A Bola de Ouro simboliza o auge de um grande craque. O mero fato de ser colocado entre os finalistas já demonstra a capacidade de um grande jogador chegar ou se manter no topo. É assim com Messi e Cristiano Ronaldo, invariavelmente na disputa desde o final da última década. Ou com Neymar, que possui um “carimbo” para ratificar a sua excelência entre os melhores do mundo. Olhando para a história, a condecoração também marca a melhor forma de um atleta. Por isso mesmo, é natural que as aparições se combinem com o ápice físico. Dos 59 ganhadores, 38 tinham entre 25 e 29 anos. Além deles, foram 12 prodígios com 24 anos ou menos. E nove veteranos com 30 ou mais. Entre eles, um quarentão. O lendário Stanley Matthews, primeiro dono do troféu entregue pela France Football.

Atualmente, ver em um jogador disputando torneios em alto nível aos 41 anos é raríssimo. Na Europa, o último exemplo veio com Ryan Giggs, que ainda assim se aposentou às vésperas de completar a idade. Stanley Matthews, no entanto, surge como um ponto (muito) fora da curva. O célebre ponta direita inglês começou a sua carreira profissional aos 17 anos de idade e só pendurou as chuteiras aos 49 – em uma trajetória desdobrada inteiramente com as camisas do Stoke City e do Blackpool. Já pela seleção inglesa, apareceu nas convocações dos 19 aos 42 anos. E ainda fez sua última exibição aos 70, em 1985, durante um amistoso entre veteranos do Brasil e da Inglaterra. “Uma carreira promissora encerrada tragicamente curta”, comentou posteriormente, sobre a lesão no joelho que sofreu naquela partida.

Os vencedores da Bola de Ouro acima dos 30 anos

Os vencedores da Bola de Ouro acima dos 30 anos

Obviamente, era outra época do futebol. A exigência física menor permitia carreiras mais duradouras. Tanto que cinco dos primeiros oito condecorados com a Bola de Ouro já haviam passado dos 30 anos. Ainda assim, em tempos bem menos evoluídos da preparação física e da medicina esportiva, Matthews é um fenômeno. Superou a Segunda Guerra Mundial para ser considerado um dos grandes craques do futebol mundial ao longo de três décadas. Por conta da recusa da Inglaterra e da interrupção para o conflito, só disputou duas Copas do Mundo. E faturou a Bola de Ouro na primeira oportunidade que lhe deram.

Não dá para desconsiderar que a vitória de Stanley Matthews no primeiro prêmio levou em conta também os “serviços prestados” pelo atacante. Seu momento mais célebre aconteceu em 1953, com a conquista da Copa da Inglaterra – em uma final que passou a ser reconhecida por seu nome, depois da atuação fabulosa na vitória por 4 a 3 do Blackpool sobre o Bolton. Ainda assim, em 1956 o tiozinho seguiu entortando os seus marcadores com o vasto repertório de dribles. Naquele ano, o ponta liderou os Tangerinas ao vice-campeonato inglês, superados apenas pelos Busby Babes do Manchester United. Ainda hoje é a melhor colocação do clube, que costumava ser mero figurante na tabela.  Além disso, seguia como titular da Inglaterra. Foram cinco partidas pela seleção naquele ano, incluindo as Eliminatórias da Copa de 1958 e uma vitória por 4 a 2 sobre o Brasil em Wembley.

Entre os principais concorrentes de Stanley Matthews à Bola de Ouro em 1956, estavam alguns jogadores em ascensão. Alfredo Di Stéfano ficou em segundo, quando ainda começava a construir sua dinastia com o Real Madrid. Já Raymond Kopa terminou em terceiro, após levar o Stade Reims ao vice-campeonato da Champions. Em um ano conturbado em seu país, Ferenc Puskás foi o quarto, sem registrar grandes feitos com o Honvéd. E a lista de votados ainda incluía nomes célebres como Lev Yashin, József Bozsik, Sándor Kocsis, Billy Wright, Duncan Edwards, Gerhard Hanappi, Juan Schiaffino e Julinho Botelho – que se tornou o primeiro brasileiro a ser indicado por ter cidadania italiana, mesmo sem nunca defender a Azzurra.

Fora da Copa de 1958, a última aparição de Stanley Matthews entre os votados aconteceu em 1957. O senhor de 42 anos recebeu três pontos no ano em que liderou o Blackpool à quarta colocação no Campeonato Inglês. Ficou bem longe de Alfredo Di Stéfano, soberano em sua primeira vitória, ao receber 72 pontos – 53 a mais que o segundo colocado, Billy Wright. Naquele ano, o ponta direita viveu a sua última grande campanha com o Blackpool. Já na década de 1960, voltaria ao Stoke City para encerrar a carreira, ajudando o clube a subir à primeira divisão inglesa.

E, 60 edições depois da primeira Bola de Ouro, a façanha de Matthews segue inalcançável. O vencedor que mais se aproximou de sua idade foi Lev Yashin, aos 34 anos – um goleiro, que também viu a seu favor a reputação da carreira em 1963. Ou mesmo entre os três finalistas de cada ano, o segundo maior veterano foi Paolo Maldini, terceiro colocado em 2003 aos 35 anos. Se há um recorde que Messi e Cristiano Ronaldo provavelmente nunca se aproximarão, este é o do grande mágico do futebol inglês.

Idade dos ganhadores e dos finalistas da Bola de Ouro (1956-2015):

Bola de Ouro
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*Não inclui o vencedor de 2015


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