Quando o Santos alinhava aquela escalação que virou poesia, ou mais especificamente aquele jogador que era obra completa, de todos de prosa, de romance, de tudo, poucos conseguiam pará-lo. O Palmeiras foi o que mais tentou e o que mais conseguiu. Ali por volta da virada para a década de sessenta, houve o prenúncio do duelo que dominaria o futebol paulista nos anos seguintes. E, entre super-times, disputou-se o Supercampeonato de 1959, que levou esse nome porque precisou ser definido em três partidas decisivas e acabou sendo uma das ocasiões em que o Alviverde foi imponente contra o Peixe, em janeiro de 1960.

Ainda era o prelúdio dos grandes feitos do Santos de Pelé, e de Coutinho, e de Pepe, e de Zito, e ainda de Pagão, mas aquele time já começava a fazer correções nos livros de recordes. Havia vencido o Campeonato Paulista de 1958 marcando 143 gols (58 de Pelé) e o Rio-São Paulo do ano seguinte. Depois de perder para o Palmeiras, emendaria um tricampeonato paulista, depois um bicampeonato paulista, depois outro tricampeonato paulista – sem falar nos cinco títulos seguidos da Taça Brasil, as duas Libertadores, os dois Mundiais, etc, etc.

O Palmeiras não estava tão bem. Amargava jejum de títulos oficiais desde a conquista das Cinco Coroas entre 1950 e 1951 (Taça Cidade de São Paulo, Campeonato Paulista, Rio-São Paulo, Taça Cidade de São Paulo e Taça Rio). Mas foi feito um investimento para acabar com essa história, especialmente em dois jogadores importantes da história da Portuguesa. Um deles foi Djalma Santos, lendário lateral direito. O outro foi Julinho Botelho.

Julinho Botelho estava fora do Brasil desde que trocara a Lusa pela Fiorentina. Foi um dos fios condutores do primeiro scudetto da Viola e estaria na Copa do Mundo de 1958 se não tivesse nobremente abdicado da convocação porque achava que era injusto roubar o lugar de quem ainda militava no futebol brasileiro. Com saudades da sua terra, retornou para defender o Palmeiras, no qual seria um dos artificies da primeira Academia.

E precisou passar por uma grande provação assim que chegou. Em maio de 1959, o Brasil recebeu a Inglaterra no Maracanã para um amistoso e 127.097 pessoas estavam nas arquibancadas prontas para ver Garrincha com a camisa amarela. Quando o sistema de som anunciou Julinho no lugar do ponta do Botafogo, o Maior do Mundo foi tomado por uma das maiores vaias registradas pelas penas do futebol mundial. E o que fez Julinho? Respondeu na bola. Fez o primeiro gol, a jogada do segundo e ganhou uma crônica de Nelson Rodrigues: “Assim é o brasileiro de brio. Deem-lhe uma boa vaia e ele sai por aí, fazendo milagres, aos borbotões. Amigos, cada jogada de Julinho foi exatamente isto: um milagre de futebol”.

Mais aclimatado, foi o ponta-direita do ataque alviverde no Campeonato Paulista, disputado no segundo semestre de 1959. O ataque terminou de ser composto por Américo, Nardo e Romeiro, às vezes Géo na ponta esquerda. O meio-campo tinha o volante Zequinha e o eletrizante meia Chinesinho. Djalma Santos na lateral direita, o grande Geraldo Scotto na esquerda, e Aldemar ao lado de Valdemar Carabina. No gol, Valdir Joaquim de Morais.

Com muito tempo livre e poucos torneios, o Campeonato Paulista teve 38 rodadas, com turno e returno, todos contra todos. Santos e Palmeiras estavam empatados em pontos a quatro rodadas do fim. Na antepenúltima partida prevista, os alviverdes acharam que o jejum se estenderia quando foram derrotados por 2 a 0 pelo São Paulo. Todos se reuniram nos vestiários para ouvir o duelo entre Guarani e Santos pelo rádio. Com dois gols de Ferrari, futuro lateral do Palmeiras, o Bruge venceu por 3 a 2 e tudo ficou igual novamente.

Em meio às campanhas, os confrontos diretos entre Palmeiras e Santos – que superou a marca anterior e fez 151 gols, um para cada Pokémon – foram festivais de bolas na rede. O Peixe ganhou por 7 a 3, com atuação desastrosa do goleiro reserva Aníbal. O Verdão respondeu com 5 a 1 (4 a 1 no primeiro tempo), com dois de Julinho, dois de Américo e um de Romeiro.

