futebol como negócio. Entre 1961 e 2009, o recorde de transferência mais cara da história cresceu 1947%, corrigida a inflação (veja o gráfico abaixo). Se Moratti ficou com um pé atrás do buchicho que a oferta a Pelé poderia gerar, o que ele diria se o Tottenham pedisse 10,95 bilhões de liras – ou € 120 milhões – para ceder Gareth Bale ao Real Madrid?

Todavia, se tivesse mesmo ido parar na Itália, Pelé até hoje teria uma marca imbatível no mercado de transferências. Entre o total pago por Suárez e o oferecido pelo Rei, o recorde de jogador mais caro de todos os tempos daria um salto de 140%. O percentual nunca foi alcançado na história – o mais próximo disso é 134%, de 1932, quando Bernabé Ferreyra assinou com o River Plate e ultrapassou a quantia estabelecida pelo Arsenal na compra de David Jack. Mostra de que, por mais que o conceito de mercado de transferências tenha se alterado bastante, o reconhecimento do talento é atemporal.

* Correção monetária tomando como base a libra. A linha em azul ajuda a demonstrar a valorização real do jogador mais caro da história, já que a inflação é minimizada

A capa do Corriere della Sera, em tamanho completo:

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