A chegada de Emmanuel Adebayor ao Olimpia foge de todos os scripts do que costuma se ver na Libertadores. Que os medalhões não sejam exatamente uma novidade no torneio, sobretudo nos clubes paraguaios, o togolês surge como uma atração especial por toda a sua carreira. É um dos maiores símbolos do futebol africano nas últimas décadas, recobrando a parceria com Roque Santa Cruz na linha de frente dos franjeados. E o anúncio de Adebayor nos permite relembrar outra história: afinal, quase Samuel Eto’o também parou em Assunção, mas quando ainda era um jovem desconhecido em Camarões.

A história começa na segunda metade dos anos 1990, quando o argentino Pedro Aldave iniciava a sua carreira como representante de jogadores – muito antes de se tornar um dos empresários mais influentes do futebol paraguaio. Um caminho óbvio em busca de talentos era olhar o vizinho Brasil. No entanto, a expansão de seu negócio o levou a um mercado ainda pouco explorado, mas que dava enormes sinais de desenvolvimento naquele período: a África.

Segundo o jornal Hoy, do Paraguai, Aldave se reuniu com alguns olheiros africanos sem muito renome. Deveria passar um pente fino sobre o “pé de obra” ao qual era apresentado. E, naquele momento, se deparou com dois adolescentes camaroneses que o interessavam. Ambos queriam deixar o país, se livrando das crises e dos conflitos na região. Que o Cerro Porteño não fosse o destino mais sonhado, defender um grande clube sul-americano parecia bom o suficiente a dois garotos dispostos a agarrar a primeira chance que aparecesse.

Um deles tinha 18 anos, era mais forte fisicamente e parecia apto a encarar o jogo duro dos marcadores paraguaios. Seu nome? Geremi Njitap. Três anos mais jovem, o outro rapaz até dava mais provas de habilidade e faro de gol, mas estava menos preparado fisicamente e não renderia o retorno imediato. Aos 15 anos, este era Samuel Eto’o. No fim das contas, Aldave achou mais seguro apostar apenas em Geremi e deixou a oportunidade passar com Eto’o. O camaronês mais velho viajou ao Paraguai, onde passou por testes no Cerro Porteño e foi aprovado.

Geremi despediu-se dos antigos companheiros do Racing Bafoussam, em Camarões, e se mudou a Assunção. A partir de 1996, o lateral / volante começou sua carreira no Cerro Porteño. E não estaria sozinho. Os azulgranas haviam contratado naquele mesmo ano outro camaronês, Tobie Mimboe, então com 22 anos. O defensor já tinha atuado por outros clubes paraguaios menores nas temporadas anteriores. Como se não bastasse, o Ciclón ainda teve um queniano em suas fileiras no período: o atacante William Inganga, o mais experiente da turma, aos 27 anos.

Mimboe e Inganga disputaram a Libertadores de 1996 pelo Cerro Porteño. A estreia de Geremi na competição continental aconteceu apenas na temporada seguinte, com quatro partidas disputadas durante a fase de grupos, três delas como titular. Enfrentou Guaraní, Oriente Petrolero e Bolívar. Naquela campanha, um terceiro camaronês se juntou ao elenco azulgrana: o atacante Cyrille Bella, de 21 anos. Todos os camaroneses do Cerro chegaram a defender a seleção de seu país em algum momento. Mimboe disputou a Copa Africana de Nações em 1996 como jogador do clube.

Geremi iniciou uma carreira respeitável a partir do Barrio Obrero, transferindo-se ao Gençlerbirligi em 1997, ao lado de Mimboe. Sua saída rendeu um processo ao Cerro, já que o Racing Bafoussam alegou não ter recebido do clube paraguaio o valor da venda. A carreira do polivalente jogador, todavia, não se prendeu a isso. Em 1999, ele assinou com o Real Madrid, com o qual conquistou duas Champions. Também passou por Chelsea, Middlesbrough e Newcastle. Já pela seleção, disputou duas Copas do Mundo e sete Copas Africanas, com dois títulos no torneio continental. Já o ápice veio em 2000, com o ouro olímpico em Sydney.

O rechaçado Samuel Eto’o nem precisou esperar muito tempo para deixar Camarões. Meses depois, o Real Madrid achou que valia a pena esperá-lo se desenvolver e investiu na contratação do garoto, que se juntou às categorias de base merengues em 1997. O atacante não ganharia tantas chances na equipe de cima do Real, outro tremendo erro, como se notaria sobretudo em seus tempos de Barcelona. Firmou-se como um dos maiores jogadores africanos da história. Porém, sem nunca adicionar a América do Sul ao seu currículo. No máximo, disputou o famoso Come-Fogo amistoso de dezembro de 2015.

Por influência de Aldave e outros empresários, os jogadores africanos seguiram relativamente comuns no Campeonato Paraguaio. Ao todo, 17 defenderam os times locais na liga nacional e sete estiveram presentes também na Libertadores. O Cerro Porteño é o campeão da lista, com sete nomes. O Olimpia, curiosamente, ainda não tinha feito qualquer aposta em jogadores da África. A representatividade de Adebayor, contudo, supera a de todos os outros.