No fim, tudo igual, assim como a primeira partida decisiva, para a qual o Santos não tinha Pagão e Jair Rosa Pinto, craque das Cinco Coroas do Palmeiras. A ausência de Pagão abriu espaço para o jovem Coutinho na linha ofensiva santista. Pelé fez 1 a 0. Zequinha empatou. Dois dias depois, tudo igual novamente. Desta vez, com mais dramaticidade. Lula escalou o mesmo time, e Osvaldo Brandão trocou Géo por Nardo e deslocou Romeiro à ponta esquerda. Aldemar fez pênalti em Pelé. Pepe marcou: 1 a 0. O zagueiro santista Getúlio jogou contra o próprio patrimônio e Chinesinho virou no rebote do goleiro Laércio. Aos 35 minutos do segundo tempo, outro pênalti. Pepe de novo: 2 a 2.

Em caso de novo empate, o terceiro jogo no Pacaembu teria prorrogação de 30 minutos e, se a igualdade permanecesse, mais 15. O campeão tinha que sair naquele 10 de janeiro. Lula lançou mão de duas armas secretas: Jair e Pagão estavam de volta. E Pagão pagou a confiança criando o primeiro gol, marcado por Pelé, e descrito assim pelo Estado de S. Paulo: “Aos 12 minutos, a bola cabeceada por Pagão vem cair entre Pelé e Aldemar. Pelé amortece a queda na cabeça, a bola vai rolando por seu peito, como se colada ao corpo do jogador. Entre os dois jogadores e Valdir, apenas campo. Pelé corre. Aldemar atrás. Mesmo prejudicado na corrida pelo domínio da bola, Pelé ultrapassa a linha da grande área com três metros de vantagem sobre Aldemar, que ainda o acompanha na corrida. Valdir não tem como impedir o gol, frente a frente com o maior artilheiro do campeonato. A bola passa pelo arqueiro, rápida e distante. Um a zero”. Era bom esse Pelé.

O problema para o Santos é que Pagão e Jair não retornaram ao time em plena forma física, e Valdemar Carabina fez questão de que fosse assim com o excelente Pagão e lhe deu uma entrada dura nas costas. O santista chegou a ser retirado de campo e retornou três minutos depois. Não tinha condições de jogo, mas, como não havia substituição naquele Campeonato Paulista, teve que fazer número. E foi apenas o que conseguiu fazer até o fim do jogo.

Quem alcançou o empate, no apagar das luzes do primeiro tempo, foi Julinho. Pelé foi desarmado por Chinesinho, que passou para Romeiro. Chute para a entrada do gol do Santos. Formiga tocou a bola, mas não mandou para fora. Julinho, a poucos passos de Laércio, encheu o pé. No começo do segundo tempo, o Palmeiras teve uma falta para cobrar, a um metro da grande área. O Santos, segundo o Estadão, formou a barreira com oito jogadores. Poderia ter alinhado 80 porque a cobrança de Romeiro foi indefensável, com uma curva sem explicação. “Só consegui ver a bola dentro do meu gol. Pensei que ela tivesse saído. Foi uma cobrança impressionante do Romeiro. Como chuta falta esse rapaz!”, disse Laércio, à Gazeta Esportiva, segundo o livro Os Dez Mais do Palmeiras.

A virada do Palmeiras “desmoronou” o Santos. “E nas ruínas, ficam de pé somente Laércio e Pepe”, contou o Estadão. O goleiro santista fez grandes defesas e contou com a trave duas vezes para impedir uma vitória mais ampla do adversário. Mas, após 38 rodadas e duas finais empatadas, “renascia um campeão”. Nove anos depois, o Palmeiras voltava a reinar sobre o futebol estadual. Contra o Santos de Pelé, foi campeão. Ou melhor, foi Supercampeão.

As reações de Valdir 

O goleiro daquele Palmeiras era Valdir Joaquim de Morais, goleiro histórico do futebol brasileiro que morreu no último fim de semana. Coincidentemente, durante aquela final contra o Santos, o repórter do Estadão registrou detalhes da partida e a maioria das reações foi do guardião das metas alviverdes.

Separamos as partes que citam Valdir, mas o relato todo, que pode ser encontrado aqui, é muito interessante.

“Zito ganha a escolha de campo. Prefere jogar primeiro com vento a favor. O Santos defende o gol da entrada. Valdir vai para o gol do fundo. Está inquieto, não para. Vai até a entrada da área, passa a mão na cabeça, chuta o chão, volta. Laércio também está nervoso, mas, nem por isso, menos firme: pratica logo boas defesas.

Valdir só fala para pedir marcação ou que lhe atrasem a bola. Mas economiza nas palavras: ‘Minha’. Valdemar dá. Geraldo recomenda calma.

