Um meteorologista – e não um jornalista ou outro tipo de analista esportivo – seria o profissional mais indicado para explicar a transformação tática do Palmeiras nesta quinta. Não houve elemento mais determinante do que a chuva no Allianz Parque. O bom primeiro tempo dos alviverdes se viu substituído pela amnésia quando a grama secou. Afinal, os 10 jogadores de linha pareciam ter se conhecido horas antes do jogo, diante da péssima atuação. Mas também tinham memória para relembrar o futebol ineficaz das últimas semanas. Enquanto isso, a explicação para a vitória, esta sim, esta na ponta da língua da maioria dos torcedores. E por uma memória recente que insiste em se reavivar nos últimos tempos. Ela atende pelo nome de Fernando Prass, outra vez herói ao resgate no triunfo por 2 a 0, o primeiro na Copa Libertadores 2016.

O campo pesado do Allianz Parque, diante da tempestade que caía em São Paulo, ajudou muito o Palmeiras na etapa inicial. O time conseguiu maquiar suas deficiências com muita vontade para se entregar em meio ao aguaceiro, que também servia de marcador implacável ao jogo ofensivo do Rosario Central. Os argentinos, é verdade, entraram sem cinco titulares e até tentaram se impor, com uma proposta de se colocar no campo ofensivo – mesmo que fosse para marcar. Mas as condições climáticas não permitiam que eles cumprissem a estratégia. E privilegiou o jogo palmeirense de bolas longas. Na raça, Cristaldo abriu o placar. E a vantagem até poderia ser mais confortável, não fosse a bola na trave de Dudu ou o impedimento mal anotado de Gabriel Jesus.

Na volta para o segundo tempo, São Pedro deu uma trégua com a chuva. E, então, outro santo se fez necessário nas orações dos alviverdes. O Palmeiras voltou a campo em corpo, mas não em espírito. E demonstrou um futebol ainda mais desencontrado do que vem exibindo nos últimos meses. Méritos também do Rosario Central, que botou a bola no chão e jogou como se o Allianz Parque fosse o Gigante de Arroyito. O time de Eduardo Coudet é muito bem treinado, e não é de hoje, com uma postura de se postar no ataque. Fazia isso de maneira insistente, em busca do empate. Não conseguiu por causa de Fernando Prass.

Se o Palmeiras parecia mais um time de pebolim, com os jogadores rebatendo as bolas a esmo sem acertar os passes e deixando buracos entre si, o Rosario Central não perdoava. Mas encontrou um obstáculo difícil de superar. Até quando errou ao sair de soco em um cruzamento, Prass se redimiu com uma grande defesa. O uniforme todo branco, impecável, surgia como um vulto nos pés dos atacantes argentinos. E o grande milagre aconteceu ali, no estádio onde os torcedores já se acostumaram a confiar em seu capitão. Nos pênaltis, aquele elemento consagrador para tantos goleiros do clube. Voando ao canto direito, em um filme repetido, desta vez protagonizado por Marco Rubén. Além disso, a sorte do camisa 1 também pesou, pela falta de pontaria dos canallas em muitos momentos. Não eram os seus companheiros a ajudar nisso ou Marcelo Oliveira.

Por fim, para expurgar toda a agonia palmeirense do segundo tempo, veio o gol de Allione no último instante dos acréscimos. Serviu para soltar o grito do torcedor, entalado no peito e pronto a parar o coração durante todo o segundo tempo. Mas também para dar uma sensação irreal, diante de tudo aquilo que se viu na somatória dos 90 minutos. O Palmeiras mereceu a vitória no primeiro tempo, embora tenha pedido a goleada na etapa complementar. Resultado que, por enquanto, salva a pele de Marcelo Oliveira. Mas que, deixando de lado a euforia do triunfo, também depõe contra pela apatia costumeira, mas agravada, que se viu ao final.