Poucos títulos conseguem ser tão significativos quanto aquele comemorado em 27 de dezembro de 2001. Um turbilhão de sentimentos tomou Avellaneda e a Argentina como um todo. Havia a espera. Uma longa espera de 35 anos sem um título nacional. Havia o drama. O sabor amargo do drama de quem viveu do quase, de quem viu o rival desfrutar das maiores glórias, de quem precisou passar pela segunda divisão, de quem beirou a extinção. Havia o caos. Até mesmo o caos de poder ser rebaixado novamente, de temer que a rodada decisiva fosse adiada diante de um país em seríssima crise. Mas também havia a paixão. A irremediável paixão de quem nunca deixou de acreditar, de quem ressuscitou o clube e lotou as ruas para soltar o grito aguardado por três décadas e meia. Há 15 anos, o Racing reconquistava o Campeonato Argentino em uma data inesquecível para os seus torcedores.

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Maior campeão nacional da era amadora, o Racing atravessou grandes momentos entre o final da década de 1940 e meados dos anos 1960. Os principais, a partir de 1966. Naquele ano, a Academia ergueu a taça do Campeonato Argentino, antes de dar passos maiores: faturou também a Copa Libertadores e o Mundial Interclubes em 1967. Bonança que antecedeu uma tempestade que parecia não ter fim. Até os anos 1970, foram várias boas campanhas que não renderam troféus. Pior, o rival Independiente devastava as Américas ao mesmo tempo. O poço ficou mais fundo em 1983, com o rebaixamento e o acesso que só seria conquistado dois anos depois. Em 1988, houve um alento com a Supercopa da Libertadores, mas nada suficiente para os grandes desejos.

Os anos 1990 guardaram o ápice do amargor. De olhar para trás e ver as grandes conquistas ainda mais remotas, quando os títulos nacionais nunca passavam de ambição. Mesmo assim, o Cilindro se mantinha como um dos maiores templos da paixão pelo futebol na Argentina. De uma torcida que não abandonava o seu time. Especialmente no momento mais difícil. Em 1999, o Racing estava quebrado. A Justiça decretou a liquidação do clube, extinto a partir daquele momento. Mas a camisa alviceleste terminou resgatada das cinzas pelos fanáticos. Em 7 de março, quando o time não enfrentou o Talleres porque não mais existia, 35 mil pessoas encheram o estádio para mostrar o seu apoio e reverter a bancarrota. Conseguiram que a sentença fosse revertida três dias depois, como em uma ressurreição bíblica. Desde então, aquela data se tornou o ‘Día del Hincha’.

Sob administração externa, o Racing lançou seu plano de reconstrução em dezembro de 2000, com uma sociedade anônima que prometeu superar o estado de falência em 10 anos – o que se consumou em dezembro de 2008, apesar de muitos percalços. Enquanto isso, La Academia seguia com planos modestos dentro de campo. Fez uma campanha pífia de uma mísera vitória no Apertura de 2000, fugiu do playoff contra o descenso nos últimos instantes do Clausura de 2001 e iniciou o Apertura daquele ano como seríssimo candidato à queda. O elenco era pouco badalado e a aposta para o comando era em Reinaldo ‘Mostaza’ Merlo, treinador que buscava seu lugar ao sol. Seria herói em Avellaneda.

Dizer que o conjunto conquistou aquele título não é exagero. O trabalho coletivo de Mostaza foi excepcional, ainda que um nome ou outro tenha se destacado – como o goleiro Campagnuolo, Vitali, Bastía, Chatruc, Estévez e o prodígio Diego Milito, que tentava se firmar na equipe principal. Já a estrela da sorte foi o zagueiro Gabriel Loeschbor, autor de dois gols memoráveis. Primeiro, empatou o clássico contra o Independiente nos acréscimos. Depois, anotou justamente o tento do título.

A boa arrancada inicial colocou o desacreditado Racing na rota da taça. Foram quatro vitórias nas primeiras cinco rodadas, 10 nas primeiras 12. Os alvicelestes só passaram a enfrentar dificuldades em seus últimos compromissos, quando mantinham certa folga na ponta. Perderam o seu último jogo a cinco rodadas do fim, para o esquadrão do Boca Juniors. Logo depois, empataram com o River Plate, rival direto e que também contava com um elenco fortíssimo. Empataram com o Banfield e o título antecipado não se consumou com a vitória sobre o Lanús na penúltima rodada. Ficou tudo para os instantes finais, em uma Argentina caótica, que viu seu presidente renunciar na véspera dos jogos decisivos e decretou estado de sítio, diante dos sangrentos protestos nos arredores da Casa Rosada. Ainda assim, as partidas aconteceram naquele mesmo ano, remarcadas para 27 de dezembro.

Por motivos óbvios, apenas Racing e River Plate (além de seus adversários) entraram em campo. Os Millonarios precisavam vencer e fizeram isso de maneira categórica, com os 6 a 1 sobre o Rosario Central. Mas também dependiam da derrota da Academia. Algo que não aconteceu, em meio ao furor da massa alviceleste. Os torcedores lotaram o Cilindro, mesmo que o Racing não jogasse lá. E também o Fortín, palco do êxtase derradeiro. Os racinguistas saíram em vantagem com Loeschbor, no início do segundo tempo, apesar de tomarem empate e sufoco. O 1 a 1 no placar, por fim, se fez suficiente para que as ruas do país se pintassem de azul e branco.

Aquele título, no fim das contas, surgiu como uma exceção em anos difíceis do Racing. Exceção para ninguém se esquecer. Na sequência dos anos 2000, o clube continuou lidando com os problemas financeiros, até finalmente sair do vermelho em 2008. Além disso, o jejum voltou a se prolongar mais um pouco. Não tanto, quando Diego Milito voltou para ser o messias em 2014. Atualmente, o momento é relativamente bom. A Academia vem contando com equipes fortes e virou participante costumeira da Libertadores. Mesmo assim, possui seu maior propulsor nas arquibancadas. Aquela fidelidade de quem seguiu empurrando o time nos momentos mais duros, e sabe que o apoio não teve depender dos sucessos, mas sim da paixão.

Vale ler também o especial sobre o tema produzido pelo amigo Caio Brandão, em 2011, no Futebol Portenho