Pagão sai machucado. Laércio defende tudo, os palmeirenses desesperam-se. Valdir soca a trave, a própria perna, segura a rede, ajeita o calção. Geraldo reclama contra todo mundo.

O Santos ataca. Valdir manda Valdemar entrar na jogada. Ele vai. Escorrega, mas vai e ganha a parada. Bola para a frente, ataque do Palmeiras, chute na trave. Valdir não se desespera mais. Cruza os braços.

Valdir dá mais um soco na perna quando outra bola bate na trave do Santos. Depois, vem o empate. Salta, levanta as mãos, ri. O massagista do Palmeiras, para não perder o costume, troca desaforos com Urubatão. Nardo desentende-se com Formiga. O árbitro entende-se com todos eles e recomenda calma. Torcedores pulam de todos os jeitos, soltam fogos, os guardas, quando localizam de onde saem, não deixam mais.

Antes que o segundo tempo se inicie, aparece a primeira faixa a proclamar o Palmeiras campeão. A bandinha gosta e toca “Periquitinho”. Valdir ainda está nervoso e recomenda marcação. Romeiro desempata. Valdir salta e ri outra vez. O desanimo está estampado no rosto dos santistas.

Quatro minutos, Pepe chute, Valdir defende. Valdemar, com gestos, pede que não tenha pressã, fique batendo bola. A bandinha continua a tocar e a torcida está inflamada. Chinesinho joga muito. Um torcedor diz que ‘vai fazer uma estátua para ele lá no quintal hoje à noite’.

Valdir agora está calmo, fica parado, braços cruzados. Laércio está nervoso, anda de um lado para o outro. A torcida, que não pode andar, pula e aplaude. A banda não para mais de tocar.

Dezoito minutos, Pepe vai pela esquerda, supera Djalma, perde para Valdemar, atira-se ao chão. Os santistas querem pênalti. O juiz não liga. Valdir está preocupado com Zito. Pede a Chinesinho que corra mais. O juiz marca um tiro de meta, o bandeirinha dá escanteio. Valdemar pede-lhe ‘que não faça isso’.

Quarenta minutos. A bandinha toca ‘Ciao, ciao, bambina’, aparecem milhares de lenços brancos, Valdir retém a bola, os santistas estão desesperados, fazem carga contra Valdir, os palmeirenses recuam, Valdir não quer, manda para a frente, recebe falta, cai, a torcida não tem mais limites, grita, salta, a bandinha nem sabe mais o que toca. Nardo quer saber quanto tempo falta para terminar. Falta pouco. Termina.

Valdir e Romeiro caem ao chão abraçados. A camisa de Julinho é arrancada. A de Romeiro também. Brandão é carregado. Centenas de pessoas em campo. Aplausos e entusiasmo que não param. Todos querem abraçar todos. Os jogadores fogem para o vestiário, mas lá é pior. Correria, confusão, berros, confetes verdes, serpentinas verdes. Quase matam os jogadores de tantos abraços”.

05/01/1960 – Santos 1×1 Palmeiras (Pacaembu)
Gols: Pelé, 22’/1T; Zequinha, 34’/1T

Palmeiras: Valdir de Moraes; Djalma Santos, Valdemar Carabina, Aldemar e Geraldo Scotto; Zequinha e Chinesinho; Julinho Botelho, Américo Murolo, Romeiro e Géo. Técnico: Osvaldo Brandão.

Santos: Laércio; Feijó, Getúlio e Dalmo; Formiga e Zito; Dorval, Urubatão, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

07/01/1960 – Palmeiras 2×2 Santos (Pacaembu)
Gols: Pepe, 25’/1T e 35’/2T; Getúlio (contra), 3’/2T; Chinesinho 5’/2T

Palmeiras: Valdir de Moraes; Djalma Santos, Valdemar Carabina, Aldemar e Geraldo Scotto; Zequinha e Chinesinho; Julinho Botelho, Américo Murolo, Romeiro e Nardo. Técnico: Osvaldo Brandão.

Santos: Laércio; Feijó, Getúlio e Dalmo; Formiga e Zito; Dorval, Urubatão, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

10/01/1960 – Palmeiras 2×1 Santos (Pacaembu)
Gols: Pelé, 14’/1T; Julinho Botelho, 43’/1T; Romeiro, 3’/2T

Palmeiras: Valdir de Moraes; Djalma Santos, Valdemar Carabina, Aldemar e Geraldo Scotto; Zequinha e Chinesinho; Julinho Botelho, Américo Murolo, Romeiro e Nardo. Técnico: Osvaldo Brandão.

Santos: Laércio; Urubatão, Getúlio e Dalmo; Formiga e Zito; Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.