Não há momento mais simbólico nas Olimpíadas do que a cerimônia de abertura. O desfile de delegações explicita a união dos povos que os Jogos propõem. E o próprio ato de carregar a bandeira do país se transforma em uma honra enorme, anunciada com pompas. Mas que raras vezes acabou nas mãos de um futebolista. Ainda que dezenas de países costumem participar do evento, a última vez que um representante da modalidade recebeu a incumbência foi em 1988, com o zambiano Samuel Chomba. Os registros, mesmo os oficiais do Comitê Olímpico Internacional, não possuem listas completas dos porta-bandeiras ao longo da história. Assim, torna-se um trabalho hercúleo dizer com precisão quantos jogadores de futebol tiveram a honraria. E, entre os poucos nomes que encontramos, o mais importante é de um chinês.

VEJA TAMBÉM: O craque alemão que teve coragem de renegar Hitler em sua única visita a um jogo de futebol

Li Huitang, porém, não foi um atleta qualquer. O atacante nascido em Hong Kong costuma ser considerado um dos maiores futebolistas asiáticos da história, que se pese o amadorismo total de sua época. Seu apelido, aliás, sublinha a fama que construiu entre as décadas de 1920 e 1940: o Rei do Futebol. Huitang conquistou oito títulos nacionais com o South China, um dos clubes mais tradicionais da Ásia, e encabeçou a seleção chinesa em cinco triunfos no torneio de futebol dos Jogos do Extremo Oriente. Moral tão alto que o colocou como porta-bandeira da nação nas Olimpíadas de 1936.

estatua

O contexto do esporte na China era bastante diferente naquela época. A república presidencialista estava distante de ser uma potência olímpica. O país estreou nos Jogos em 1932, enviando apenas um atleta a Los Angeles, enquanto 54 chineses foram a Berlim. Destes, 21 representavam o futebol. A modalidade, por sua vez, tinha certo nível de desenvolvimento, comparando com a realidade asiática. A presença britânica em Hong Kong ajudou a impulsionar a prática naquela região. Não à toa, 17 futebolistas vieram cedidos por clubes locais, sobretudo o South China. Li Huitang era o craque deste grupo.

Nascido em 1905, Huitang chegou aos juvenis do South China em 1922. Na temporada seguinte, já liderou o clube no primeiro de seus 41 títulos do Campeonato Honconguês e ainda foi a estrela da conquista da China no futebol dos Jogos do Extremo Oriente, disputados em Osaka, fazendo três gols em cinco minutos na decisão contra o Japão. O suficiente para que o garoto logo se tornasse um astro em Hong Kong. Em 1926, o atacante mudou-se para Xangai, trabalhando como diretor esportivo na tradicional Universidade Fudan durante quatro anos. Nesta época, estrelou o Loh Hwa na primeira vitória de um time formado por chineses contra um adversário composto por migrantes e descendentes britânicos. Um feito e tanto, considerando também o simbolismo pelas relações coloniais. A fama do artilheiro chegou ao seu ápice.

Em 1934, Huitang conquistou o seu quinto título no futebol dos Jogos do Extremo Oriente, desempenhando também a função de técnico. E a China acabou convidada a participar do futebol nos Jogos Olímpicos de 1936. Sem dinheiro para a viagem, a seleção precisou disputar uma série de amistosos na Ásia para arrecadar fundos, e Huitang acabava sendo um atrativo para o público. Assim, os chineses conseguiram bancar as passagens para Berlim, onde o craque ainda teve o gosto de desfilar com a bandeira no Estádio Olímpico. No entanto, o capitão não conseguiu garantir vida longa ao time no torneio: a China caiu logo nas oitavas de final, derrotada por 2 a 0 pela Grã-Bretanha – representada por jogadores de clubes amadores tradicionais, como o Queens Park e o Corinthian.

lee

Mesmo entrando em campo apenas uma vez nas Olimpíadas, Huitang atraiu o interesse dos europeus. O atacante chegou a ser sondado pelo Arsenal, mas os 31 anos de idade pesaram contra. Além disso, também chegou a negociar com o Red Star de Paris, mas acabou voltando para Hong Kong. Em 1941, durante a invasão japonesa na China, Huitang se recusou a defender o South China e se juntou ao time do exército chinês, disputando amistosos para levantar fundos. De astro, se transformou em herói nacional. O veterano voltaria a vestir a camisa do South China, com o qual pendurou as chuteiras aos 41 anos.

Li Huitang ainda participou de mais uma edição dos Jogos Olímpicos, em 1948, mas como treinador. Após a Revolução Chinesa de 1949, o veterano se manteve ao lado dos republicanos, reunidos em Taipé Chinesa. E deu continuidade aos seus trabalhos no futebol, nomeado vice-presidente da Fifa em 1965. Faleceu em 1979, aos 73 anos, deixando como legado as histórias e as lendas. Dizem que o artilheiro marcou mais de 1200 gols na carreira, que furar redes com o chute potente era costume, que os goleiros até saíam da frente de suas bombas. Em tempos de poucos registros, tudo acaba como anedota. Fato é que a memória de Huitang continua cultuada. A ponto de uma série de 36 episódios produzida pela TV chinesa em 2014 acabar com o ‘modesto’ nome: O Pelé Oriental.

TRIVELA FC: Conheça nosso clube, ganhe descontos em cervejas e camisas e faça a Trivela melhor!